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Por: Celso Frauches

Educação Superior Comentada | Políticas, diretrizes, legislação e normas do ensino superior

Ano 2 • Nº 64 • 3 a 9 de julho de 2012 Ementa: A Coluna desta semana trata da sensibilização da comunidade acadêmica para o Enade, que gera indicadores e insumos para a construção do CPC e do IGC

<p>Participei do <em>workshop</em> <strong><em>Normas e direitos das IES no processo avaliativo: os segredos de um resultado positivo</em></strong>, promovido pela ABMES, no &uacute;ltimo dia 3, em Bras&iacute;lia. Coube-me abordar as quest&otilde;es relativas &agrave; sensibiliza&ccedil;&atilde;o dos alunos sobre o Enade.</p>

<p>Os que j&aacute; conhecem a minha posi&ccedil;&atilde;o sobre o Enade e os indicadores dele extra&iacute;dos &ndash; o Conceito Preliminar de Curso (CPC) e o &Iacute;ndice Geral de Cursos (IGC) &ndash; talvez estranhem a minha participa&ccedil;&atilde;o nesse evento e para abordar quest&otilde;es relativas &agrave; sensibiliza&ccedil;&atilde;o dos estudantes.</p>

<p>O Enade &ndash; Exame Nacional de Estudantes &ndash;, nunca &eacute; demais repetir, &eacute; parte integrante do Sistema Nacional de Avalia&ccedil;&atilde;o da Educa&ccedil;&atilde;o, o Sinaes, institu&iacute;do pela <span style="color:#0000ff"><a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Lei/L10.861.htm" target="_blank">Lei n&ordm; 10.861</a></span>, de 2004. &Eacute; uma tentativa de avaliar a aprendizagem de parte dos alunos dos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o das IES brasileiras, promovida pelo Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o existe exame id&ecirc;ntico, em todo o planeta, promovido pelo Estado. Os outros dois momentos avaliativos s&atilde;o a Avalia&ccedil;&atilde;o <em>in loco</em> de Cursos, que gera o Conceito de Curso (CC), destinado a avaliar as condi&ccedil;&otilde;es de ensino, e a Avalia&ccedil;&atilde;o Institucional <em>in loco</em>, que conduz ao Conceito Institucional (CI). A Lei do Sinaes n&atilde;o d&aacute; ao Enade compet&ecirc;ncia para avaliar a qualidade de curso ou de institui&ccedil;&otilde;es. A jun&ccedil;&atilde;o do Conceito Enade (avalia&ccedil;&atilde;o da aprendizagem) com o Conceito de Curso (avalia&ccedil;&atilde;o do ensino), para resultar em um terceiro conceito que poderia conduzir &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o da qualidade do curso, ainda n&atilde;o foi entendida pelo Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o. E n&atilde;o vejo, no horizonte pr&oacute;ximo, qualquer aceno das autoridades do MEC nesse sentido.</p>

<p>O Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, tendo que avaliar <em>in loco</em> mais de 30 mil cursos de gradua&ccedil;&atilde;o e cerca de 1.400 IES, al&eacute;m dos polos presenciais na educa&ccedil;&atilde;o a dist&acirc;ncia (EAD), e n&atilde;o possuindo estrutura e compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica, em seus quadros pr&oacute;prios, para realizar essa gigantesca tarefa, que lhe foi delegada por lei, preferiu simplificar o processo. Criou, mediante a estranha Portaria Normativa n&ordm; 40/2007, republicada em 29/12/2010, o Conceito Preliminar de Curso, o CPC, extra&iacute;do quase que integralmente do resultado do Enade e do question&aacute;rio aplicado aos alunos, dando a este o status de conceito de qualidade do curso. E criou o &Iacute;ndice Geral de Cursos, o IGC, uma m&eacute;dia ponderada dos CPCs. As mirabolantes f&oacute;rmulas de constru&ccedil;&atilde;o do IGC e do CPC, nebulosas em v&aacute;rios componentes, d&atilde;o a esses indicadores ares de esoterismo, sem qualquer resultado que possa merecer o respeito da comunidade acad&ecirc;mica e da sociedade. A m&iacute;dia passa ao largo do entendimento do que seja avalia&ccedil;&atilde;o de qualidade de cursos e de IES.</p>

<p>Mas o MEC, para simplificar o processo de avalia&ccedil;&atilde;o e ver-se livre da avalia&ccedil;&atilde;o peri&oacute;dica do imenso sistema federal de ensino, ofereceu &agrave;s IES um b&ocirc;nus: os cursos com CPC 3 (Satisfat&oacute;rio) e 4 (Bom) podem ser isentos de avalia&ccedil;&otilde;es <em>in loco</em>, nos processos de renova&ccedil;&atilde;o peri&oacute;dica de reconhecimento, caso a IES dispense esse tipo de avalia&ccedil;&atilde;o pelo Sinaes; os cursos com CPC 5 (Excelente) ter&atilde;o automaticamente a renova&ccedil;&atilde;o de reconhecimento, sem a avalia&ccedil;&atilde;o <em>in loco</em>. Id&ecirc;ntico processo aplica-se &agrave;s IES, tendo o IGC como medi&ccedil;&atilde;o de qualidade institucional.</p>

<p>O &ocirc;nus veio para os cursos com CPC inferior a 3 e para as IES com IGC tamb&eacute;m inferior a 3. Esse universo, segundo os estat&iacute;sticos, aplicado aos 30 mil cursos, resultaria na necessidade da avalia&ccedil;&atilde;o <em>in loco</em> para cerca de 6 mil cursos; para as IES, a avalia&ccedil;&atilde;o <em>in loco</em> de pouco menos de 500 institui&ccedil;&otilde;es. H&aacute;, contudo, um agravante. O MEC passou a punir cursos e IES, respectivamente, com CPC e IGC inferiores a 3. A partir desses indicadores insatisfat&oacute;rios, a Seres &ndash; Secretaria de Regula&ccedil;&atilde;o e Supervis&atilde;o da Educa&ccedil;&atilde;o Superior &ndash; passou a baixar notas t&eacute;cnicas, despachos e atos assemelhados, suspendendo a autonomia de centros universit&aacute;rios e universidades, sustando vestibulares, reduzindo vagas de cursos e determinando a assinatura de protocolos de &ldquo;saneamento de defici&ecirc;ncias&rdquo;, em desobedi&ecirc;ncia ao art. 46 da LDB &ndash; <span style="color:#0000ff"><a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm" target="_blank">Lei n&ordm; 9.394</a></span>, de 1996, e da Lei do Sinaes, art. 10.</p>

<p>S&atilde;o as IES de pequeno porte as que mais sofrem com esse perverso sistema marginal de avalia&ccedil;&atilde;o. Pensando, particularmente, nesse leque de institui&ccedil;&otilde;es (cerca de 1.200), a ABMES deliberou ofertar um semin&aacute;rio destinado a esclarecer essas e outras quest&otilde;es, a fim de que as IES que ainda n&atilde;o dominem os procedimentos que conduzem a indicadores insatisfat&oacute;rios ou satisfat&oacute;rios possam adotar medidas corretivas e planejarem com mais conhecimento suas atividades acad&ecirc;micas.</p>

<p>O tema que me coube &ndash; a sensibiliza&ccedil;&atilde;o para o Enade &ndash; tem sido adotado pela maioria das IES, mas com &ecirc;nfase na sensibiliza&ccedil;&atilde;o de sua comunidade estudantil, particularmente, atrelada ao ciclo trienal do Enade. Penso, todavia, que a sensibiliza&ccedil;&atilde;o &eacute; para toda a comunidade acad&ecirc;mica, ou seja, gestores, alunos, professores, t&eacute;cnicos e profissionais de apoio. E essa sensibiliza&ccedil;&atilde;o deve ser permanente, para todos e em todos os anos, independente do ciclo avaliativo.</p>

<p>Como parte da sensibiliza&ccedil;&atilde;o devem ser demonstrados exaustivamente a todos os integrantes da comunidade acad&ecirc;mica o processo do Sinaes e de constru&ccedil;&atilde;o do CPC e do IGC e os &ocirc;nus e b&ocirc;nus decorrentes desses indicadores. Gestores, de todos os n&iacute;veis hier&aacute;rquicos, particularmente os coordenadores de cursos, e professores devem assimilar, internalizar os objetivos e consequ&ecirc;ncias desses indicadores, sendo multiplicadores da sensibiliza&ccedil;&atilde;o dos estudantes, nos relacionamentos e, em particular, na sala de aula e nos demais ambientes de aprendizagem.</p>

<p>A n&atilde;o responsabilidade do aluno com o resultado do Enade &eacute;, talvez, o problema mais s&eacute;rio nos processos de sensibiliza&ccedil;&atilde;o. A import&acirc;ncia de uma avalia&ccedil;&atilde;o, no m&iacute;nimo, satisfat&oacute;ria, em todos esses indicadores, deve ser apresentada como fator preponderante no prest&iacute;gio do diploma no mercado de trabalho e perante a sociedade de um modo geral.</p>

<p>Entendo que a sensibiliza&ccedil;&atilde;o para o sucesso no Enade deve ser sist&ecirc;mica e cont&iacute;nua, ao lado de a&ccedil;&otilde;es e metas para a melhoria constante do processo de aprendizagem. A&ccedil;&otilde;es isoladas de sensibiliza&ccedil;&atilde;o e desaten&ccedil;&atilde;o &agrave;s a&ccedil;&otilde;es de qualidade do curso v&atilde;o, inevitavelmente, conduzir a avalia&ccedil;&otilde;es insatisfat&oacute;rias e a puni&ccedil;&otilde;es, podendo, ao final, o curso ser desativado e a IES descredenciada.</p>

<p>Outra quest&atilde;o sens&iacute;vel &eacute; a premia&ccedil;&atilde;o, que diversas IES j&aacute; promovem, aos alunos ou &agrave;s turmas que obtiverem avalia&ccedil;&atilde;o satisfat&oacute;ria ou superior no CPC. Entendo que a premia&ccedil;&atilde;o deve ser acad&ecirc;mica, como bolsa integral ou parcial para as turmas com desempenho, no m&iacute;nimo, satisfat&oacute;rio. No m&aacute;ximo, penso que o pr&ecirc;mio pode ser em instrumentos que apoiem o processo de aprendizagem, como <em>tablets</em>, por exemplo.</p>

<p>Nas a&ccedil;&otilde;es de qualidade do curso, os conte&uacute;dos das provas do Enade, os previstos nas diretrizes curriculares nacionais e as compet&ecirc;ncias e habilidades requeridas para o exerc&iacute;cio das profiss&otilde;es decorrentes da forma&ccedil;&atilde;o proporcionada pelo curso devem estar presentes no Projeto Pedag&oacute;gico do Curso (PPC), perfeitamente articulado com o PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional, que inclui o projeto pedag&oacute;gico institucional). N&atilde;o s&oacute; teoricamente, mas presente tamb&eacute;m na pr&aacute;tica, no dia a dia do fazer acad&ecirc;mico.</p>

<p>Por uma quest&atilde;o de princ&iacute;pios e valores, n&atilde;o posso deixar de, ao final, reafirmar que o Enade n&atilde;o oferece o mapa ou insumos para avaliar a qualidade da aprendizagem e, muito menos, do ensino. N&atilde;o &eacute;, portanto, conceito que possa gerar indicadores como o CPC e o IGC, siglas que demonizam ou santificam cursos e IES sem qualquer v&iacute;nculo com qualidade.</p>

<p>?</p>

<p>Qualquer d&uacute;vida em rela&ccedil;&atilde;o aos temas aqui tratados, entre em contato com a <span style="color:#0000ff"><span style="color:#0000ff"><a href="mailto:celso@ilape.edu.br" target="_blank"><em>Coluna do Celso</em></a></span></span>.</p>

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