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Médicos questionam escolas fechadas

17/08/2020 | Por: Valor Econômico | 1385
Foto: Reprodução/ W Pensar

Uma campanha de vacinação para covid-19 só deve ser implementada como política de Estado no Brasil no segundo semestre de 2021. Essa é a perspectiva do epidemiologista Wanderson de Oliveira, auxiliar direto do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta em sua gestão no Ministério da Saúde, que elaborou um estudo em conjunto com o médico Fábio Jung sobre o retorno às aulas e os impactos do isolamento para os alunos. O material vem sendo apresentado às secretarias de educação do país.

Oliveira acredita que as crianças não serão prioridade na campanha de vacinação por conta da baixa letalidade vista até o momento nesse grupo. Entre os infectados, apenas 2% são crianças. Diante desse quadro, o epidemiologista é contra o retorno às aulas somente quando a vacina estiver disponível como defendem vários representantes da área de educação. “Já perdemos o ano letivo deste ano e corremos o risco de perder também 2021”, disse, pontuando que sua maior preocupação é com os impactos sociais e emocionais provocados pelo fechamento das escolas - assunto que em sua visão está sendo pouco considerado e não há debates construtivos. “O retorno às aulas virou a cloroquina do momento”, afirmou o epidemiologista que vivenciou a polarização sobre o uso do medicamento e provocou a saída de dois ministros da saúde, Mandetta e Nelson Teich.

Baseado em artigos científicos, dados Unesco e de saúde pública brasileira, entre outros, o estudo mostra que 30% das crianças em quarentena podem desenvolver transtorno de estresse e que 83% de crianças americanas com algum problema psiquiátrico relatam piora em seu estado. “Na epidemia de ebola, em Serra Leoa, houve um aumento de 65% em gravidez infantil e já foi registrado crescimento de 50% de denúncias por violência doméstica durante o fechamento das escolas no Rio de Janeiro”, disse Jung, médico que participou do plano de reabertura por etapas do Rio Grande do Sul e que virou modelo para os demais Estados.

Oliveira e Jung questionam a abertura de bares, mas não de escolas que em outros países foram classificados como serviços essenciais. “Isso é uma hipocrisia. As pessoas podem ir para o bar, mas não podem mandar os filhos para escola”, disse o epidemiologista.

No Reino Unido, que está 70 dias sem aulas, o governo estuda fechar os pubs, restaurantes e outros setores para compensar abertura das escolas, cujo ano letivo começa em setembro. Na Europa, os alunos ficaram sem aulas entre 30 a 70 dias. No Uruguai, foram cerca de três meses e em São Paulo, são quase 200 dias, considerando a projeção de retomada em 5 de outubro - a capital paulista é uma das regiões com o maior tempo de escolas fechadas no mundo.

Segundo artigo publicado na renomada revista científica “The Lancet Child & Adolescent Health”, a maior parte das escolas na Austrália ficou aberta no período de pico da doença, o número de casos de contaminação em crianças foi baixo, apesar de a quantidade de estudantes em sala de atual ter reduzido no período.

Nos países que já abriram as escolas e não houve registro relevante de novos casos de contaminação, o ponto em comum é que foram adotados protocolos rigorosos de segurança como distanciamento, número reduzido de alunos, uso de máscara, atividades em espaços abertos, medição de temperatura e lavagem das mãos a cada duas horas. Em Israel, onde essas medidas não foram adotadas, os casos explodiram. Numa escola, o número de contaminados saltou de dois para 178 em cerca de dez dias, período em que houve uma onda de calor e o governo liberou o uso de máscara.

Questionado sobre a situação do Brasil, onde muitas escolas nem sequer têm sabão e papel higiênico, Jung concorda que essa é uma realidade no país e pontua que o “Estado precisa garantir esses itens básicos nas escolas. Se fizeram hospitais de campanha, aumentaram leitos de UTI, coisas simples e de baixo custo como essas deveriam ser feitas logo”, destacou o médico.