Ciclo
de Debates sobre Políticas Públicas de Educação
Superior
A Universidade num ambiente de mudanças
Renato Janine Ribeiro
Universidade de São Paulo
Meus comentários sobre a Universidade nos
próximos anos – melhor dizendo, minhas reflexões sobre ela
para o periodo que coincide com o próximo mandato presidencial
– talvez sejam um pouco marginais em relação às discussões
mais usuais que tenho ouvido. Não discutirei, embora a repute
essencial, a questão do financiamento das Universidades; o
que pretendo é, partindo de uma experiência que estou montando
há alguns anos, pensar o que significa um ambiente universitário
em nossos dias. Daí decorrerão algumas sugestões e críticas.
Começo assim da experiência de montar um
curso de graduação experimental, interdisciplinar, em Humanidades,
o que venho tentando na USP desde três ou quatro anos, infelizmente
sem muita facilidade – curiosamente, este projeto, que tem
tido amplo sucesso de crítica no país afora, parece até ter
chances de ser implantado antes em outras universidades do
que naquela em que trabalho. Remeto, para quem o queira conhecer
no detalhe, ao livro e ao site que o contêm (os dados
estão no fim do artigo); aqui me limito a delinear seus grandes
traços.
O propósito deste novo curso é dar uma boa
base em filosofia, em artes (sobretudo visuais, mas também
em música) e em literatura, a fim de formar futuros pesquisadores
em ciências humanas e sociais de modo geral. A idéia é que
não se forma um profissional pela reiteração dos temas de
sua área, mas pelo confronto com linguagens à primeira vista
diferentes da sua. Por exemplo, hoje muitos querem ser cineastas
vendo filmes; mas um dos maiores diretores do século XX, Federico
Fellini, certa vez disse que via pouquíssimos filmes, e que
concebia os seus a partir basicamente de livros, ou de outras
experiências que tivesse. Diria, seguindo o seu mote, que
hoje as ciências humanas estão vendo cinema demais – isto
é, que tendem a se confinar em sua área, a conhecer muitíssimo
bem o que nela se faz ou discute, mas com isso perdem de vista
a estranheza, a perplexidade, a indagação que vêm do confronto
com o radicalmente outro. E é por isso que vamos, para formar
em ciências humanas, investir nas humanidades, ou seja, no
que não é ciência.
Por ser um curso experimental, Humanidades
não terá uma grade curricular fixa. Isso, por um lado, reduz
o valor de seu diploma, pelo menos do ponto de vista imediatista
de quem deseja ter uma reserva de mercado, mas por outro lado
– e é o que conta para nós – confere enorme liberdade aos
docentes e aos alunos. Poderemos mudar a programação sempre
que quisermos. Aliás, não teremos um corpo docente fixo, nem
um departamento. Daí, também, que para esse curso não haja
um vestibular como os habituais: a seleção será efetuada entre
estudantes da USP que, desejando entrar nele e já tendo completado
um mínimo de créditos em outro curso, prestem um exame especial,
mais voltado para suas capacidades do que para seus conhecimentos.
(A cabeça bem feita, mais que repleta, como pretendia Rabelais
em sua escola ideal).
Durante os dois primeiros anos do curso,
os alunos de Humanidades terão acesso a diversos enfoques
– diferentes entre si, opostos mesmos – em filosofia, em artes
e em literatura, mas também nas ciências sociais, na história,
em direito, economia, tudo isso podendo alterar-se de ano
para ano. A partir do terceiro ano no curso, freqüentarão
matérias da Universidade como um todo, construindo – com o
apoio de um professor tutor – um itinerário pessoal que leve
a um trabalho de conclusão de curso, que por sua vez constituirá
a base para uma futura pós-graduação. Eis as linhas gerais
do projeto. Passo agora a expor quais idéias da universidade
me vieram em função deste projeto. Algumas destas idéias existiam
antes do projeto, e ele as aplica; outras, porém, nasceram
dele. É delas que quero tratar, mais do que do curso em si..
A idéia pela qual começo diz respeito à relação
entre a Universidade e o mercado. Com a possível exceção dos
cursos seqüenciais, que me parecem idéia muito boa – e aos
quais voltarei –, parece-me que os cursos propriamente universitários
talvez devam emancipar-se da preocupação com o mercado de
trabalho. Dizendo isso, é possível que eu vá a contrario
sensu de uma das idéias mais enfatizadas dos últimos anos,
inclusive por boa parte dos próprios alunos, receosos hoje
de terem uma formação boa em termos acadêmicos, porém inútil
na prática. Mas quero deixar claro que não sustento esta tese
– de que a Universidade não deva clonar o mercado – por defender
um modelo antigo de universidade, afastada das lides cotidianas.
Na verdade, o que me inspira é exatamente a percepção de que
o mundo mudou tanto, e com ele o mercado, que é vão e ocioso
a Universidade tentar tomar o seu pulso e seguir o seu ritmo.
Se não, vejamos. Espera-se que um jovem opte
por uma carreira universitária em torno dos dezesseis ou dezessete
anos, ao iniciar o último ano do segundo grau. Daí a um ano,
ele estará começando um curso universitário de quatro ou cinco
anos. Sua maturidade profissional é de se esperar que ocorra
daí a quinze ou vinte anos. Seu apogeu, sua acme, como
diriam os gregos, daí a vinte e cinco ou trinta. Tudo isso
somado, quer dizer que esperamos o sucesso inicial – o que
chamei de maturidade – vinte ou vinte e cinco anos depois
do momento da escolha. Opto por uma carreira hoje, com dezessete
anos, e espero ser um profissional reconhecido aos trinta
e cinco, quarenta anos, entre 2020 e 2025, digamos. Ora, alguém
que acompanhe o andar das coisas neste mundo pode considerar
sensata alguma pretensão de prever como estará o mercado nessa
data? Não será quase delirante esperar que um jovem possa
realizar hoje uma escolha passível de ser bem sucedida daqui
a duas décadas, e capaz de manter-se viável por três, quatro
décadas, em suma, por toda a sua vida profissional, até uma
aposentadoria que – tudo indica – será mais tardia do que
hoje é?
Não é completamente irrealista essa expectativa?
Some-se a isso um fato, talvez peculiarmente brasileiro. Em
nossa sociedade, os pais – especialmente de classe média –
se tornaram bastante permissivos. Ou porque não dão importância
à educação ética, à imposição de regras, ou porque está cada
vez mais difícil decretar e manter limites (penso que há os
dois lados neste fenômeno), os pais favorecem um certo hedonismo
filial. A adolescência, antecipada já para os anos pré-teen
e prolongada para depois dos vinte anos, desenha assim
um período de busca de prazer e de pouca responsabilidade.
Exemplar disso é o recurso à babá eletrônica para a pacificação
dos filhos, emblemática de uma sistemática terceirização da
relação com eles (até festas de aniversários são feitas em
ambientes especializados: muito do que outrora era resolvido
– ainda que mal – no âmbito da família vai agora para profissionais,
uns ótimos, outros péssimos; ninguém, da classe média para
cima, cresce sem fonoaudiólogo ou psicólogo).
Mas num momento da vida, num só, quando se
avizinha a escolha profissional, esses pais que até então
apostaram – para usarmos a linguagem freudiana – no princípio
de prazer para aplacar os desejos dos filhos, subitamente,
invocam um princípio de realidade claro, implacável: a carreira
profissional, o futuro financeiro. Valem-se de um argumento
que cala fundo: meu filho, o seu nível de vida não se manterá
se você não tiver uma boa profissão. Os prazeres que lhe proporcionei,
a ausência de regra, tudo isso depende, para se manter, de
você agora curvar-se a uma regra duríssima, a que lhe manda
escolher uma profissão de futuro.
Veja-se o contraste entre a omissão paterna,
ao longo de vários anos, a demissão da Lei, a renúncia ao
papel de impor limites, de fazer reconhecer a alteridade –
e a súbita invocação de uma lei abstrata, intangível, impiedosa,
a do mercado; veja-se, aliás, como isso é terrível para o
próprio papel de pai, reduzido que ele se vê a porta-voz acovardado
de uma lei vaga e sem rosto, de uma mão invisível, tão invisível
que nem face tem e assim priva o pai do que lhe poderia restar
de nome, autoridade e voz, voz que ele perdeu porque carrega
a do mercado.
Pois bem, para além dos problemas que isso
coloca para a psique de nossos jovens, o que quero salientar
é que essa inesperada preocupação com o futuro deles é totalmente
inútil. Não há condições, hoje, de prever qual carreira terá
destaque em vinte anos. Nossa própria história, a dos aqui
presentes que têm vinte, trinta ou quarenta anos de exercício
profissional, pode ilustrar este ponto. Profissões que pareciam
prometidas ao sucesso ou fadadas ao fracasso deram resultados
opostos aos que se esperava. Provavelmente a maior parte dos
presentes a esse seminário teve sucesso mesmo em carreiras
das quais pouco se esperava, o que indica o alcance da autonomia
individual, com o sucesso resultando da iniciativa pessoal
e não só do escaninho escolhido no vestibular.
Porém, mais importante ainda é que várias
profissões simplesmente desaparecem. O avanço da informática
foi impiedoso, e pode continuar a sê-lo. Certas profissões
– o mais das vezes, as não criativas, burocráticas, mecânicas
– deixaram ou deixarão de ter sentido. É verdade que isso
pouco se aplica a carreiras que tenham formação universitária,
mas não posso esquecer as páginas de Italo Svevo, na Consciência
de Zeno, em que o personagem-título se gaba de sua capacidade
para escriturar balanços em partidas dobradas. Hoje, certamente
um programa de DOS, num daqueles disquetes flexíveis que já
nem encontramos, daria conta de todo o saber que Zeno demorou
anos para acumular. Treinamentos inteiros se tornaram dispensáveis.
Então, para quê?
Acrescento uma experiência pessoal: sou professor
num curso de filosofia. Sabidamente, este não forma ninguém
para uma carreira profissional bem paga. A única habilitação
que damos permite lecionar no segundo grau – com salários
baixos – ou na universidade, aí em condições melhores mas
que não chegam a ser competitivas com as promovidas por outras
carreiras. No entanto, nossos egressos têm tido êxito profissional
às vezes admirável, em outras áreas, como o jornalismo, a
edição, a empresa, e isso devido à formação que receberam.
A inutilidade do ponto de vista burocrático (o diploma) ou
linear (como naquelas perguntas em suplementos para vestibulandos:
para que serve o curso?) resulta, na prática, razoavelmente
útil.
E isso porque, cada vez mais, os profissionais
seguem, no mercado e na vida, uma trajetória em diagonal,
que os leva de uma primeira formação escolhida com certa segurança
– a partir de avaliações que se acreditam bastante realistas
(o princípio de realidade, a pressão familiar, a ambição,
a ilusão de que dá para escolher como vencer na vida) – para
outros caminhos. A pergunta relevante é: o que determina essa
evasão? O que faz muitos, dentre os mais brilhantes cérebros,
mas não apenas, seguirem um itinerário profissional que acabará
longe de seu diploma?
***
Histórias de vida nesse rumo são das mais
variadas. Há os que prestam seguidos vestibulares, não se
formando em nenhum curso – ou pelo menos não no primeiro,
nem no segundo –, mas acumulando primeiros lugares em concursos
de seleção os mais diversos. Há os que se formam, mas não
exercem a profissão, ou apenas a seguem por algum tempo. Há
os que perdem o emprego, e por isso se vêem forçados a rever
seu perfil e vida. Este último caso é mais triste, e aqui
a mudança no trajeto é ditada por fatores externos, negativos;
mas são inúmeros os casos em que as alterações vêm por assim
dizer de dentro. Disso se segue, não mais uma pergunta, mas
um questionamento mais complexo. Vamos a ele.
Será que a evasão, tão denunciada pelos gestores
das universidades, é mesmo o monstro que tanto se critica?
Esforços notáveis foram envidados para reduzi-la, penso que
com êxito a curto prazo. Mas penso também que a evasão não
se explica apenas pelo ambiente interno à universidade, por
uma dialética entre aluno e curso. Ela tem a ver com um mundo
em mudança, que torna as escolhas – desse a quem chamamos
de aluno, numa fase jovem de sua vida, mas que deveríamos
considerar ao longo de toda ela, como alguém que não cessa
de aprender – muito mais difíceis e precárias.
É claro que nenhum de nós deseja currículos
superados, professores desmotivados, bibliotecas desatualizadas
– para mencionarmos alguns dos fatores que fazem os alunos
se evadirem dos cursos. Mas minha pergunta é se a chamada
evasão não tem a ver com fatores mais amplos, que dizem respeito
à sociedade, à inclusão social do ser humano, jovem e depois
adulto, e não apenas à instituição escolar e ao corpo-a-corpo
que nela se trava entre os alunos e o estabelecimento.
Se eu tiver razão, isso significa que numa
sociedade em rápida mudança é ilusório acreditar que identidades
profissionais sejam fixadas a partir de escolhas efetuadas
antes ou em torno dos vinte anos de idade. Mesmo adiar a data
da escolha, aliás, não adiantaria grande coisa, até porque
certamente nossos jovens dispõem hoje de uma informação muito
maior do que seus equivalentes em qualquer época do passado.
O problema não está no jovem, está no mundo. Talvez eu devesse
então radicalizar a frase com que comecei o parágrafo, e dizer
que numa sociedade em rápida mudança é ilusório acreditar
que identidades profissionais sejam fixadas, ponto – pouco
importando as idades.
Ora, isso significa nos prepararmos para
mudanças mais freqüentes de profissão – no limite, para uma
sociedade na qual as pessoas troquem de inserção profissional
até com certa regularidade. Não sei se os presentes lembram
um texto que aparecia nas primeiras páginas da carteira profissional,
de lavra de algum administrador da era Getúlio Vargas, e que
dizia que aquele documento permitiria ver se o trabalhador
se tinha esforçado no seio da empresa, fiel à mesma – ou,
ficava implícito, se teria saltado de emprego em emprego,
o que seria menos nobre. Pois bem, é esse antigo vício da
mudança que veio a constituir uma característica de nosso
tempo.
***
Seria preciso promovermos uma pesquisa de
longo fôlego, que considerasse os egressos das instituições
de ensino superior, e procurasse ver – passados cinco, dez,
vinte anos – o que ficou para eles, o que passou a fazer parte
do seu DNA, de que maneira foram incorporados o conhecimento
e as vivências havidos ao longo de seus cursos. Certamente
colheremos muitas surpresas. Lembro que, quando entrei no
que então se chamava ginásio, costumava-se dizer que o aluno
bom em latim saía-se bem igualmente em matemática; haveria
afinidades eletivas, secretas, entre as matérias; no caso,
o que unia o bom conhecimento das declinações e a capacidade
de compreender os versos de Catulo à aritmética e à geometria
era o domínio do pensamento lógico. Foi, depois, suprimido
o latim porque seria inútil. Ninguém pensaria em excluir a
matemática ou em dizê-la inútil, é claro. Mas, se havia mesmo
algum parentesco entre as duas disciplinas, como então se
murmurava, é claro que a incorporação do latim ao patrimônio
mental dos alunos iria muito mais longe do que o simples conhecimento
dos clássicos romanos: ela significaria uma agilidade maior
no trato da frase como construção lógica. Ou seja, o latim
seria tão bom quanto a matemática para desenvolver o pensamento
científico.
É possível, se fizermos a pesquisa que sugeri,
que descubramos por que tantos engenheiros viraram suco (o
nome de uma lanchonete na avenida Paulista, em São Paulo,
no final dos anos 80), por que tantas pessoas passam por uma
formação de primeira qualidade em carreiras disputadíssimas
para, depois, tomarem outro rumo. Parece um enorme desperdício
alguém estudar numa excelente faculdade de medicina ou de
engenharia para, depois, escolher outra carreira. São numerosas
essas pessoas, ou constituem exceção? Certamente elas são
minoria, mas não quer dizer que sejam, em quantidade e em
qualidade, insignificantes.
Do que aprenderam, quanto lhes serviu? E
lhes serviu como? Porque servir não quer dizer apenas ter
um uso imediatista. Acabo de redigir um projeto de curso de
ética para futuros empresários e economistas, na Faculdade
Pitágoras, de Belo Horizonte, e nele proponho que a última
aula – para essas pessoas que por profissão cultuam e hão
de cultuar o sucesso – seja voltada para o sentido pedagógico
e ético do fracasso. É fundamental que elas saibam, que todos
saibamos, que em certas circunstâncias é melhor perder do
que vencer. Há vitórias de Pirro. Há um êxito profissional
que aniquila a pessoa. E da mesma forma há aprendizados inúteis,
profissionalmente, mas que dão à pessoa em formação (isto
é, potencialmente, a qualquer um de nós) uma profundidade
de campo para lidar com uma vida em risco.
Não se trata, então, de fazer esse follow-up
dos nossos ex-alunos para descartar as (in)formações que não
tiveram papel em sua vida. Às vezes, pode ser exatamente o
contrário: notar o que lhes faltou, perceber o que truncou
suas vidas pela falta. Alguns excelentes alunos que passaram
por mim, na pós-graduação, não conseguiram terminar suas teses,
não porque fossem fracos, mas porque aliavam a uma inteligência
de primeira qualidade uma autocrítica tão severa que não chegavam
a completar o trabalho; faltou, na formação que tiveram, talvez
psicologia ou simplesmente humanidade. Ficaram amputados em
sua capacidade de realização. Imagino que no mercado de trabalho
possamos detectar multidões de egressos das IES a quem falta
algo essencial, algo que os impede de se realizar melhor;
e descobrir esse ponto truncado será quase fabuloso, de tão
importante para pensarmos melhor os cursos, os currículos.
***
Mas a questão é que a vida tornou-se extremamente
arriscada. Podemos perder o emprego; uma profissão inteira
pode ser substituída por um novo software; mesmo aqueles
de nós que são efetivos, como os professores de universidades
públicas, têm diante de si a perspectiva de uma aposentadoria
muito pior do que esperavam; os casamentos se desfazem; os
filhos somem. Todos os fatores de estabilidade que antes tornavam
a vida segura, dos profissionais aos pessoais, dos mais secos
aos mais quentes, do dinheiro ao amor, estão sendo postos
em xeque. Isso requer, na formação da pessoa – e sobretudo
na educação que culmina na universidade –, que se construa
para cada um o que eu chamaria uma profundidade de campo,
uma retaguarda. Não podemos viver sem este espaço de intimidade
onde possamos retemperar nossas forças, assegurar uma nova
dose de energia, ter a convicção de alguma paz. Antes, a cena
pública – no caso, profissional – era mais segura, e a profundidade
de campo, para o caso do desemprego ou do insucesso na profissão,
era garantida pela família. O mundo público e o íntimo ou,
se quiserem, a boca e o fundo do palco eram, ambos, seguros.
Hoje, gostemos ou não, ambos os espaços, o da visibilidade
profissional e o da invisibilidade afetiva, o da transparência
exibida porém frágil e o do ocultamento tonificante, foram
seriamente perturbados.
A vantagem que situação tão adversa proporciona
é somente uma: que ficamos mais livres para trilhar caminhos
mais adequados às capacidades e desejos de cada qual. Não
precisamos mais nos modelar segundo um rol escasso de possibilidades,
tanto profissionais quanto pessoais. Mas esta vantagem tem
de ser agarrada com todo o empenho, com paixão, porque ela
é a única vantagem que se tem, num contexto tão caro e custoso.
Estamos pagando um preço muito caro pela vida, hoje, em termos
tanto profissionais quanto pessoais; então, que pelo menos
aufiramos o bem que nos custa tanto.
Como, então, formar esta profundidade de
campo? Penso que a Universidade tem sua contribuição nisso.
Antes de sugerir qual seja, porém, tenho de dizer que não
é só ela que deve incumbir-se disso; este deve ser um empenho
de todos nós, na medida mesma em que tomemos consciência desta
crise generalizada das posições sociais, incluindo as profissões
e os compromissos, que vem desde décadas e parece que continuará
ainda por bastante tempo. Mas a Universidade pode melhorar
este quadro de duas formas.
A primeira é alertando para esta instabilidade
que tomou conta da vida atual. Ela tem condições de captar
o que é um mundo de que desapareceu a solidez. Ela pode descrevê-lo,
conhecê-lo, apresentá-lo. Fazê-lo é diminuir as ilusões de
que se nutrem as pessoas, e isso é bom. E assim agindo a Universidade
pode – segundo ponto – reduzir a dor que esse chão ensaboado
proporciona. É aqui que entra o que chamei profundidade de
campo. Não é a Universidade que construirá a profundidade
de campo afetiva, o espaço formado por vínculos de amizade
e de amor que é essencial para nossa subsistência e crescimento.
Mas a academia pode elaborar uma outra profundidade de campo,
numa associação entre conhecimento e ação, entre saber e sabedoria.
Volto, aqui, ao projeto de curso de Humanidades, de que antes
falei.
Tradicionalmente, entendeu-se por muito tempo
que, para sua boa formação ética, o homem – e mais ele, o
varão, do que a mulher – deveria passar por uma boa leitura
dos clássicos, de preferência os greco-romanos. Essa convicção
nasce em Roma antiga, reaparece com a Renascença e está presente
ainda nos inícios do século XX, em nossa República Velha,
dessa feita com um forte viés conservador. Não é nada disso
o que pretende o nosso curso de Humanidades. E isso pela simples
razão de que o mundo atual não comporta, em absoluto, a idéia
de obras clássicas como fiadoras da estabilidade dos valores
essenciais, que era o que pretendia a convicção a que aludimos.
A formação do homem de bem passava, então, pelo aprendizado
de uma ética permanente, inconteste. Ora, tudo o que dissemos
até aqui enfatiza, em nosso tempo, a mudança. Daí que um curso
de Humanidades tenha hoje um sentido inteiramente distinto
do que seria a formação ética estável de outros tempos.
Seu sentido só poderá ser o de lidar com
a mudança. Pode-se e deve-se trabalhar com os clássicos, sim,
mas pela sua qualidade, por sua excelência filosófica, artística
e literária, e não por valores morais que eles portariam no
lugar de sua qualidade específica. O que se procurará estudando
o cânone da cultura humana – ocidental mas também oriental
– será acentuar as diferenças, ao invés portanto de uma ilusória
homogeneidade e permanência. Um dos mais destacados críticos
literários do século XX, Erich Auerbach, começa seu livro
Mímesis distinguindo uma forma de narrar bíblica, e
judaica, de uma homérica, e helênica. Essas diferenças, essas
irredutibilidades são o que interessa ressaltar.
Se educarmos pessoas que não partam da crença
na existência de uma única teoria certa, mas que tenham sido
formadas no confronto de linguagens, de teorias, enfoques
e abordagens, sabendo que cada uma dessas ferramentas de pensar
está dotada de qualidades mas também de limitações, teremos
diante de nós uma geração de pessoas mais apta a lidar com
o que é mutável no conhecimento e no mundo. Não as conformaremos
a um único modo de conversar com o mundo; esse tipo de formação
é, hoje, desastroso no mais alto grau, por deixar as pessoas
inteiramente despreparadas para as crises que tenham em suas
vidas, além de ser intelectualmente insuficiente, por vender-lhes
como verdade definitiva o que, cientificamente, nunca pode
ser mais que provisório.
Uma última palavra: é evidente que um projeto
de curso como o de Humanidades não pode servir de modelo para
toda uma universidade, ou sequer para o seu setor de Humanas.
É um curso experimental, antes de mais nada. Mas ele pelo
menos permite marcar um ponto, a meu ver essencial, que é
o de como podemos e devemos enfrentar um mundo em mudanças.
Isso exige uma reflexão final sobre o mercado de trabalho.
Penso que à Universidade cabe promover sobretudo
a formação dos alunos, enquanto o seu treinamento
pode ser conduzido no ambiente das empresas. Obviamente, a
formação é mais integral do que o treinamento. Este, por sua
vez, é mais mutável, mais específico, mais nervoso, mais sujeito
aos tempos: uma escola de jornalismo, por exemplo, que pretenda
treinar para as redações terá na verdade que mudar a cada
ano ou mesmo semestre suas rotinas – e o fará mal, enquanto
num órgão de imprensa o recém-contratado poderá aprender,
em bem poucos meses, as técnicas que porventura ainda lhe
falte saber.
A universidade não deve tentar fazer (mal)
o que a empresa pode fazer melhor. O papel do ensino superior
é o de fazer bem o que só ele pode fazer – no caso, formar
pessoas para um ambiente de mudanças. Se dermos às pessoas
a densidade intelectual, cultural e ética que depois as capacite
a enfrentar – e mesmo a esposar – as mudanças que experimentarem
ao longo de suas vidas profissional e pessoal, teremos dado
a elas o melhor de nós. E os ambientes de trabalho em que
elas depois se integrarem proporcionarão a sintonia fina dos
meios pelos quais exercerão sua vida profissional.
É claro que isso não significa dois compartimentos
estanques, um a cargo da universidade, outro, da empresa (e,
por que não, dos sindicatos, dos movimentos sociais). Um diálogo
entre esses dois mundos é mais que desejável. O curso seqüencial
pode ser um feliz exemplo disso, se articular bem disciplinas
intelectuais distintas para preparar um bom profissional em
áreas que, por sua própria natureza, são de fronteira. E quando
se diz que hoje o aprendizado nunca cessa, e que vivemos numa
sociedade do conhecimento, é importante que a empresa – a
cliente por excelência que pode, inclusive, custear esse trabalho
de informação e formação constantes – esteja articulada com
o ambiente da pesquisa acadêmica. Nada do que eu disse, portanto,
propõe um alheamento dos dois mundos. Mas não conseguiremos
converter o que é assustador, neste mundo instável em que
hoje estamos, em produtivo e promissor, se não soubermos proporcionar
uma formação densa e rica que prepare as pessoas para as trajetórias
tão díspares, tão imprevistas, que é cada vez mais freqüente
que venham a ter.
Referências bibliográficas
A principal referência bibliográfica deste
artigo é o livro Humanidades – um novo curso na USP (São
Paulo, Edusp, 2001), que organizei e para o qual escrevi dois
artigos. O primeiro deles é uma apresentação, na qual sustento
uma série de princípios sobre a universidade. O segundo é
o projeto propriamente dito do curso. Este último está disponível
na página eletrônica http://naeg.prg.usp.br/humanidades/.