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Universidade Permanente

 

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Universidade Permanente

 

Gestão do Conhecimento para Atualização Profissional, Informação Tecnológica e Educação Superior

 

Cristovam Buarque

Ivônio Barros Nunes

 

PARTE I

Educação para Toda a Vida

Os índios ayamara, dos Andes, têm um poema que se aplica à universidade brasileira e mundial. Segundo eles, para ter a felicidade, uma pessoa precisa de sete harmonias:

  • para frente, com o seu passado conhecido, para não sofrer com remorsos e más lembranças,

  • para trás, com o seu futuro desconhecido, para não ter medo nem ansiedades,

  • para cima, com os deuses e os espíritos, para ter uma razão superior para existir e um papel superior a cumprir,

  • para baixo, com a Terra e o mundo onde vive, para poder canalizar sua energia e agir,

  • para o lado esquerdo, com sua família e amigos, para que sua vida pessoal seja motivo de alegria,

  • para o lado direito, com os vizinhos e o seu país, para que sua vida social seja útil,

  • para dentro de si, com o seu coração, para reconhecer e usufruir das outras seis harmonias.

Este poema de muitos séculos atrás, elaborado por um dos mais primitivos povos do mundo, tem muito a ensinar à universidade, centro e símbolo da modernidade do século XX.

Debatendo-se em uma profunda crise de identidade, de função, de competência, a universidade precisa aprender com os aymara e procurar suas sete harmonias, ligando-se ao mundo e sua realidade mutante.

 

1. ligada para frente, com o gosto de conhecer seu passado.

Os universitários não se interessam pela história da universidade. Nem da universidade como instituição, nem de sua própria universidade. Poucos deles, inclusive no curso de história, dedicam tempo para entender o surgimento da universidade, no século XI, em Paris e seu rápido desenvolvimento em seguida por outros países da Europa.

Para a grande maioria dos universitários, a universidade é apenas uma escola, de um nível superior ao do curso primário e secundário, com a finalidade de ensinar uma profissão. E o papel do universitário é dedicar-se a cumprir o roteiro dos seus cursos e virar um profissional.

Ao pensar assim, deixam de ver que a universidade mais do que a continuação dos estudos, é uma ruptura na maneira de criar e transmitir conhecimento usada nos demais setores educacionais. A universidade não surge apenas para aprofundar nos jovens os estudos que fazem quando crianças, ela surge como o produto de uma revolução na maneira medieval de conhecer o mundo.

Desde o fim do academicismo grego e do império romano, a Europa se fechou por mil anos em mitos, na idéia de que o pensamento vinha de revelações espirituais e deveria ser dedicado à interpretação dos textos religiosos. Houve avanços científicos, houve contatos com o Oriente, houve uma arte sacra, mas a população era prisioneira dos mitos.

Foi a luta intelectual entre o iluminismo que se iniciava com o renascimento e o misticismo que se mantinha, que levou à criação da universidade.

Entender isso trás a dimensão revolucionária da universidade. Passar do segundo grau para a universidade não é uma continuação, é uma ruptura, e cada aluno deve entender isso. E só consegue ligando-se ao seu passado, através do conhecimento da história mais antiga da origem da universidade.

Mas não basta ligar a universidade ao passado de sua origem conceitual, é preciso que cada aluno conheça também a história específica da universidade onde ele estuda. O conhecimento conceitual coloca o aluno em sintonia com o espírito universitário, o conhecimento específico da história de sua universidade que lhe dá o sentimento de coleguismo com os demais alunos e ex-alunos, faz dele um grupo, uma família intelectual.

Por isso, a universidade deve ter como disciplina introdutória, logo no primeiro semestre, para todos os alunos, uma disciplina que ensine:

     

  1. a história da origem da universidade,
  2. o conceito de universidade,
  3. o papel da universidade na história do pensamento universal,
  4. formas alternativas de pensamento anterior à universidade ou concomitante à universidade,
  5. a história da própria universidade, seus fundadores, suas propostas, suas estruturas, seus cursos, ao longo do tempo.

 

2. Ligada para trás, com a aventura de construir seu futuro

A universidade encontrará no seu passado, motivo de harmonia. Apesar de colaborações com trabalhos pouco humanitários, como desenvolvimento de armas, com o nazismo na Alemanha, com o apartheid na África do Sul, a história da universidade é motivo de orgulho, e não de angústia.

O mesmo não se pode dizer do olhar para o futuro.

Diante da universidade está um desafio que a deixa angustiada. Na sua forma atual, seu futuro está ameaçado.

A universidade atual não resistirá às velocidades como avançam o conhecimento e sua divulgação. A cada dia surgem novos conhecimentos que se espalham em forma instantânea.

Quando a América foi descoberta, a universidade teve décadas, talvez séculos, para ajustar seu conhecimento à nova geografia. Fora do mundo dos navegadores e dos políticos, os professores universitários foram os primeiros a conhecer e divulgar a nova realidade da geografia mundial, seus alunos os primeiros a saber. Hoje, quando se descobre qualquer novo acidente geográfico em qualquer parte do espaço sideral, toda a população mundial toma conhecimento simultaneamente com a descoberta. Sem necessidade da intermediação da economia.

O mundo intelectual do começo do século XXI é um furacão de novos conhecimentos e um turbilhão de informações sobre eles.

Neste contexto, a universidade enlouquece por não ser capaz de acompanhar a velocidade daquilo para o que ela foi inventada: descobrir e divulgar.

Cinco componentes dão esta sensação de inutilidade:


a) A percepção de que muitos de seus alunos já não encontram emprego.

Até pouco tempo atrás, a universidade era uma escada segura de ascensão social para seus egressos. Isso lhe dava um prestígio automático, independente de qualquer outro resultado. A universidade adquiria sua harmonia no simples papel de instrumento social de promoção de seus alunos. Isso acabou. A mutação tecnológica faz com que muitos dos profissionais formados pela universidade cheguem ao mercado obsoletos, no mesmo dia de sua formação. Além disso, o processo de globalização da economia e da sociedade faz com que cada país tenha acesso às técnicas e conhecimentos do exterior, sem necessidade de profissionais locais. O desemprego de seus egressos tira uma função da universidade e a deixa perplexa, descontente, sem harmonia com o futuro imediato.

b) O sentimento de que grande parte da produção já não vem de seus laboratórios.

Ao longo deste século, ainda mais do que nos anteriores, a universidade foi o centro principal de geração de novos conhecimentos, através dos laboratórios de seus departamentos. A partir das últimas décadas, uma grande parte das invenções e descobertas na ponta do conhecimento vêm de outros setores intelectuais externos à universidade. A Nasa, a Microsoft, as grandes empresas, laboratórios acadêmicos externos à universidade, são centros de pesquisa tão ou mais importantes do que a própria universidade. E a divulgação do conhecimento produzidos fora da universidade chega ao público por fora das salas de aulas e dos laboratórios de pesquisas das universidades. A universidade fica com uma sensação de inutilidade.

c) A sensação de que muitos dos produtores intelectuais já não precisam de diploma universitário.

Ao mesmo tempo em que os egressos ficam desempregados, a universidade vê, para sua irritação, que muitos dos novos empregos são preenchidos com profissionais que não passam pelas bancas universitárias. São jovens autodidatas (ou que se formaram trabalhando) nas novas áreas que a universidade não consegue acompanhar, em função da rigidez de seus cursos e de suas estruturas.

d) A descoberta de que, de repente, as empresas e o estado montaram instituições próprias, não só de pesquisa mas também de formação dos técnicos que necessita.

A cada dia a universidade vê surgir, com o nome de universidade corporativa, centros de formação para os funcionários da MacDonald’s, da Xerox e de cada uma das grandes empresas do mundo. A universidade tradicional vai ficando órfã, por não atender as demandas do mercado de pessoal superior. Isso não por causa de falta de egressos ou de vagas, mas porque o ensino da universidade não responde à demanda. Os cursos fechados nos departamentos, as teorias que chegam depois de longos doutorados, não são capazes de acompanhar um novo conhecimento que se faz novo a cada dia, e cada dia mais necessário. O próprio Estado, que mantém as universidades, mostra suas desconfianças, ao criar cursos superior separados da universidade, capazes de formar os profissionais que ele precisa.

e) O susto de que as pessoas se informam diretamente, pela mídia, dos novos conhecimentos desenvolvidos fora da universidade.

Finalmente, o avanço dos novos métodos de comunicação em tempo real, faz com que a mídia seja o veículo de transmissão do conhecimento diretamente entre o criador intelectual e o público em geral, sem necessidade de intermediação da universidade. A instituição que foi criada para transmitir conhecimento, toma conhecimento pelas transmissões da televisão. Os jovens são informados da criação de novos países assistindo a Copa do Mundo de Futebol, de que existe água na Lua, pelo Jornal da Noite, sabe dos novos avanços da genética pelas revistas semanais, e da descoberta de novos planetas diretamente pelos jornais. Isso quando eles não acessam diretamente na internet e sabem dos novos conhecimentos antes mesmo das informações chegarem pela televisão, rádio, jornais ou revistas.

Os alunos não encontram emprego porque a universidade não foi capaz de se sintonizar com as novas demandas do mercado de trabalho, baseado no rápido avanço técnico. A produção intelectual é feita fora porque a estrutura departamental não basta para fazer avançar o conhecimento e em conseqüência foi necessário criar entidades externas, centros de pesquisa, capazes de realizar o pensamento integrado, multidisciplinar, necessário para setores que não cabem dentro de nenhuma das categorias do conhecimento tradicional que estruturaram a universidade rigidamente nos departamentos. Ao não formarem os cientistas das áreas novas, a universidade viu surgirem gênios dos novos tempos, sem cursos universitários, como é caso dos que criam as técnicas nas áreas de computação, telecomunicações. Ao mesmo tempo, por não formar mão de obra capaz de resolver os problemas dos grandes conglomerados, na nova economia global, as empresas foram levadas a criarem as universidades corporativas.

O resultado é a frustração manifestada pela universidade no seu dia a dia. O descontentamento, mal estar, incômodo toma conta de seus quadros, especialmente de seus professores. Descontentes, eles aumentam a angústia, no lugar de procurar retomar a harmonia.

Esta situação, dentro do atual quadro pode ficar mais assustador ainda se olharmos o futuro mais distante. Quando a neurobiologia se unir a microeletrônica e a teleinformática, podemos chegar ao ponto de dispensar grande parte do processo de aprendizagem, fazendo-o através do implante de chips carregados de conhecimento ligados diretamente nos neurônios, dos "alunos". A universidade, se estiver pronta para isso, se limitará a formar os técnicos que fabricarão os "chips"

Para retomar a sintonia com o futuro, a universidade só tem um caminho: assumir sua crise de identidade em um mundo em mutação, fazendo do seu futuro um tema permanente de estudos. Transformar a frustração em desafio, como um caminhante perdido, que é capaz de transformar a perda em aventura.

Para isso, cada universidade deve:

  1. Colocar a universidade do futuro como tema de debate de todos os universitários.

    Ao terem o sentimento de que a universidade é eterna, e de que sua estrutura atual é definitiva, os universitários deixam de perceber os riscos adiante, e não imaginam os novos cenários nos quais sua instituição se situará. Mesmo aqueles universitários que se dedicam a pensar os cenários de futuro, evitam imaginar em toda radicalidade os cenários para a universidade. Só o choque do novo poderá abrir a chance para um trabalho de revisão da estrutura da universidade.

  2. Experimentar permanentes mudanças em seus currículos, estruturas, programas, temas de estudo.

Para entrar em sintonia com o futuro, nada pode ser impedido de ser tentado dentro da universidade. Como quem tenta avançar tateando, a universidade precisa tatear seu futuro. E, ensaiar aquilo que considera o caminho correto. Neste sentido, a universidade deve, de imediato rever todos os seus princípios:

  • O princípio dos departamentos

Os departamentos não são suficientes para produzir o conhecimento e o profissional de um mundo onde os conhecimentos se unem, onde os problemas exigem ações diretas sobre eles e suas causas. Um caminho é a estruturação da universidade também em núcleos temáticos e disciplinares, que sirvam como encruzilhadas dos conhecimentos específicos.

  • O princípio dos cursos e dos diplomas

Ao longo de décadas e mesmo séculos, a universidade organizou seus cursos em períodos fixos, com um mínimo de quatro anos, e formulou o princípio de que ao final deste período, o aluno se formava e recebia um diploma válido para toda sua vida.

A realidade matou este princípio. Ao se formar, nos tempos de hoje, o estudante já tem superado uma grande parte do conhecimento que adquiriu. E o conhecimento pode ser adquirido em tempos muito mais curtos do que os tradicionais quatro a seis anos.

A nova universidade deverá reduzir o tempo de seus cursos, e ao mesmo tempo fazê-lo permanente. Os alunos passarão menos tempo dentro da universidade e jamais sairão dela.

Neste momento da história da universidade, no dia de sua formatura, um engenheiro já está com seus conhecimentos superados, alguns já se formam totalmente obsoletos, por isso não precisa um curso longo de cinco anos para se formar. Nem adianta este tempo tão curto. Para continuar engenheiro, ele terá que estar permanentemente ligado à universidade em um sistema on-line de atualização. A universidade fica parte do tempo como formadora e todo o tempo como recicladora e fonte de informações. Só na lápide do túmulo será possível afirmar definitivamente a profissão de um universitário. Como se a lápide de pedra substituísse o diploma de papel, e o conhecimento só ficasse suficiente depois que o profissional deixar de trabalhar.

  • o princípio dos doutorados

Atualmente, as universidades criaram um altar para os doutores. Em todas as áreas, o diploma de doutor passou a significar a referência permanente do conhecimento na área. Isso está asfixiando a universidade. Também no que se refere aos doutorados, as universidades deverão fazer uma mudança radical: eles serão cada vez mais necessários, como cursos pós-graduados, e ao mesmo tempo cada vez menos necessários como repositários de saber. Todos os universitários devem caminhar para ser doutores, e nenhum deles pode considerar seus conhecimentos como definitivos.

  • o princípio do campus

O campus universitário é uma das grandes invenções da humanidade. Depois do enclausuramento dos mosteiros, os intelectuais passaram a viver em espaços abertos, onde conviviam. Mas, da mesma forma que o campus derrubou os muros dos mosteiros, a internet está derrubando os muros invisíveis que cercam os campi. A universidade do futuro não poderá se limitar a um espaço geográfico. Ela será um espaço virtual interligando todas as universidades do mundo, alunos e alunos, professores e professores, alunos e professores.

 

3. Ligada para cima, com a ética, a espiritualidade e a linguagem

A universidade ficou tão consciente de sua importância no ensino das suas disciplinas, em seus departamentos, que deixou de lado a preocupação com o seu propósito ontológico. Formar alunos passou a ser a finalidade e não um meio para fazer o mundo melhor e mais belo, melhor pelas técnicas, mais belo pela verdade e pela arte. Duas razões faziam com a universidade não se preocupasse com a dimensão da ética de seu papel.

Primeiro, porque vivia dentro de um paradigma, onde o mercado ou o planejamento seriam capazes de conduzir o processo social. A universidade podia se dar ao luxo de não discutir os seus propósitos, assumir que ela produzia um fim em si porque se integraria no processo social, servindo à finalidade mais profunda do projeto civilizatório.

Segundo, porque o poder da ciência e da tecnologia estava dentro dos limites que asseguravam pequenas mudanças, capazes de serem corrigidas, em caso de erros.

Nas últimas duas décadas, estes dois fatos se transformam.

O mundo sai da tendência evolutiva em direção ao sonho de igualdade e liberdade graças ao avanço técnico, e se situa em uma encruzilhada, na véspera de uma ruptura. De um lado a possibilidade de retomar os sonhos éticos, mas controlando a técnica. De outro, o risco do avanço técnico levar à divisão da humanidade, partida entre uma parte moderna, rica, inteligente, longeva com saúde plena, e outra excluída, pobre, com baixa esperança de vida, fraca e sem saúde.

Surge a necessidade de pensar não apenas como construir o futuro, mas qual futuro construiu.

Além disso, percebe-se o poder catastrófico que tem a ciência e a tecnologia ao brincar com as coisas do mundo.

A bomba atômica foi o primeiro indicador desta mudança. Depois dela, o mundo percebeu que fazia uma ruptura com o significado da palavra guerra, e que a ciência e a tecnologia adquiriam um poder catastrófico. Desde então, a cada ano, foram surgindo novos indicadores do risco de catástrofe provocado pelo saber dos homens. Mas a universidade não mudou. Continuou fazendo físicos como se ainda estivéssemos no tempo de Newton, biólogos como se não houvesse ainda a possibilidade de manipulação genética pela bioengenharia, os economistas continuaram trabalhando com base no aumento da produtividade, sem preocupação com o fato de que as novas técnicas descartam a necessidade de emprego.

Prisioneira de sua arrogância de construtora de um mundo sempre caminhando para ser melhor e mais belo, mais livre, a universidade ignorou que ela pode ser a construtora de um mundo trágico. No lugar da beleza, da verdade, da bondade, da igualdade, a universidade pode ser um instrumento da construção de uma humanidade partida, entre aqueles que têm acesso aos benefícios das técnicas e do conhecimento que ela cria, e as massas excluídas. Se continuar neste rumo, dentro de algumas décadas, a universidade terá sido um dos mais importantes instrumentos da ruptura da humanidade em dois tipos diferentes de seres humanos, uma ruptura da própria espécie dos seres humanos, em duas espécies distintas, construídas pelos economistas, pelos biólogos, pelos engenheiros, pelos psicólogos, pelos próprios filósofos formados na universidade.

A universidade da África do Sul teve um papel preponderante na legitimação e na implantação do apartheid, a partir dos anos 30. O mesmo pode acontecer com a universidade mundial, no começo deste século. O instrumento de legitimação e construção do desenvolvimento separado, global para os ricos do mundo formando um primeiro mundo internacional deles, e o arquipélago de pobres espalhados pelo mundo, com um corte dentro de cada país.

Para enfrentar seu novo tempo, a universidade precisa redescobrir a ética como parte de sua preocupação constante. Nenhum profissional da universidade, estudante ou professor, pode deixar de se perguntar, a cada dia, porque e para que está na universidade e não apenas se perguntar como sair dela com boas notas, como é a pergunta atual.

A preocupação com seu propósito tem que ser constante. A universidade dos próximos anos deve não apenas ensinar uma profissão, mas também incorporar nesta profissão um sentimento do propósito ao qual ela serve, dentro dos valores fundamentais que a humanidade conseguiu construir até este momento. Se não fizer isso, ela será o instrumento do avanço técnico e científico, mas será o instrumento do retrocesso ético.

Neste propósito, a universidade terá que redescobrir um valor que estava na sua origem: o valor da espiritualidade. No momento de sua criação, a universidade era ao mesmo tempo liberdade dos dogmas religiosos, mas ainda centro de reflexão e valorização da espiritualidade. Com o tempo, com o racionalismo, com o cientificismo, a universidade foi se afastando da espiritualidade.

Para ela, a verdade era apenas aquela que se apresentava em suas teorias. Ela saiu da espiritualidade e caiu no dogma do cientificismo. O que hoje acontece no mundo é uma crescente necessidade de espiritualidade. Não apenas sob a forma religiosa, também sob a forma das artes, das reflexões puras, das possibilidades de novos entendimentos e novas formas de pensar.

A universidade precisa perder a arrogância de suas teorias e aceitar teorias que surgem no mundo, fora do Campus. Mesmo que sejam esotéricas, incompatíveis com o rigor científico, mesmo assim existem no mundo e com um papel a cumprir: serem instrumentos de avanço na direção da verdade, ou apenas um direito dos seres humanos a suas crenças, mesmo que em um espaço intelectual separado da ciência.

Finalmente, na sua ligação para cima, com o mundo puro das idéias, a universidade precisa ser, nas próximas décadas, um centro de invenção de novas palavras. O ponto de mutação que a humanidade atravessa neste momento exige uma nova leitura do novo mundo que surge.

Depois de um terremoto ou bombardeio, os mapas perdem significado, suas ruas desapareceram, novos caminhos surgem por onde antes eram casas. As ruínas exigem novos mapas. O mesmo acontece com os dicionários; quando o mundo muda, as palavras perdem sentido e novos conceitos estão a procura de palavras que os definam. A realidade mudou, mas as mesmas palavras continuam. É como se entre o pensamento e a realidade existisse um véu encobridor. O papel da universidade é desvendar este véu e mostrar a realidade, inventando as novas palavras que o mundo carece para se descobrir.

Mas para isso ela tem que mudar. O que se observa hoje é a resistência da universidade, dentro de cada um de seus cursos, a aceitar o papel de construtora de novas idéias e com elas novas palavras. Presos aos seus orientadores, que estão presos aos textos onde estudaram ou àqueles que escreveram, os professores se negam a colocar de lado as antigas palavras e os velhos conceitos; não percebem nem imaginam o que está surgindo; não se aventuram a construir um novo mapa de conceitos através de um novo dicionário com as palavras que casem com os novos fenômenos do mundo. A universidade surgiu de uma guerra entre os velhos livros da idade média e os livros em construção do renascimento. Mas ela esqueceu seu papel transgressor e se fez defensora dos novos livros onde estuda.

Ser universitário hoje deve ser lexicógrafo do novo mundo em formação, e não o guardião dos velhos dicionários.

A ética, a espiritualidade e a linguagem não entraram na universidade por nenhum dos departamentos específicos. Nem mesmo pelo de filosofia, que toma a filosofia como um fim em si, existente em busca de ser aprendida, e não consegue ver a filosofia com a construtora do entendimento de novas éticas.

Para ser infiltrada pela ética, a universidade precisa de construtores de ética. Um caminho metodológico para que esta infiltração ocorra é a montagem dentro da universidade de um centro criador e instigador do pensamento para toda a universidade. Um Núcleo da Reflexão Filosófica, da Promoção do Debate Ético, da Receptividade às Formas Alternativas de Pensar. A este Núcleo caberia promover, diariamente, o debate, a contestação, a aceitação de dúvidas, a construção dos objetivos finais da universidade e de cada um de seus profissionais, suas pesquisas e ensino.

 

4. Para o lado esquerdo, ligando todas a universidades com se fossem uma só.

A invenção do quadro negro mudou radicalmente a forma de ensinar e aprender, a invenção do computador e da internet mudará ainda mais. A sala de aula do futuro será mais diferente das salas atuais, do que é diferente as atuais em relação à academia grega clássica.

As universidades isoladas não serão capazes de produzir o pensamento original que cada uma elas tem a obrigação. A universidade do futuro será singular, uma única, unificando todas em um só sistema de informações.

Os novos meios de comunicação permitem que o aluno de qualquer universidade tenha acesso aos professores e às informações e aos cursos de qualquer outra universidade.

Para que isso aconteça é preciso que cada uma delas procure se interligar em uma imensa rede universitária mundial, compatibilizando seus sistemas, definindo vocações específicas.

Enquanto uma integração mundial não é organizada como algo usual, é preciso que dentro de cada país seja criada a rede universitária.

Com esta rede montada, a universidade mudará sua concepção de cursos. Cada aluno poderá ficar muito menos tempo dentro do campus, os cursos serão reduzidos para poucos anos, e até meses, mas ao mesmo tempo durarão para sempre na vida do profissional.

Ligada entre todas elas, a universidade do futuro estará ligada permanentemente com todos seus ex-alunos.

 

5. Para baixo, com a ecologia

Como todo o pensamento ocidental, desde os gregos, a universidade surgiu sem respeito à Terra. A universidade foi um passo adicional no caminho da arrogância antropocêntrica. Isso pode funcionar corretamente até os anos 70. Já no final dos anos 60, os homens começaram a perceber que viviam na Terra, com recursos limitados.

Esta visão demorou muitos anos, até décadas, para ser aceita como uma conclusão científica dentro das universidades. Depois, penetrou nela sob a forma de movimentos ecológicos, mas, até hoje não penetrou sob a forma de um pensamento holísticos, não antropocêntrico.

A universidade, em todos os seus cursos, ignora a ecologia, com exceção dos cursos específicos da área, que, mesmo assim, consideram a ecologia como um tema de estudos e não como uma nova maneira de pensar e sentir o mundo.

Em cada um de seus cursos, a universidade desconsidera o meio ambiente, continua pensando antropocentricamente.

Uma prova disso é que os pensadores que desejam incorporar o meio ambiente no pensamento, em geral têm que sair da universidade ou, na melhor das hipóteses, criar centros universitários independentes dos departamento. Os cursos de economia não incorporam, raramente se preocupam, com a redefinição do valor das coisas levando em conta a própria Natureza. Continuam considerando apenas o valor do trabalho ou simplesmente o preço de mercado. Os cursos de engenharia não levam em conta o impacto ecológico das máquinas que seus alunos criarão.

A universidade precisa estar em harmonia com o mundo natural onde ela vive. E para isso precisa trazer o problema ecológico, para dentro de seus pensamentos e sua maneira de ver o mundo. Não apenas como um tema de militância pela proteção ambiental, mas como uma nova forma de ver, entender e criar idéias sobre o mundo. E sobretudo na definição do mundo futuro que ela constrói.

Para que isso aconteça, é preciso que o Núcleo de Reflexão Filosófica, independente do curso do aluno, ponha entre seus temas permanentes, o debate sobre a relação entre seres humanos e o resto da natureza, no jogo ou dança de transformação das pedras, plantas e animais, nos homens e sua civilização. Considerando que a Natureza faz parte do patrimônio civilizatório e por isso tem que ser respeitada e considerada.

6. Para o lado direito, com o País e a comunidade ao redor

Ao mesmo tempo que a universidade deve se ligar ao conhecimento mundial, através das redes de informática, formando uma só universidade, cada uma delas deverá também no futuro se integrar com o seu ao redor, o país, a cidade onde está

Hoje é o contrário, as universidade ainda têm medo da ligação internacional no que se refere a forma de criar pensamento e ao mesmo tempo elas se isolam do seu ao redor. Estudam isoladamente problemas distantes de sua realidade.

O caminho para esta ligação da universidade com o seu redor passa pelos temas de estudo e pela atividade de extensão.

O futuro da universidade está em se fazer universal pela ligação com o resto do mundo, mas aproveitando a vantagem que tem em estudar os temas dos quais está próxima.

É o mergulho no local que dará o respeito internacional à universidade e é sua ligação com o mundo que lhe permitirá criar com competência e divulgar universalmente suas idéias.

Por outro lado, a universidade não deve, no futuro, se isolar dos problemas locais, não apenas no estudo, mas também na ação. É inaceitável que uma universidade ignore o analfabetismo ao seu redor, que seus médicos ignorem as doenças e os doentes que estão por perto.

A universidade deve se incorporar à campanha pela erradicação da pobreza, pela luta contra as doenças endêmicas, pela implantação de condições de higiene nas cidades onde ela está.

7. Para dentro

A universidade, para estar em harmonia consigo precisa viver um clima de companheirismo, alegria. A universidade que não for alegre não será uma universidade. Lamentavelmente ela perdeu grande parte desta alegria. Para que ela volte, além da sintonia com as demais harmonias, a universidade precisa mudar internamente, aumentando o lado lúdico de seus cursos, incentivando mais atividades esportivas e festas.

 

8. A universidade tridimensional

Para estar em sintonia com o mundo, para ligar-se e ficar em harmonia, a universidade dos departamentos terá que se transformar em uma universidade tridimensional com seus departamentos, seus núcleos tématicos, seus grupos de atividades lúdicas, seu núcleo de reflexão filosófica e tudo isso ligado ao mundo ao redor pela extensão e ao mundo inteiro pelos meios atuais de comunicação.

PARTE II

Tecnologia e Educação

 

Capítulo 1. Inovações na Educação

O processo educativo é um componente fundamental da vida social moderna, é peça essencial da socialização dos seres humanos, que acabam se vendo no espelho como diferentes dos demais animais justamente porque conseguem viver em comunidades a partir de condições que se expressam de forma histórica. Somos os únicos animais que têm a referência do futuro, construída a partir de nossa compreensão do passado e do presente em movimento.

A organização desse processo de socialização foi sendo construída ao longo de milênios, mas foi nos últimos três mil anos que ela foi tomando a forma de um processo educativo, que agrega elementos que hoje entendemos como parte do processo ensino-aprendizagem.

A educação, nesse amplo contexto da formação humana ou da criação da humanidade, deve ser vista como um caminho de organização de valores, como também um processo de construção de conhecimentos, formação de habilidades técnicas e cognitivas. Contudo, apesar de fundamental para a humanidade, o acesso ao conhecimento foi algo muito seletivo. às plebes cabia o direito de obedecer – para isso tinham que aprender algumas coisas, inclusive ter medo - ; às elites era reservado o direito de mandar, fazer obedecer, criar o temor (material e espiritual), processar o controle das massas.

Nos cursos de história ou estudos sociais aprende-se desde cedo que a Revolução Francesa, de 1789, é uma das maiores referências políticas e históricas da formação das democracias modernas. Isto porque, naquele momento, estavam em luta duas formas de governo, duas visões de mundo, dois sistemas políticos e sociais. Um deles despótico, representando o velho e o arcaico, o outro parecia ser participativo, dinâmico e cheio de futuro, pois representava o novo, especialmente para as classes desfavorecidas e as classes em ascensão.

Vendo de longe, pode-se valorizar ainda mais aquele momento de passagem se for observado que ali estava iniciando um longo e difícil processo de construção da cidadania.

Essa referência imediata à Revolução Francesa se dá porque desde aqueles momentos até os dias de hoje vivenciamos uma longa trajetória de lutas e mudanças de comportamento, que foram, pouco a pouco, fazendo com que pessoas excluídas dos benefícios sociais fossem se transformando em indivíduos e depois em cidadãos.

Essa conquista da cidadania não é importante só porque todos os adultos, independentemente de sexo, raça ou credo, podem votar e ser votados, mas porque a pressão democrática colocou em tela as necessidades de todos e ampliou o leque de direitos que hoje consideramos universais (ou quase): educação, saúde, alimentação, segurança, etc.

É possível, para se compreender melhor o sentido geral da proposta da Universidade Permanente, fazer-se uma comparação semelhante àquela que os cientistas sociais fazem entre os primórdios da democracia e o veloz século XX, onde grande parte dos direitos foi conquistada. Para o caso da democracia, as conquistas descortinadas no século, que acaba de se concluir, somente foram possíveis porque havia uma base valorativa que se firmou desde a Revolução Francesa. Dessa mesma forma pode-se dizer, com muita tranqüilidade, que assim como "literatura é linguagem carregada de significado" nada mais justo que ver a educação como o processo de construção e reprodução de valores e saberes; especialmente como o meio de edificação de modos de vida coletivos com base em valores éticos e de solidariedade.

A educação é o processo de valorização, reprodução e construção dos significados e de novos valores.

Dessa forma, as conquistas democráticas do século XX passam a marcar profundamente o sentido da educação e as opções que se faz para incorporar as massas e dar-lhes acesso universal ao ensino. É nesse contexto que surgem as políticas de educação popular, de educação para o trabalho, de universalização do ensino, de respeito ao aluno (que aos poucos, do início do século para cá, vai deixando de apanhar nas escolas) etc. ...

Ao analisar os conceitos que estarão sendo sugeridos em seguida, é importante observar que o ambiente histórico e as referências de valores deste projeto da Universidade Permanente estão ligados ao século XX, mas nosso olhar estará voltado para o futuro. O sentimento de viver no futuro pode ser a marca deste século XXI que começamos a construir. Por isso nosso foco será sempre o ser humano em construção, o cidadão que conquista o direito à educação e, ao mesmo tempo, é desafiado a pensar, a criar, a reinventar seu mundo. Estamos começando um século que vai ser muito mais revolucionário e transformador que o anterior. Vai ser mais rápido, mais frenético ... isso sabemos, o que ainda não sabemos, pois exige muito de nosso esforço e da iniciativa de cada um é se ele será mais justo, mais humano, mais verdadeiro. Por isso é fundamental sempre e sempre insistir nos valores humanos.

Assim, ao mesmo tempo que o olhar da Universidade Permanente é o futuro, se sabe que os valores éticos que se moldam como seus alicerces têm uma referência histórica muito tênue ainda. São valores que marcaram a segunda metade do século XX, mas ainda não se mesclaram com as fibras dos corações de todos. Até há pouco ainda se suportava a idéia de que uma parte da humanidade era formada por seres humanos e outra parte por algo que se assemelhava a eles, discutia-se se negros e índios teriam alma ... era "natural", em grande parte do mundo "civilizado" que homens, mulheres e crianças negras fossem escravizados e tratados como animais, como coisas que se trocavam em mercados fétidos.

Por compreender que a tarefa de construção da Universidade Permanente não é somente um passo a mais no sentido de criar mecanismos de informação e capacitação, o foco de sua ação será sempre na educação, como processo de construção da humanidade em cada um de nós. Assim, deve-se tratar a educação não como adestramento ou o instrumento de capacitação do indivíduo para o cumprimento de determinada tarefa. Lembremos sempre, educação é parte essencial do processo social de construção da humanidade em cada pessoa. Esse cidadão em construção será, crescentemente, chamado a descortinar novos caminhos, novas alternativas, novas formas de se conquistar o bem-estar da humanidade, combinando isso com o respeito ao meio ambiente e aos demais seres vivos.

Hoje em dia, a educação está, cada vez mais, incumbida a desempenhar um papel fundamental na construção da sociedade democrática. Ela aparece como condição (não única, é certo) capaz de equalizar oportunidades e dar acesso amplo e geral ao produto do conhecimento humano acumulado. "Educação é simultaneamente a causa, a conseqüência e o facilitador de mudança no interior de uma sociedade". E, fundamentalmente, a "função social da educação é muito concreta e está necessariamente vinculada ao processo de conquista e exercício da cidadania plena por todos os membros de uma sociedade, que se quer intransigentemente democrática".

É nesse contexto que despertam a educação a distância e as tendências ao uso de tecnologias informativas e comunicativas na educação presencial, na segunda metade do século XX. Especialmente a educação a distância aparece como meio adequado para criar novas oportunidades educativas para um número cada vez maior e crescente de jovens e adultos que desejam retomar estudos, ter acesso a cursos que complementem sua educação formal ou como meio de manter cidadãos atualizados sem perder sintonia com as mudanças contínuas e rápidas de nossas sociedades industriais, que começam a, cada vez mais, se transformar em sociedades da informação. A educação a distância, de forma privilegiada, desponta como o meio de se materializar e proporcionar a educação flexível, de qualidade e ao longo de toda a vida, que nossas culturas começam a demandar. E, mais diretamente em nosso caso em particular, a educação a distância pode ser o grande instrumento para abrir a todos os profissionais universitários a chance da atualização permanente, o meio para colocar-se sempre em dia com os avanços do conhecimento científico e tecnológico e, também, sintonizado com os debates sociais e profissionais que o ambiente profissional e social exige e promove.

Começando como educação a distância, hoje ela tende a se transformar em um processo mesclado de presencialidade, distância, comunicação instantânea, informação em rede, trabalho cooperativo, construção universal do conhecimento, educação por toda a vida.

Neste momento, os conceitos se confundem e fundem-se. Isso porque há uma maré de transformação que se avizinha, que chega sorrateira, que penetra nas formas pretéritas de se educar, mas que ainda não construiu um novo jeito próprio da contemporaneidade. Ao construirmos esse caminho, precisamos compreender, em primeiro lugar, o sentido, o caráter disso que chamamos educação.

 

 

 

 

A. O caráter da educação

Ao longo da história da humanidade, as instituições educacionais, nas variadas formas organizacionais que tomaram, sempre estiveram grávidas de um conflito permanente entre o ato de conservar e o processo de renovação.

Não obstante seu papel fundamental no desenvolvimento (e sustentação) da ordem social, a prática educativa, notadamente aquela que se processa sob a égide das escolas formais, tem muito mais feição (e função) conservadora e reprodutora que renovadora ou crítica. Isso se pode observar, com certa facilidade, tanto no plano ideológico quanto na forma técnica, na organização institucional e nas metodologias aplicadas ao processo educativo escolar.

Essa contradição interna pode ser caracterizada inclusive como o motor da dinâmica da educação. Assim, podemos ver a educação também como "um processo, individual e coletivo a serviço da continuidade, da atualização e da renovação de uma determinada cultura. O processo educativo, enquanto dinâmica social, deve propiciar a elaboração e o domínio, por parte dos indivíduos e dos grupos, de novos modelos de indagação da realidade, de modelos valorativos e normativos para a ação e de formas de comunicação e expressão que afiancem a vinculação e coesão do grupo ou comunidade. Em essência, o processo educativo consiste na permanente transformação dos comportamentos para uma compreensão cada vez mais integral e uma ação cada vez mais solidária sobre o mundo, em sua totalidade: física, biótica e antrópica."

O caráter conservacionista da instituição e dos agentes educativos pode tanto assumir a forma momentânea de reação à mudança, como tomar a característica de um modo de resistência a ataques que se façam contra determinada cultura, organização societária ou costura social. Talvez por isso aquelas organizações sociais que se incumbem de promover a educação e desenvolver o ensino são as que muitas vezes tendem a apresentar maior resistência à mudança e ao novo .

As instituições educacionais têm carregado, ao longo da história essa dupla característica: são conservadoras e, ao mesmo tempo, possibilitam o nascimento do novo.

B. A escola tem história

A escola, tal como a conhecemos hoje em dia, tem origem no processo histórico que se inicia com o longo caminho de decadência do regime feudal e constituição do capitalismo. Aquelas escolas constituídas por Santo Crodegango foram, após o reinado de Carlos Magno , dando espaço à constituição da instituição escolar pública, ao lado da episcopal ou religiosa, muito semelhante a que existe hoje, tanto do ponto de vista institucional, quanto no que diz respeito à metodologia de ensino e os rituais a ela relacionados.

Esse ambiente educativo tem, pelo menos, mil anos de desenvolvimento, porém não se desenvolveu na mesma velocidade e nem adquiriu a mesma complexidade que a organização social e as ciências humanas. Mudou muito menos que a realidade em sua volta. Principalmente, como assinalam alguns críticos mais contundentes, pouco incorporou do saber científico e tecnológico produzido ao longo desse período pela sociedade que está ao seu redor.

As aulas eram em tempo integral e exigiam dedicação exclusiva dos alunos e professores. Utilizava-se a memorização, como técnica, e as citações, como demonstração de erudição. A competição desenvolveu-se como elemento central do aprendizado, que se acrescentou à dialética professor-aluno.

No início do milênio as aulas, em geral, eram de tempo integral, os poucos que estudavam o faziam quase que o tempo todo. No início de cada aula, ou se avaliava o aprendizado do último período, lectio anterior ou lectionem reddere (parecido com o que se faz hoje em universidades com os controles de leitura) ou já se iniciava com a leitura (lectio, praelectio, lectura) de um trecho clássico ou passagem da Bíblia.

Em seguida eram feitos comentários e análise do texto, sua base gramatical, as relações que pudessem existir com outros textos ou situações. Os alunos faziam, ao mesmo tempo em que falava o professor, suas anotações (reportationes) com o objetivo de fixarem a aprendizagem. Usava-se muito técnicas de memorização. Muito tempo depois, essas técnicas foram retomadas pela didática jesuítica no Brasil nos séculos XVI e XVII.

Essas anotações eram divididas em notas gerais, registro de palavras e pensamentos por ordem de assuntos e, finalmente, os alunos faziam também citações, dando mostra de erudição, ao lado dos assuntos que deviam desenvolver.

O texto, comentado pelo professor, suscitava perguntas, tanto dos alunos quanto do próprio mestre. Dessas perguntas, chamadas quaestiones, "brotava, espontâneo, o diálogo - disputatio - entre o professor e os alunos, ou entre grupos de alunos, seguindo o proceder da dialética (...) Ao mesmo tempo, desenvolviam a competição, como se depreende do modo que eram organizadas as disputationes. O professor dividia os meninos em vários grupos, dos quais cada integrante fazia perguntas a um parceiro. O bom andamento do certame, a ordem a ser obedecida e a correção dos erros de latim cometidos ficavam ao cargo do professor. Tudo tinha a feição de verdadeira justa intelectual" .

Nos horários de almoço e jantar, os exercícios continuavam. Também era utilizado, como método de aprendizagem, fazer o aluno copiar trechos de textos (glosae) no centro de uma folha de pergaminho, com espaço suficiente entre as linhas para anotações e interpretação de frases ou de palavras difíceis.

C. Tecnologias na educação

Comparando os métodos de ensino praticados àquela época e os em vigor hoje em dia, é certo que diferenças haverá, mas dificilmente se poderá imaginar que houve revoluções que transformaram substancialmente a prática pedagógica e, principalmente, o uso de recursos para a aprendizagem. O espaço físico, a forma de organização de turmas, a sala de aula, o quadro negro, a separação dos horários, os exercícios, os estímulos, o currículo escolar, o credenciamento etc., estão presentes desde pelo menos há seiscentos anos com características muito semelhantes.

Nesse processo talvez o que tenha marcado mais as mudanças no ensino não seja a forma de ensinar nem de aprender, as técnicas e métodos usados, mas sim questões de caráter social, ideológico e ético. As mulheres hoje são maioria, por sua própria competência, luta e obstinação, nos sistemas de ensino, como alunas e mestres. O castigo físico foi incluído e, depois, excluído do processo pedagógico. A Igreja não domina mais a escola. Hoje há o ensino gratuito e o ensino pago. Isso não significa, de modo algum, que a história da educação não seja rica, o é tanto quanto a história das idéias e do processo civilizatório.

Contudo, ainda permanece, como característica de nossas sociedades, certa dificuldade em encontrar outra forma de disseminar os saberes acumulados e construir o processo de socialização inteligente por meio de forma diversa daquela adotada desde mais de um milênio, com a aplicação de tecnologias diferentes das utilizadas naqueles tempos.

Analisando um período de tempo mais próximo do presente, Lauro de Oliveira Lima apresenta uma crítica contundente do que considera retardo entre a pedagogia e a evolução técnica, metodológica e conceitual verificada nas demais artes e ciências. Ele diz que a pedagogia é a mais atrasada das ações humanas no que diz respeito à incorporação dos conhecimentos científicos.

A tecnologia tem assumido, também, o papel de elemento de pressão sobre os processos de ensino e de aprendizagem. "Quarenta anos depois que Gutenberg converteu uma antiga prensa de lagar em máquina impressora, com tipo móveis, havia imprensa em 110 cidades de seis diferentes países. Cinqüenta anos depois que a imprensa foi inventada, mais de oito milhões de livros haviam sido impressos, quase todos eles cheios de informação que antes era inacessível à média das pessoas. Havia livros sobre direito, agricultura, política, exploração, metalurgia, botânica, lingüística, pediatria e até sobre boas maneiras. (...) Assim, tanta informação nova, dos tipos mais diversos, foi gerada que os impressores já não podiam mais usar o manuscrito do copista como modelo de livro. Em meados do século XVI, os impressores começaram a experimentar novos formatos, sendo que entre as inovações mais importantes estava o uso dos algarismos arábicos para numerar as páginas".

A impressora de Gutenberg, em razão do processo social e econômico que dava origem à nova ordem capitalista, serviu para disseminar conhecimentos, potencializar o poder das idéias. A palavra poderia, então, caminhar mais rapidamente que o autor. Não se tratava somente de informação que fluía, mas de bases para a construção de novos conhecimentos que se disseminava. O estudante podia ter acesso, talvez com a mesma facilidade que o mestre, aos conhecimentos, às idéias e às informações que estavam sendo tratados na escola ou na universidade.

A reação não tardaria, podem dizer alguns: "A invenção do que é chamado de currículo foi o passo lógico para organizar, limitar e discriminar as fontes de informação disponíveis. As escolas tornaram-se as primeiras burocracias seculares da tecnocracia, estruturas para legitimar algumas partes do fluxo de informação e para desacreditar outras. Resumindo, as escolas eram um meio de governar a ecologia da informação". Neste caso, usando novamente um conceito amplo de tecnologia, o currículo é uma tecnologia de organização do processo de ensino, formada sob a base de uma determinada cultura que, por um lado, podia estar preocupada em sistematizar e orientar o processo didático para a melhor forma de se transmitir determinado conhecimento, como também poderia ser um meio (ideológico) de controlar essa transmissão de conhecimentos e valores.

Provavelmente a forma mais acertada de se entender a resistência da escola e dos agentes educacionais seja a de perceber esse comportamento como não sendo impeditivo do desenvolvimento de novas metodologias e técnicas pedagógicas ou mesmo como sendo incapaz de promover a negação absoluta da incorporação de novas tecnologias ao ato educativo, mas, antes de tudo, como uma resistência que retarda a incorporação dessas inovações, até mesmo, em certos casos, como manifestação de precaução de cautela frente os modismos passageiros.

Contudo, o importante é saber e compreender que o processo de formalização do ato educativo é algo com características históricas, é construído a partir dos anseios, dos desejos, das realidades sociais, econômicas e políticas, das relações culturais, dos conflitos e dos acordos, enfim, tanto a educação em geral, quanto suas instituições e mesmo as teorias, as metodologias e as técnicas, são criações das sociedades, dos homens e mulheres. E, assim, têm começo, meio e fim; ou melhor dizendo, podem mudar, se transformar em outras formas de se educar ou de possibilitar a construção individual e social do conhecimento.

O mais importante é ter a mente aberta ao novo. Não como modismo, mas com meio de achar meios para cumprir melhor a missão dos educadores, buscando formas de ampliar o acesso de jovens e adultos à educação, quer na forma do ensino regular formal, quer como educação continuada ou universidade permanente.

Melhor ainda se essa ampliação das oportunidades de acesso estiver acompanhada da elevação da qualidade da educação.

Abrir a mente à mudança, ao novo, neste momento, mais que ficar correndo atrás de tecnologias de última geração, significa pensar formas de flexibilizar o sistema de ensino, imaginar processos que ajudem a construir o caminho que os cidadãos vão trilhar nos próximos anos, quer seja com currículos mais adaptados às exigências no mundo moderno (e do futuro de incertezas), quer se manifeste também com a introdução de novos conteúdos, mas principalmente que venha no sentido de olhar o aluno como sujeito que deve ser capaz de pensar com criatividade, que tenha auto-estima, que possa enfrentar mudanças profissionais e de valores.

Nos casos de dificuldades materiais, orçamentárias e políticas para se mobilizar o que tem de mais avançado em tecnologia material, deve-se mobilizar a criatividade tecnológica que está em cada um, fazendo com que mudanças possam operar no seio do jeito tradicional da se fazer educação.

Isso serve para quase todas as situações. Não funciona para empreendimentos comerciais ou atividades que tenham como referência o mercado. Neste caso, imperam as leis próprias da economia, as quais, quando desrespeitadas, produzem efeito muito mais devastador e rápido que as leis civis.

Para o desenvolvimento de um programa de educação permanente (quer seja ele presencial ou a distância, ou mesmo uma mescla articulada dos dois), é importante que a entidade promotora tenha bem claro seus objetivos, conheça muito bem o seu mercado (para o caso das entidades privadas) e faça um bom projeto econômico do empreendimento, pois, mesmo que a demanda hoje seja muito expressiva, a falta de um projeto detalhado pode colocar o empreendimento (qualquer que seja ele) em risco.

 

Capítulo 2. Modalidades Educativas e Novas Demandas por Educação

Uma das principais inovações das últimas décadas na área da educação, foi a criação, a implantação e o aperfeiçoamento de uma nova geração sistemas de educação a distância, que começaram a abrir possibilidades de se promover oportunidades educacionais para grandes contingentes populacionais não mais tão somente a partir de critérios quantitativos, mas principalmente a partir de noções de qualidade, flexibilidade, liberdade e crítica.

Os primeiros modelos dessa nova geração se desenvolveram simultaneamente em muitos lugares, mas de forma muito exitosa na Inglaterra, na década de 70, por isso essa iniciativa passou a ser referência mundial. Mais de dois milhões de pessoas até hoje já estudaram na Open University, sendo que atualmente estão matriculados cerca de 160 mil alunos regulares, com 40 mil alunos em cursos de pós-graduação, e 60 mil em cursos extracurriculares. Êxito similar alcançaram também as universidades abertas da Espanha, da Venezuela e da China, que oferecem igual número de cursos e atendem a maior número de alunos.

Além da democratização, a educação a distância apresenta notáveis vantagens sob o ponto de vista da eficiência e qualidade, mesmo quando há um grandes volumes de alunos ou se observa, em prazos curtos, o crescimento vertiginoso da demanda por matrículas, um calcanhar de Aquiles do ensino presencial.

A educação a distância é voltada especialmente (mas não tão somente) para adultos que, em geral, já estão no mundo do trabalho e dispõem de tempo suficiente para estudar, a fim de completar sua formação básica ou mesmo fazer um novo curso. Esse tipo de aluno, tendo em mãos um material didático de alta qualidade, pode estudar do princípio ao fim toda a matéria de cada programa, realizando sucessivas auto-avaliações, até sentir-se em condições de se apresentar para exames de proficiência.

Para maximizar as vantagens da educação a distância, há necessidade de se utilizar um arsenal específico (meios de comunicação, técnicas de ensino, metodologias de aprendizagem, processos de tutoria etc.), obedecendo a certos princípios básicos de qualidade. Sua clientela tende a ser não convencional, incluindo adultos que trabalham; pessoas que, por vários motivos, não podem deixar a casa; pessoas com deficiências físicas e populações de áreas de povoamento disperso ou que, simplesmente, se encontram distantes de instituições de ensino.

Contudo, os estudiosos da área afirmam que para maior sucesso pedagógico, há necessidade de se tomar vários cuidados. Hoje em dia, um curso a distância já não é mais um curso por correspondência unidirecional, em que somente se enviam livros e outros textos pelo correio e se espera que o aluno já saiba estudar e aprender. É preciso cercar-se de uma multiplicidade de recursos para alcançar êxito. Primeiro, mesmo em lugares onde uma das ênfases da escola é ensinar a aprender, desenvolvem-se materiais de alta qualidade para ensinar a estudar - e, particularmente, a estudar sozinho. Além disso, combinam-se textos bem elaborados e adequados, com vídeos, fitas de áudio, programas transmitidos pelo rádio e pela televisão e assistência de tutores em centros de apoio, onde se estabelecem relações entre os alunos e entre estes e os seus tutores, o que é feito de forma presencial ou pela Internet. Há, ainda, os grandes recursos do computador, da videoconferência, do telefone e do fax, que podem assegurar a indispensável interatividade. E, dentre todas as demais características dos novos processos de educação, este conceito: a interatividade é talvez o mais importante. Mas, para se poder chegar a colocá-lo na equação devida, é preciso analisar com um pouco mais de atenção o processo de desenvolvimento da educação a distância.

     

    Um Pouco de História

    Provavelmente a primeira notícia que se registrou da introdução desse novo método de ensinar a distância foi o anúncio das aulas por correspondência ministradas por Caleb Philips (20 de março de 1728, na Gazzete de Boston-USA), que enviava suas lições todas as semanas para os alunos inscritos. Depois, em 1840, na Grã Bretanha, Isaac Pitman passou a oferecer um curso de taquigrafia por correspondência. Em 1880 o Skerry's College oferece cursos preparatórios para concursos públicos. Em 1884, o Foulkes Lynch Correspondence Tuition Service ministrava cursos de contabilidade. Novamente nos EUA, em 1891, aparece a oferta de curso sobre segurança de minas, organizado por Thomas J. Foster. Em meados do século passado as universidades de Oxford e Cambridge, na Grã Bretanha, ofertavam cursos de extensão. Depois vieram a Universidade de Chicago e Wisconsin. Em 1924, Fritz Reinhadt cria a Escola Alemã por Correspondência de Negócios. Em 1910, a Universidade de Queensland, na Austrália, inicia programas de ensino por correspondência. Logo 1928, a Britsh Broadcasting Corporation (BBC) começa a promover cursos para educação de adultor usando o rádio. Essa tecnologia de comunicação é usada em vários países com os mesmos propósitos, inclusive, desde a década de 30, no Brasil.

    Do início do século XX, até a Segunda Guerra Mundial, várias experiências foram adotadas desenvolvendo­se melhor as metodologias aplicadas ao ensino por correspondência que, depois, foram fortemente influenciadas pela introdução de novos meios de comunicação de massa.

    A necessidade de capacitação rápida de recrutas norte­americanos durante a II Guerra Mundial faz aparecerem novos métodos (entre eles as experiências de Fred Keller para o ensino da recepção do Código Morse) que logo foram utilizados, em tempos de paz, para a integração social dos atingidos pela guerra e para o desenvolvimento de capacidades laborais novas nas populações que migram em grande quantidade do campo para as cidades na Europa em reconstrução ou para a adaptação dos soldados norte-americanos à vida civil.

    Mas, o verdadeiro impulso se dá a partir de meados dos anos 60 com a institucionalização de várias ações nos campos da educação secundária e superior, começando pela Europa (França e Inglaterra) e se expandindo aos demais continentes. No ensino secundário temos os exemplos de: Hermods­NKI Skolen, na Suécia; Rádio ECCA, nas Ilhas Canárias; Air Correspondence High School, na Coréia do Sul; Schools of the Air; na Austrália; Telesecundária, no México; e National Extension College, no Reino Unido. Já no nível universitário: Open University, no Reino Unido; FernUniversität, na Alemanha; Indira Gandhi National Open University, na Índia; Universidade Estatal a Distância, na Costa Rica. As quais podemos acrescentar a Universidade Nacional Aberta, da Venezuela; Universidade Nacional de Educação a Distância, da Espanha; o Sistema de Educação a Distância, da Colômbia; a Universidade de Athabasca, no Canadá; a Universidade para Todos os Homens e as 28 universidades locais por televisão na China Popular, entre muitas outras. Atualmente mais de 80 países, nos cinco continentes, adotam a educação a distância em todos os níveis de ensino, em sistemas formais e não­formais de ensino, atendendo milhões de estudantes.

    A educação a distância tem sido largamente usada para treinamento e aperfeiçoamento de professores em serviço, como é o caso do México, Tanzânia, Nigéria, Angola e Moçambique. Programas não­formais de ensino têm sido utilizados em larga escala para adultos nas áreas de saúde, agricultura e previdência social, tanto pela iniciativa privada como pela governamental. Hoje é crescente o número de instituições e empresas que desenvolvem programas de treinamento de recursos humanos através da modalidade da educação a distância. Na Europa, de forma acelerada se investe em educação a distância para o treinamento de pessoal na área financeira e demais áreas do Setor Serviços, representando esse investimento em treinamento maior produtividade e redução de custos na ponta.

    Cuba

    Em Cuba, a educação a distância (ali conhecida como enseñanza dirigida) começou a ser implantada em 1979. A Faculdade de Ensino Dirigido, da Universidade de Havana, é o centro reitor dos cursos regulares, oferecidos em todo o país e que contam com o suporte de outras 15 instituições universitárias. Os programas curriculares e as estruturas dos cursos a distância são as mesmas dos cursos presenciais.

    Estados Unidos

    Nos Estados Unidos, existe mais de uma centena de importantes universidades e instituições de nível superior e médio, programas de capacitação profissional altamente gabaritados e cursos de formação geral de amplo reconhecimento público. Destacam-se a Pennsylvania State University, com cursos por correspondência oferecidos desde 1892 (em 1995 havia 18.137 estudantes inscritos em cursos a distância oferecidos por esta Universidade); Stanford University (com cursos a distância oferecidos desde 1969); University of Utah (com cursos a distância desde 1916); Ohio University (cursos a distância desde 1924), entre outras várias universidades e faculdades que mantêm cursos de graduação, pós-graduação e educação continuada. Além das universidades isoladas, há nos Estados Unidos consórcios de escolas e universidades que ministram cursos a distância conjugando aquilo que cada uma tem de melhor.

    Canadá

    No Canadá destaca-se a Athabasca University, que começou seu experimento piloto em 1973 a partir da idéia de que poderia criar um campus organizado como uma rede de telecomunicações. Na realidade, naquele momento não se imaginava a facilidade de uma rede telemática de hoje, com Internet e fibra ótica, mas o uso intensivo de telefone, articulado com um eficiente sistema de tutoria. O contato permanente ou fácil entre os tutores e os alunos era possível através do telefone, a conferência telefônica e todas as formas de contato que esse meio de comunicação possibilitava, eram as bases tecnológicas que firmavam a idéia da universidade a distância que se criou logo em 1976 como um modelo próprio, que foi evoluindo e se desenvolvendo a partir de então, tendo como paradigma a sociedade da informação.

    Austrália

    Na Austrália, há dezenas de programas de educação a distância, desde aqueles dedicados à educação fundamental até cursos de graduação e pós-graduação de excelente qualidade, tratados com igualdade de condição de credenciamento e suporte orçamentário em relação à educação presencial. Dentre os inúmeros programas existentes, destacam-se as seguintes instituições, com seus respectivos anos de implantação dos programas de educação a distância: Universidade de Queensland, St. Lucia – Centre for University Extension, 1910; University of Western Australia, 1911; School os the Air, 1956; Open College Network, 1910 (como parte do Sydney Technical College), em 1970 passou a ser independente, chamando-se College of External Studies, em 1985 passou a se chamar External Sudies College of TAFE, e em 1990 passou a chamar-se Open College Network; Victorian Tafe Off-Campus Network, 1975; Universidade do Sul da Austrália (Distance Education Centre), em 1968 era um centro de extensão universitária, 1989 passou a ser o Centro de Educação a Distância; Centro de Educação a Distância da University of Central Queensland, 1968; Centro de Educação a Distância da University of Southern Queensland, 1967; Divisão de Educação a Distância da Australian Catholic University, 1957/1991; Open Learning Institute (Charles Sturt University), 1971; Curtin University os Thechnology (Perth), 1972; Edith Cowan University, 1975/1981; Queensland University of Technology, 1974; University os Newcastle, 1970; Macquarie University (Centre for Evening and External Studies), 1967; Murdoch University, 1975.

    Bangladesh

    Em Bangladesh, a educação a distância foi implantada a partir da organização de um programa de pós-graduação em educação oferecido, a partir de 1985, pelo National Institute of Educational Media and Technology (NIEMT), como parte do programa do governo para a capacitação de professores. No início da década de 90 esse curso passou a ser mantido pelo Instituto de Educação a Distância de Bangladesh, com 3.000 alunos.

    China

    A República Popular da China mantém programas de educação a distância desde o início da década de 50. Em 1951 foi instituído o Departamento de Educação por Correspondência da Universidade do Povo. Em 1955, já estavam organizados cursos através de rádio e material impresso (Beijing e Tianjing) e no início dos anos 60 as primeiras televisões universitárias foram criadas em Beijing, Tianjing, Shangai, Sheyang, Harbing e várias outras cidades. Essa rede funcionou como importante meio de educação a distância até a Revolução Cultural, depois ficou desativada até o início da década de 80. No início da década de 90 as televisões universitárias contabilizavam 1 milhão e 830 mil estudantes em cursos oferecidos em mais de 290 áreas temáticas diferentes.

    Atualmente funciona o Sistema Chinês de Universidade pela Televisão (DIANDA) que reúne 575 centros regionais de ensino universitário pela TV e 1.500 centros locais de educação, os quais, por sua vez, coordenam mais de 30.000 grupos de tutoria espalhados por todo o país. Esse sistema admite anualmente 300.000 alunos e já formou mais 1.500.000 estudantes. Estudos realizados na China mostram que algo em torno de 77% dos graduados conseguiram trabalho nas especialidades em que se formaram pela educação a distância.

    Em Hong Kong, desde 1956, funciona a School of Professional and Continuing Education (University of Hong Kong); desde 1975 funciona a School of Continuing Education (Hong Kong Baptist College), com programas de graduação, pós-graduação e cursos técnicos; o Open Learning Institute of Hong Kong foi criado em 1989, mantendo cursos nas áreas de administração, computação, eletrônica, engenharia mecânica e meio ambiente. O mais antigo programa, nessa região, hoje novamente parte da China, é o Department of Extra-Mural Studies da Universidade Chinesa de Hong Kong, instituído em 1965, com cursos técnicos, de extensão, de graduação e de pós-graduação. Em Macau, com filial em Honk Kong, desde 1982 funciona o Est Asia Open Institute.

    Índia

    Uma das experiências de educação a distância com maior resultado, notadamente no campo universitário, teve início na Índia, com um projeto piloto da Universidade de Delhi, em 1962. A trajetória da educação a distância na Índia apresentou três fases bem delineadas: um estágio de teste, que durou de 1962 até 1970, envolvendo universidades como Delhi, Punjabi, Patiala, Meerut e Mysone; o sucesso das experiências da Universidade de Delhi deram início a uma rápida expansão, que caracterizou a fase seguinte, que se estendeu de 1970 até 1980, com a introdução de programas, cursos e departamentos de educação a distância em várias universidades convencionais, que ofereceram principalmente cursos de pós-graduação; a partir de 1980 se consolidou a educação a distância como alternativa de qualidade, testada e comprovada e, em 1982 foi criada a primeira universidade a distância da Índia a Andhra Pradesh Open University. Em 1985, foi criada a Indira Gandhi National Open University, que funciona tanto oferecendo cursos regulares como credenciando os cursos das demais universidades a distância. Depois ainda foram instituídas as universidades abertas Kota Open University (1987), Nalanda Open University (1987) e Yashwantrao Chavan Open University (1989). Além dessas, no início dos anos 90, mais de 35 universidades convencionais mantinham programas de educação a distância .

    Indonésia

    A Indonésia, com mais de 200 milhões de habitantes, também iniciou cedo seu percurso no campo da educação a distância. Em 1950, o National Teachers Distance Education Upgrading Course Development Centre foi criado para oferecer uma alternativa de aperfeiçoamento de professores. Em 1979, o Ministério da Educação e da Cultura criou uma escola secundária a distância o Centre for Educational Communication Technology. Em 1984, o governo nacional, através do mesmo Ministério da Educação e da Cultura, instituiu a Universitas Terbuka (The Open University of Indonesia), que atende a mais de 100 mil alunos nas áreas de educação, economia, administração, matemática, estatística, administração pública, entre outros cursos.

    Japão

    No Japão há relatos de cursos por correspondência desde fins do século XIX. Na década de 30 uma grande quantidade de cursos por correspondência foi publicada e enviada por correio, todos cursos não-formais. Em 1938, foi criado a Escola Kawasaki para Profissionais da Saúde, uma das primeiras experiências de educação a distância voltada à qualificação e formação de pessoal de apoio médico. Em 1947, as leis sobre educação fundamental e educação escolar incentivaram a criação de programas de educação a distância. Logo em seguida, em 1948, a Universidade Chuo criou uma Divisão de Educação por Correspondência, com ênfase na educação continuada, educação comunitária e desenvolvimento vocacional. No mesmo ano a Universidade Hosei e a Universidade de Tokyo também criaram uma divisão idêntica e dois anos depois a Universidade Feminina do Japão criou uma área de cursos com ênfase em economia doméstica. A iniciativa mais conhecida foi iniciada em 1983, quando foi criada a Universidade do Ar, criada por uma lei especial aprovada pela Dieta japonesa, que, no princípio da década seguinte, atendia aproximadamente 30 mil estudantes através de cursos veiculados principalmente pela televisão e rádio, preparados prlo Instituto Nacional de Educação por Multimeios (NIME) e por materiais impressos.

    Nova Zelândia

    Na Nova Zelândia a primeira escola por correspondência, criada em 1922 (The New Zealand Correpondence School), tinha por objetivo a disseminação de cursos para crianças (ensino primário e secundário) que não tinham acesso a escolas, por dificuldade física ou geográfica, como também para crianças que não residiam permanentemente no país. Os materiais impressos são enviados por correio (livros, quebra-cabeças, jogos, brinquedos), há aconselhamento e tutoria presencial e também se usam materiais áudio-visuais. Em 1946, foi criada a The Open Polytechnic of New Zealand (inicialmente com o nome de New Zealand Technical Correspondence Institute), com a missão de desenvolver cursos profissionalizantes, de educação continuada e também promover a expansão de oportunidades educacionais em nível médio. Há também cursos superiores à distância naquele país, na Palmerston North College of Education (cursos de formação e aperfeiçoamento de professores), na Massey University (especialmente na área de agronomia) e na University of Otago (cursos de graduação e pós-graduação em várias áreas).

    São encontradas também importantes universidades e escolas com cursos a distância também no Paquistão, em Papua Nova Guiné, Singapura, no Sri Lanka, na Tailândia (com experiência desde 1933), na Turquia, no Vietnam, entre outros.

    Rússia

    Na Rússia, centro da antiga União Soviética, a educação a distância foi um grande instrumento de abertura e garantia de oportunidades de educação para milhares de pessoas desde os primórdios da década de 30. Cursos em todas as áreas foram oferecidos, principalmente aqueles que podiam aperfeiçoar os trabalhadores e criar novas facilidades ao homem do campo. Vários líderes políticos e gerentes importantes se formaram ou tiveram seu segundo curso concluído através de cursos a distância.

    Portugal

    Em Portugal, a Universidade Aberta foi criada em 1988 e sua autonomia foi reconhecida em 1994. Ela tem o campus central em Lisboa, mas também tem estruturas na cidade do Porto e em Coimbra. Atualmente, oferece uma série de cursos de graduação e pós-graduação em várias áreas acadêmicas. Mantém uma vasta rede de centros de apoio espalhados pelo país. Seu Instituto de Comunicação Multimídia tem a função de desenvolver os materiais didáticos e o suporte de comunicação dos cursos.

    A Universidade Aberta de Portugal oferece cursos de bacharelato em História, Língua Portuguesa, Gestão, Matemática Aplicada, Estudos Europeus, Ciências Sociais, Literatura, entre outros; também oferece licenciaturas nas mesmas áreas e em informática. Também tem cursos não formais, especialmente de qualificação para o trabalho.

    Em seu programa de pós-graduação, a Universidade Aberta de Portugal oferece cursos de mestrado de Administração e Gestão Educacional, de Comunicação Educacional e Multimídia, de Comunicação em Saúde, de Contabilidade e Auditoria, de Contabilidade e Finanças Empresariais, Ensino de Ciências, Estudos Ingleses, Estudos sobre as Mulheres, Gestão de Projetos, Gestão da Qualidade, Relações Interculturais e também um mestrado interdisciplinar em Estudos Portugueses.

    Espanha

    A Espanha criou sua universidade a distância por um Ato do Parlamento em 1972. A UNED-Universidade Nacional de Educação a Distância é parte integrante do sistema nacional de ensino superior. Um aluno da UNED tem os mesmos direitos e deveres de um aluno de qualquer universidade presencial. Com mais de 200.000 alunos, sendo 130.000 universitários, cada aluno da UNED custa para a instituição aproximadamente 41% do que custa um aluno de uma universidade convencional. Como há a possibilidade de se combinar o estudo com o trabalho, na UNED, 83% de seus alunos são também trabalhadores.

    O elemento pedagógico central do processo de ensino-aprendizagem dessa Universidade é o que chamam de Unidade Didática, em geral um guia de estudos, com textos e materiais de apoio, atividades e exercícios. O material impresso continua sendo o meio de ensino mais importante, mas também se utiliza da radiodifusão, da televisão e de outros meios audiovisuais. Mais recentemente, a UNED tem expandido a aplicação de videoconferências entre seus 15 centros de estudos e tem investido na comunicação por Internet.

    Venezuela

    A Universidade Nacional Aberta da Venezuela começou a ser criada em 1976, quando um grupo de pesquisadores, comandados pelo Professor Miguel Casas Armengol, apresentou ao governo um plano de desenvolvimento da universidade, articulando-a com o processo de desenvolvimento nacional daquele país. A idéia, que se implantou em seguida, foi criar uma universidade flexível, que fosse ao mesmo tempo inovativa, catalisadora de desenvolvimento e facilitadora do acesso ao ensino superior. Ela foi criada como um sistema articulado de funções e seus cursos inicialmente tiveram o objetivo de criar novas carreiras, mas adaptadas às necessidades da sociedade naquele momento e, também, que pudessem facilitar a entrada no mercado de trabalho de seus egressos.

    Costa Rica

    Um bom exemplo, por sua simplicidade e eficácia, é o Programa Diversificado a Distância do Seminário Bíblico Latino-americano, da Costa Rica. Em meados da década de 80, essa entidade evangélica, com o apoio de entidades não governamentais da área de educação popular, começou a desenvolver materiais e cursos voltados à educação pastoral, introduzindo temáticas novas e de valorização da cidadania. Esse processo gerou, em 1988, o Curso de Educação Pastoral, com materiais impressos e técnicas de atividade grupal, reflexão e ação na realidade social. Os materiais tinham como foco o estudo em grupo, com um facilitador de aprendizagem por grupo e uma equipe central no Seminário Bíblico Latino-americano.

    A Universidade Estatal a Distância – UNED da Costa Rica é um rico exemplo de aplicação das inovações educativas em um país em desenvolvimento com fortes investimentos na educação superior e que tem objetivos claros de aumentar o número de estudantes de ensino universitário. Criada em 1978, a UNED está ramificada em todo o país, com 29 Centros Acadêmicos e de Estudos, que cumprem a função de assessorar os alunos e apoiar tecnicamente o desenvolvimento dos cursos.

    Seus cursos têm por base programas desenvolvidos principalmente por meio de materiais impressos, mas também conta com vasto conjunto de materiais de suporte em meios audiovisuais, com vídeos e fitas cassetes e o uso de programas radiofônicos para a difusão de alguns cursos, especialmente aqueles dirigidos às comunidades agrícolas e para programas de saúde e cidadania (que envolve também a educação de adultos).

    Inglaterra

    A universidade de educação a distância que tem recebido a referência dos principais estudiosos da área como a mais importante ou aquela que mais influenciou as instituições universitárias de educação a distância é a Open University. Ela foi criada em 1969 e começou a oferecer cursos em 1971. Hoje tem mais de 200.000 alunos, que estudam em suas casas e em seus locais de trabalho através de materiais diversos (impressos, kits, vídeos, fitas de áudio, softwares, jogos e internet). Há cursos abertos, de extensão ou de conhecimentos gerais, que estão traduzidos para várias línguas e são oferecidos por diversos meios. Atualmente há um pouco mais de 40.000 alunos em cursos de pós-graduação. A Open University britânica nasceu no momento em que se acreditava na capacidade da televisão em promover as mudanças educacionais desejadas para a incorporação de grandes contingentes populacionais nos sistemas de ensino. Tanto que ela, quando do momento da formulação do projeto, era chamada de Universidade do Ar (igual a similar japonesa). A BBC (Britsh Broadcasting Corporation) foi instada a servir de base para a criação da Universidade e depois se transformou em sua principal parceira. Realmente, no primeiro momento, o processo educativo estava centrado em cursos oferecidos pela televisão, depois o lugar de meio articulador do processo de ensino-aprendizagem foi conquistado pelo texto impresso. A televisão, de sinal aberto, tem cumprido mais o papel de animação dos estudantes e do público em geral, de informação e para veiculação de programas de elevada qualidade que são produzidos para os cursos (especialmente os de história, artes, geografia e biologia).

    Mais recentemente, além dos cursos de graduação e pós-graduação, a Open University tem dado ênfase a cursos criados para o atendimento de demandas de formação e qualificação de técnicos e trabalhadores. Além de garantir uma receita maior para a instituição, amplia seu universo de alunos e o processo de produção desses cursos ajuda na avaliação e testagem dos demais procedimentos internos da instituição.

    Outras informações sobre instituições britânicas, cursos e entidades de educação a distância no mundo, podem ser obtidas nos bancos de dados do Centro Internacional de Educação a Distância, que é mantido com base em informações geradas pelo Instituto de Tecnologia Educacional da Open University.

    Há centenas de escolas, institutos politécnicos, universidades e centros de treinamentos espalhados por todo o Reino Unido desenvolvendo programas de educação a distância, alguns em estabelecimentos onde se compartilha a educação presencial com a modalidade a distância, há casos em que o programa de educação a dist6ancia ainda é insipiente, há também instituições que se dedicam somente à educação a distância. Uma dessas instituições é o International Extension College, uma organização não governamental que mantém vínculo com o Instituto de Educação da Universidade de Londres. Todos os anos eles mantêm um curso de especialização, de quatro meses, voltado a alunos de países em desenvolvimento. Além disso, são responsáveis por programa de mestrado em educação a distância, em parceria com o Instituto de Educação. Não há uma preocupação demasiada com tecnologias comunicativas ou instrumentos sofisticados, a equipe do International Extention College se preocupa essencialmente com metodologia, organização de sistemas de fácil acesso e baixo custo. Contudo, a contribuição mais significativa dessa organização não governamental são os projetos de educação que desenvolvem junto a populações marginalizadas na África, o que tem promovido a instituição de várias entidades de educação a distância naquele continente, como o Mauritius College of the Air (1972), Botswana Extension College (1973), Lesotho Distance Teaching Centre (1974), Namibia Extension Unit (1981), Sudan Open Learning Unit (1984), South African Extention Unit (1981), Institute of Inservice Teacher Training, Somália (1981), Correspondence and Open Studies Institute, Nigéria (1974), College of Education and Extension Studies, Quênia (1985), e também no Paquistão apoiaram a criação do Functional Education Project for Rural Areas, na Allama Iqpal Open University (1982) .

    Há uma série de outras situações que não foram citadas e que se espalham por todos os continentes, cada qual com sua história própria, com experiências que acrescentam benefícios ao desenvolvimento mundial da educação a distância, quer por meio de novas experimentações tecnológicas, quer como resultado de novas formas de se fazer educação a distância.

    Mas apesar de estar faltando vários exemplos importantes, com esse panorama geral é possível observar que a educação a distância tem uma longa e diversificada trajetória, está em todos os cantos da Terra, e vai se desenvolvendo cada dia mais.

    Dos cursos que tinham como referência principal a troca de correspondências (um produtor individual e um aluno ou poucos alunos na ponta), passou-se à utilização de impressos em instituições escolares (formas organizadas e atendendo maior número de alunos). Esse salto fez a educação a distância tomar a forma de um processo organizado de produção e supervisão do processo de ensino aprendizagem. Naquele tempo tudo era ainda muito calcado na idéia de que o professor ensina e o aluno aprende. Depois, na primeira metade do século XX, já pudemos observar a coexistência de programas com base na propagação de conhecimentos a partir de sistemas de radiodifusão. Alguns com base somente na palavra que o ar levava, a maioria já articulando o rádio com o material impresso e a organização escolar e curricular.

    A II Guerra Mundial acelerou programas de treinamento que usavam técnicas de educação a distância e outras tecnologias que promovessem processos de capacitação em tempo mais curto.

    Depois da II Guerra Mundial, esses procedimentos foram utilizados na Europa e no Japão, ainda com base articulação do material impresso com o rádio, mas já ganhando formas que depois vão ser dominantes no campo da tecnologia educacional em programas de educação audiovisual (que foram muito usados no Brasil para o ensino de línguas estrangeiras).

    A partir da década de 1950 começa a despontar um novo personagem nessa história: a televisão. Ela já existia desde a década de 1930 (antes já fôra testada na Inglaterra, mas teve êxito mesmo na Alemanha), mas é depois da II Guerra Mundial que a televisão começa a despontar como novo meio de comunicação de massa.

    O avanço da televisão foi lento, especialmente para os padrões de hoje, mas foi sendo consolidado também como meio educacional em vários países.

    De meados da década de 1960 até o início da década de 1980 ocorreu o reinado da televisão educativa. Vários sistemas foram sendo montados no mundo todo, da China até a Grã-Bretanha, do Japão até o Brasil.

    Como se tratava de um meio de comunicação muito poderoso, que combinava de forma magnífica a voz e a imagem, muitos desses sistemas educativos foram sendo criados somente com base na veiculação de cursos através da própria televisão, sem qualquer atenção a outros suportes.

    Ao longo do tempo, os programas com base somente na televisão foram evoluindo e se articulando com os outros meios, especialmente buscando novas formas de organização do processo de ensino-aprendizagem, criando jeitos próprios de interação entre professores e alunos, criando departamentos de pesquisa e formação de professores.

    Outra característica desse novo momento da educação a distância foi a criação e o desenvolvimento de mega-estruturas (ou mega-universidades), que passaram a atender mais de 100.000 alunos. A Open University, da Inglaterra, foi criada nesse período. Foram vistos mais atrás vários outros exemplos de universidades criadas nesse período, na China, no Japão e em vários outros países. Mas, a experiência britânica passou a se configurar como paradigma desse tempo, tanto por sua qualidade e respeitabilidade, quanto pelo método de produção de cursos, a forma de articular as tecnologias comunicativas existentes e a preocupação com a investigação pedagógica.

    Entre as universidades que atendem mais de 100.000 alunos, além das já citadas, há ainda a Universidade da África do Sul (que antes se chamava Universidade do Cabo da Boa Esperança e foi fundada em 1873), que tinha 130.000 alunos em 1995; a Sukhothai Thammathirat Open University, da Tailândia, que foi criada em 1978; a Anadolu University, da Turquia, criada em 1969; a Payame Noor University, do Irã, criada em 1987; e o Centro Nacional de Ensino a Distância, da França, criado em 1939, que mantém programas em todos os níveis de ensino.

    As 11 principais universidades, com mais de 100.000 estudantes, que têm como principal modalidade de ensino a educação a distância, atendem aproximadamente 3 milhões de estudantes.

    Hoje, está se desenvolvendo um novo processo, que reúne tanto a apropriação de uma nova tecnologia comunicativa, a telemática (informática com telecomunicações), como se articula modelos pedagógicos em construção através de novos conceitos de organização virtual, a rede, onde vários produtores e usuários convivem com muito mais capacidade de diálogo e interatividade, o que era limitado nos meios de comunicação anteriores.

    B. O Brasil sempre esteve presente

    No Brasil, em 1923, foi criada da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, "por um grupo liderado por Henrique Morize e Roquete Pinto", um dos objetivos centrais da emissora era promover a educação pelo rádio. Em 1937 foi criado Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação.

    Desde a fundação do Instituto Rádio­Técnico Monitor, em 1939, e depois do Instituto Universal Brasileiro, em 1941, várias experiências foram levadas a termo com relativo sucesso. Porém, por muitos anos as empresas que promoveram cursos por correspondência (além das duas anteriormente citadas também se destacaram: Escolas por Correspondência Dom Bosco; Cursos Guanabara de Ensino Livre; Escola Mundial de Cultura Técnica, e Escolas Internacionais) foram as únicas oportunidades de ensino de muitos habitantes do interior do país.

    Em 1946, "o SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - iniciou suas atividades e organizou, no Rio de Janeiro e São Paulo, a Universidade do Ar, que em 1950 já atingia 318 localidades".

    MEB

    A Diocese de Natal, já em 1958, tendo como referência a experiência da Rádio Sutalenza, da Colômbia, deu início a experiências de educação popular com a utilização do rádio, organizando o Serviço de Assistência Rural-SAR, que, depois, se transformou no nascedouro do Movimento de Educação de Base . Em 1959, a diocese de Aracajú firmou convênio com o Sistema de Rádio Educativo Nacional (SIRENA), do Ministério da Educação e Cultura, para estabelecer em sistema de rádio educativo regional. Em fins de 1960 essa experiência foi avaliada no 1º Encontro de Educação de Base, realizado em Aracajú, e no ano seguinte a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil firmou um acordo com a Presidência da República, que deu condições financeiras para a operacionalização e instituição do Movimento de Educação de Base-MEB, responsável pela organização de escolas radiofônicas no Nordeste, Norte e Centro-Oeste do país. Essa experiência foi uma das mais ricas que se tem notícia no Brasil. Envolveu o uso de metodologias de educação por rádio, preparação de materiais impressos e, principalmente, a mobilização de animadores culturais e educativos, realização de encontros, congressos, festas populares e assessorias diversas.

    Após o golpe militar de 1964 o MEB sofreu dura repressão e a experiência de educação popular foi interrompida. O Movimento de Educação de Base existe até hoje, mas jamais conseguiu recuperar a paixão educativa e a motivação política daqueles primeiros anos da década de 1960. Muitos de seus dirigentes e animadores culturais foram perseguidos, vários foram obrigados a deixar o país, outros foram presos e mortos.

    FEPLAM

    A Fundação Educacional e Cultural Padre Landell de Moura-FEPLAM, de Porto Alegre, foi criada em 1967 e tem origem no desenvolvimento dos movimentos de educação não-formal da América Latina, onde também se inscrevia o MEB, "que buscavam melhorar as condições de vida das populações carentes" . "O início da Feplam foi através de programas de rádio (Colégio do Ar) e a série Aprenda pela TV (cursos profissionalizantes). As bases comunitárias são o ponto de partida e chegada da sua prática educacional". Suas áreas de atuação são: educação geral, educação cívico-social, educação rural e iniciação profissional. No início de sua implantação a Feplam contou com o apoio financeiro da Fundação Konrad Adenauer, da Alemanha.

    Até o início dos anos 90, na área de educação geral, onde há cursos de alfabetização, educação básica, pré-escola e educação supletiva, a Feplam já havia beneficiado 110.703 alunos. Na área de educação cívico-social, com programas de educação comunitária e de reforço de currículos escolares, outras 53.000 pessoas foram beneficiadas. Já na área de educação rural, composta de cursos de capacitação rural e outros de cunho informativo, já haviam recebido cursos da FEPLAM, 391.509 agricultores, com uma média de 16.313 por ano. Além disso, a entidade mantém cursos no campo da iniciação profissional (mecânica de automóveis, consertos de aparelhos eletrodomésticos, programação de computadores etc.) e na área de saúde.

    Projeto Minerva

    Em outubro de 1970, o governo federal, através de um acordo entre o Ministério da Educação e o Ministério das Comunicação, iniciou o Projeto Minerva com o objetivo de "propor uma alternativa ao sistema tradicional de ensino como formação suplementária à educação continuada." A Fundação Padre Landell de Moura preparou os materiais do curso de capacitação ao Ginasial (100 aulas: Português, 30; História 15; Geografia, 15; Ciências, 10). O curso de Madureza Ginasial era composto de 450 aulas, sendo precedido de um Curso preparatório de 50 aulas. O curso de Moral e Civismo era formado de 15 programas de 15 minutos cada, e o Curso Primário Dinâmico, elaborado pela Fundação Padre Anchieta, foi organizado com 72 aulas de linguagem, 72 aulas de matemática, 72 aulas sobre Trabalho, 36 de Ciências, 36 de Estudos Sociais, 36 de Educação Sanitária e 36 de Moral e Cívica, além de uma série de programas de informação e atualização.

    SENAI

    O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial-SENAI, de São Paulo, criou experimentalmente em 1978, com operação regular a partir de 1980, o programa Auto-instrução com Monitoria (AIM), caracterizando-o como "um esquema operacional de Ensino a Distância, que envolve uma série de programações autoinstrutivas". Desde então, mantém um curso de Leitura e Interpretação de Desenho Técnico Mecânico, cursos de matemática básica e cursos de eletrônica, estando em fase de preparação cursos de tecnologia mecânica, usinagem, elementos de máquinas, resistência dos materiais, eletrotécnica básica e formação de microempresários. A partir dessa experiência, o SENAI tem ampliado sua base geográfica de ação e, com as novas perspectivas abertas com a regulamentação do ensino técnico a distância, certamente irá multiplicar esses esforços, diversificando seus cursos e parceiros.

    CETEB

    A Petróleo Brasileiro S.A.-PETROBRAS, desenvolveu, a partir de 1975, o Projeto ACESSO, com a finalidade de proporcionar a escolarização a nível de 1°. e 2°. graus a seus funcionários e de oferecer profissionalização específica para a área de petróleo. Esse projeto foi desenvolvido pelo Centro de Ensino Técnico de Brasília-CETEB, que desenvolveu a metodologia, elaborou os módulos e acompanhou todo o processo de implantação e desenvolvimento dos cursos. Para uma clientela adulta, na faixa de 20 a 40 anos de idade, com interrupção de estudos em período maior de cinco anos, foi levado um curso de educação geral, de acordo com os currículos do ensino supletivo, e profissionalização específica para a indústria petrolífera.

    A Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências-FUNBEC, desenvolveu, em 1990 e 1991, com o apoio do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos-INEP, o Curso de Matemática por Correspondência, dirigido a professores de 1°. grau. O curso foi veiculado pelo Jornal do Professor, editado pelo INEP.

    O Centro de Ensino Tecnológico de Brasília-CETEB, unidade da Fundação Brasileira de Educação-FUBRAE, desde 1973 tem desenvolvido projetos de educação semi-direta, notadamente para a formação e aperfeiçoamento de professores em serviço. Foi responsável pela execução do Projeto LOGOS II, do Ministério da Educação, para a qualificação de professores leigos, iniciado em 1976 em 19 estados brasileiros. Esse programa de formação de professores foi organizado com base em materiais impressos (módulos) entregues aos professores (alunos), que recebiam supervisão de um orientador de aprendizagem local e podiam tirar dúvidas também através de cartas, telefonemas ou diretamente, quando recebiam as visitas de professores do CETEB. A partir de 1982 esse curso foi operacionalizado de forma descentralizada, cabendo a cada estado definir o modo de execução do mesmo. Em 1977, o CETEB firmou convênio com o Serviço Nacional de Formação Profissional Rural – SENAR, para a operacionalização do Curso de Aperfeiçoamento a Distância para Instrutores de Formação Profissional Rural, destinado especialmente a funcionários de empresas públicas estaduais de extensão e assistência técnica rural. Na República de Moçambique, em 1993, o CETEB iniciou um programa de consultoria e apoio técnico para a criação do Núcleo de Educação a Distância do Ministério da Educação daquele país africano. Outra entidade da mesma FUBRAE, o Centro Educacional de Niterói-CEN, também teve atuação pioneira. Entre 1983 e 1987 foi o responsável pela elaboração e execução de um programa de educação a distância para a especialização e aperfeiçoamento de professores da Secretaria de Educação do estado de Goiás.

     

     

    ABEAS

    A Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior-ABEAS, é uma das pioneiras de programas de formação superior a distância. Mantém desde 1982 um Curso de Especialização por Tutoria à Distância (Pós-graduação "Latu Sensu"), provavelmente o primeiro curso a distância em nível produzido no Brasil. Esse programa contou inicialmente com o apoio experimental da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior-CAPES, do Ministério da Educação, sendo avaliado como de excelente qualidade e recomendada sua continuidade.

    ABT

    Ainda neste campo, é importante fazer referência às ações promovidas pela Associação Brasileira de Tecnologia Educacional-ABT que, a partir de 1980, iniciou o Programa de Aperfeiçoamento do Magistério de 1°. e 3°. graus a distância, integrado por cursos nas áreas de Alfabetização, Metodologia Geral, Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Sociais e Ciências Físicas e Biológicas, para docentes que atuam no 1°. grau e o Curso de Especialização em Tecnologia Educacional Tutoria a Distância, para aqueles que desenvolvem atividades no 3°. grau. A ABT foi criada em 1971 e, desde então, promove anualmente um importante seminário de tecnologia educacional, que reúne profissionais da área de educação a distância de todo o país, e mantém a publicação periódica da revista Tecnologia Educacional, o mais importante periódico técnico da área. O Programa de Pós-Graduação Tutorial a Distância-POSGRAD, desenvolvimento, entre 1979 e 1983, como projeto piloto da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior-CAPES, do Ministério da Educação, foi operacionalizado pela ABT.

    INED

    Entre 1989 e 1997, em Brasília, esteve em gestão a primeira fase do Instituto Nacional de Educação a Distância–INED, uma organização não governamental dedicada à pesquisa e a difusão de conhecimentos na área de educação a distância. Essa entidade editou e publicou a segunda revista brasileira exclusivamente dedicada ao tema da educação a distância (a primeira, e mais importante, sem dúvida é a revista Tecnologia Educacional, até hoje publicada pela Associação Brasileira de Tecnologia Educacional–ABT). Além disso, foi responsável pela elaboração e acompanhamento de um curso sobre a elaboração das leis orgânicas municipais, com mais de 200.000 participantes, promovido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Realizou um curso sobre cidadania para o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Educação para a Cidadania) e desenvolveu uma série de estudos visando a implantação de programas de educação a distância para a Escola de Administração Fazendária (ESAF), Governo do Estado do Paraná e Prefeitura de Curitiba, entre outros.

    Em 1996 o INED assinou um acordo operacional com o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase, dirigido à época pelo sociólogo Herbert de Souza (que se destacou nacionalmente como o grande líder do movimento contra a fome), onde se previa que o Ibase iria incorporar o acervo e a estrutura do INED, passando este a configurar-se como uma nova área de atuação do Ibase. A idéia era ter na educação a distância a grande estrada de comunicação e educação popular do Ibase para a educação da cidadania. O governo italiano, através da ONG Creoccevia, apoiou parte desse projeto.

    No mesmo ano, Herbert de Souza e Darcy Ribeiro formalizaram uma aliança estratégica para que o Ibase e a Fundação Darcy Ribeiro instituíssem, o mais rápido possível, a Universidade Aberta do Brasil.

    Darcy Ribeiro, à época senador da República, procurou o apoio do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério da Educação. Com o primeiro, firmou um acordo para a criação, em Brasília, de um centro de multimeios e difusão educativa (que seria criado em edifício do Governo do Distrito Federal, no centro da cidade). Com o MEC, Darcy Ribeiro começou a esboçar o curso Nornal Superior, que seria o primeiro curso a ser oferecido pela futura Universidade Aberta do Brasil.

    Em 1997, a morte prematura dos dois líderes desse projeto acabaram por adiar a realização desse sonho, ninguém mais teve a capacidade de manter a idéia viva.

    Atualmente o INED, agora denominado Instituto Nacional de Educação para o Desenvolvimento, se organiza para desenvolver programas variados de educação a distância e de pesquisa em novas tecnologias para a educação e para o desenvolvimento sustentável com foco nas relações sociais, econômicas e políticas das comunidades locais e a criação de redes colaborativas envolvendo instituições locais.

    Ceará

    A Fundação de Teleducação do Ceará-FUNTELC, também conhecida como TVE do Ceará, criada no processo de implantação das televisões educativas na década de 70, se distinguiu das demais por preservar um projeto de educação a distância como elemento central da entidade. Desde 1974 essa instituição, seguindo o modelo da Televisão Educativa do Maranhão, vem desenvolvendo ensino regular de 5ª. à 8ª. séries do 1 °. grau, com a implantação de telessalas em grande parte dos municípios do estado e caminha para atingir a marca de 100.000 alunos regulares em seu sistema. No ano de sua implantação contava com 4.139 telealunos, nas 5ª. e 6ª. séries, distribuídos em 8 municípios. Em 1992 já contava com 60.822 telealunos cursando da 5ª. à 8ª. séries, distribuídos em 94 municípios, 400 distritos, 725 escolas e 2.300 telessalas. Em 1993, a matrícula passou a 102.170 alunos, atingindo 150 municípios.

    "A proposta político-pedagógica do Sistema de Teleducação, embora tenha surgido em pleno regime militar, se propôs a romper com os mecanismos autoritários e tecnicistas que imperavam à época lançar-se como uma modalidade de educação voltada para o humanismo pedagógico, capaz de superar o parcelamento do saber e corrigir as falhas do individualismo e do academicismo. Foi gerado um método de ensino nascido das sérias discussões, estudos e debates de renomado e competente grupo de educadores, que buscou a melhor utilização possível de um sistema de multimeios e a mais interessante aplicação da televisão, tomada como elemento essencial, como veículo de democratização do saber".

    UnB

    Uma das primeiras experiências universitárias de educação a distância no Brasil foi iniciada pela Universidade de Brasília-UnB em meados da década de 1970. Na época, motivada pelo sucesso da iniciativa Britânica, com a Open University, a UnB pretendia ser a Universidade Aberta do Brasil. Adquiriu todos os direitos de tradução e publicação dos materiais daquela universidade e começou a produzir também alguns cursos, na área de ciência política.

    Apesar do pioneirismo da UnB, esta não logrou se constituir na primeira universidade aberta brasileira, como se pretendia à época, principalmente porque o discurso de sua direção se apresentou muito inadequado e fora de contexto já que apresentava a educação a distância como substituto da educação presencial e um meio de resolver os conflitos políticos existentes à época. Se difundia a educação superior a distância como a possibilidade de se alcançar a tranqüilidade da vida universitária em instituições sem alunos rebeldes e professores contestadores.

    Esse e outros fatores de ordem interna e âmbito conjuntural fizeram com que se manifestassem inúmeros focos de resistência, que acabaram por inviabilizar a implantação do projeto, apesar do sucesso de alguns cursos que se organizaram àquela época, entre eles o Pensamento Político Brasileiro.

    É importante destacar, à luz desse exemplo, que quando se pretende desenvolver um programa de educação a distância em uma instituição presencial, não se pode conduzi-lo em conflito com a cultura existente, ao contrário, deve-se procurar estabelecer sintonias, procurando criar mecanismos de cooperação e convívio entre as duas modalidades de ensino, possibilitando, com isso, que a educação a distância possa, inclusive, contribuir para melhorar os processos de ensino presenciais, adotando, no mínimo, os materiais produzidos pela educação a distância, como acontece em várias outras universidades a exemplo da Universidade Autônoma de Honduras, que tem um centro de educação a distância dentro da universidade presencial e cujos materiais são amplamente utilizados nas disciplinas presenciais.

    Entre 1981 e 1984 esse programa da UnB, ao que consta, ficou hibernando, atendendo de forma burocrática e administrativa as demandas por cursos, contabilizando as inscrições dos alunos e enviando certificados por meio dos correios. A partir de 1985, quando a Universidade retomou seu rumo democrático, o projeto de educação a distância foi reiniciado. Em 1986, a UnB promoveu um curso sobre a Constituição, que estava por ser elaborada, organizou grupos de estudo e levou o debate constitucional a mais de 100.000 participantes do curso, em todo o país. Logo em seguida, em 1987 e 1988, a Coordenadoria de Educação a Distância passou a articular-se com as várias instituições latino-americanas de educação a distância, com o apoio financeiro da Organização dos Estados Americanos (projeto Edist/Prede), e com outras iniciativas brasileiras. Foi promovido um curso de capacitação de profissionais na área de educação a distância, dirigido pelo Professor Miguel Casas Armengol (primeiro reitor da Universidade Nacional Aberta da Venezuela), e, também, nesse período, foram elaborados vários cursos de extensão universitária (Direito Achado na Rua, Abuso de Drogas, Freud, Rousseau e vários outros). Em 1989, foi criado o Centro de Educação Aberta, Continuada e a Distância – CEAD, que também continuou a trajetória de produção de cursos de extensão universitária, produzindo os cursos: Política de Ciência e Tecnologia para a Década de 90; Introdução Crítica ao Direito do Trabalho; O Microcomputador Sem Mistérios, entre outros.

    MEC

    A Fundação Roquette Pinto (TVE-RJ) produziu no final da década de 80 e início de 90 uma série de programas de televisão para o aperfeiçoamento de professores em serviço, provavelmente essa programação inspirou o Ministério da Educação, em 1991, a desenvolver o Projeto Piloto de Utilização do Satélite na Educação, "para a capacitação de recursos humanos, envolvendo 600 cursistas (docentes e alunos da 3ª série dos cursos de magistério) de seis estados brasileiros, através da veiculação de programas educativos de televisão, via satélite, com recepção organizada em telepostos, e a utilização de televisor, fax, canal de voz, complementados por material impresso de apoio. O programa teve o nome de ‘Jornal da Educação: Edição do Professor’, obteve 96% de aprovação dos cursistas." No ano seguinte, tendo sido avaliada como extremamente positiva a experiência desse projeto-piloto, foi criado o programa Um Salto para o Futuro, como um programa de capacitação e atualização de professores em serviço, utilizando prioritariamente a televisão como meio de comunicação e transmissão de conhecimentos.

    Curitiba

    Em 1994, a Secretaria da Educação da Prefeitura de Curitiba iniciou a montagem de uma equipe de educação a distância em sua Gerência de Capacitação. No ano seguinte, em 1995, começaram a ser capacitadas as integrantes da equipe e em 1996 o projeto estava suficientemente amadurecido e com o primeiro produto concluído. Essa experiência foi batizada como Programa de Educação a Distância - Curitiba: Lições de Modernidade e Cidadania. O curso, Alfabetização – princípios básicos, foi organizado em unidades didáticas impressas, fartamente ilustradas e escritas de forma muito acessível, e, também, contou com o acompanhamento de professores que respondiam cartas e telefonemas. A primeira edição foi impressa na própria Secretaria da Educação, em uma máquina copiadora colorida. Já para a segunda edição foi obtido apoio do Banco Bamerindus, que se encarregou da impressão de todos os materiais, em troca, se permitiu uma publicidade daquele banco na última página. Mesmo antes da implantação do curso sobre Alfabetização, a equipe da Secretaria da Educação já estava produzindo cursos sobre as demais áreas temáticas abrangidas pelo ensino fundamental. Os cursos seguintes foram o de Geografia – princípios básicos, Ensino de Arte e Matemática. Esses cursos foram dirigidos aos professores da rede municipal de ensino, com o intuito de servir de base a um sistema de capacitação permanente desses educadores.

    FE/UnB

    Em 1994, um convênio firmado entre o Ministério da Educação e do Desporto e a Universidade de Brasília deu início ao desenvolvimento do Curso de Pós-Graduação Lato-Sensu em "Educação Continuada e a Distância", realizado pela Faculdade de Educação daquela Universidade. A primeira turma foi oferecida em 1994 e segunda em 1997. Profissionais de todas as secretarias estaduais de educação e do próprio Ministério fizeram parte da primeira turma. Já na segunda a clientela se ampliou um pouco mais e a Faculdade de Educação da UnB está aproveitando a oportunidade para realizar uma série de pesquisas e investigações sobre o comportamento dos alunos, o custo dos programas etc.

    Educação Física

    Em 1995, a Secretaria de Educação Física e Desportos, do Ministério da Educação, e a Divisão Nacional de Doenças Crônico-Degenerativas, do Ministério da Saúde, preparou um curso de educação a distância para professores e médicos, que atuam na área de educação física, chamado "Exercício e Saúde". Foi organizado em sete volumes impressos, com textos e exercícios. No ano seguinte foi feita uma segunda edição dos materiais, mostrando a grande aceitação que tiveram.

    Mato Grosso

    Também em 1995, o Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso instituiu o Núcleo de Educação Aberta e a Distância-NEAD, desenvolvendo dois programas: "o curso de Licenciatura Plena em Educação Básica: 1ª a 4ª séries do 1º grau, dirigido a quase 10.000 professores que atuam nas primeiras quatro séries do 1º grau da rede pública sem qualificação de terceiro grau e o curso de Especialização para a Formação de Orientadores Acadêmicos (tutores) em EAD". A experiência da Universidade Federal de Mato Grosso é uma das mais importantes que se conhece no Brasil, especialmente em função do rigor acadêmico e pedagógico de seu programa, da avaliação constante, como também em razão da forma participativa e integrada em que se desenvolveu tanto a elaboração dos materiais didáticos quanto sua aplicação.

    Católica de Brasília

    Em 1996, a Universidade Católica de Brasília criou o Centro de Educação a Distância que já produziu dois cursos superiores: Especialização em Filosofia e Existência e Especialização em Educação a Distância. Em fins de 1998 várias universidades católicas, entre elas a de Brasília, do Rio Grande do Sul, de Goiás, de Minas Gerais, de Pernambuco e a Universidade Vale dos Sinos, iniciaram a organização de uma rede com o objetivo de oferecer cursos de pós-graduação de qualidade usando os procedimentos modernos da educação a distância.

    A Universidade Católica de Brasília está desenvolvendo uma série de cursos pós-graduação a distância, alguns utilizando material impresso e tutorial, outros já estão sendo realizados através da Internet. Com outras universidades católicas está sendo criada uma rede de educação a distância.

     

     

    Universidade Virtual do Centro-Oeste

    Com o mesmo objetivo, várias universidades federais e estaduais do Centro-Oeste estão criando a Universidade Virtual do Centro-Oeste, formada pela Universidade de Brasília, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Universidade Federal de Mato Grosso, Universidade Estadual de Mato Grosso, Universidade Federal de Goiás e Universidade Estadual de Anápolis. A UnB também é uma das protagonistas da idéia de criação de uma rede de universidades públicas que oferecerão cursos a distância e otimizarão seus procedimentos didáticos com o uso da Internet.

    Unirede

    Em agosto de 2000, mais de sessenta universidades públicas brasileiras começaram a estabelecer as bases para a criação de uma forte rede de educação superior a distância. A idéia central é criar um instrumento de democratização do conhecimento a partir da utilização das modernas tecnologias de comunicação e informação. No primeiro ano foram desenvolvidos dois cursos de extensão universitária: o primeiro de formação em educação a distância, com o objetivo de ampliar as bases de compreensão sobre essa modalidade educativa; o segundo, dirigido aos profissionais da educação, tem como objetivo capacitar os educadores e técnicos educacionais a melhor utilizar os equipamentos e as tecnologias de comunicação e informação que estão sendo colocadas à disposição das escolas.

    Na Unirede há duas modalidades de produção de cursos: há cursos que são desenvolvidos em nome do consórcio de universidades e há cursos que são realizados por cada uma das entidades isoladamente, mas que se colocam à disposição de uso para as demais.

    As entidades participantes da Unirede já estão oferecendo vários cursos, em todas as áreas do conhecimento, a maioria de extensão universitária, vários de pós-graduação e três de graduação. Alguns foram desenvolvidos especialmente por causa do estímulo da rede, outros se apresentam na forma de edições renovadas de cursos já ofertados anteriormente: Agroecologia: Bases Teóricas (Atualização) -UFFRJ - Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro e CPDA; Ciência dos Alimentos: Tecnologia de Frutas e Hortaliças (Pós-graduação) - UFPel – Universidade Federal de Pelotas; Ciência e Tecnologia de Sementes (Pós-graduação) - UFPel – Universidade Federal de Pelotas; Os desafios das biotecnologias para o sistema agroalimentar (Atualização) - UFFRJ - Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro e CPDA; Produção de sementes de arroz irrigado (Pós-graduação) - UFPel – Universidade Federal de Pelotas; Biologia molecular (Extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Fundamentos em ecologia e tópicos da gestão ambiental (extensão) - UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais; Genética (extensão)-UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Sexualidade (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Clínica Médica (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso básico de dermatologia para médicos clínicos (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso de atualização em enfermagem em nefrologia (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso de especialização em dependência química via Internet (Pós-graduação Latu-sensu) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso de especiliazação em nutrição em saúde pública (Pós-graduação Latu-sensu) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso de formação pedagógica em educação profissional da área de saúde: enfermagem (Especialização lato sensu) - UFPI - Universidade Federal do Piauí; Curso de Introdução à Bioestatística(extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso de Nutrição Clínica (extensão) -UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso de revisão sistemática em meta-análise (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Curso de simulação de desastre para equipe de resgate (extensão)- UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Dermatologia básica (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Guia prático de histologia (extensão) -

    UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Histopatologia (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Informática em saúde (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Internet como ferramenta de trabalho em EAD para profissionais de saúde (extensão) UFPR - Universidade Federal do Paraná; Odontologia em saúde coletiva (extensão) - UnB – Universidade de Brasília; Patologia mamária (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Políticas e ações públicas em segurança alimentar e nutricional (extensão) - UFFRJ - Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro e CPDA; Prevenção ao uso indevido de drogas (extensão – 1ª edição em 1988) - UnB – Universidade de Brasília; Prevenção de problemas auditivos (extensão)- UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Propedêutica ginecológica e oncologia (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Saúde no Brasil: Situação atual e perspectiva (aperfeiçoamento) - UnB - Universidade Nacional de Brasília; Curso virtual de estruturas (extensão) - UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro; Desenvolvimento e manutenção de websites (extensão) - UFC - Universidade Federal do Ceará; fenômenos interfaciais: aspectos elétricos de interfaces e adsorção (extensão) - UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro; Funções e gráficos: um curso introdutório - UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul; geometria descritiva III - UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul; geometria dinâmica no ensino fundamental - UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Gestão da Informação em ambiente web (extensão) - UFPE - Universidade Federal de Pernambuco; Modelagem e simulação aplicadas a sistemas ambientais (extensão) - UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro; O microcomputador sem mistérios (extensão)- UnB – Universidade de Brasília; Programação Web com CGI-BIN e Perl (extensão) - UFPE - Universidade Federal de Pernambuco; Programação em linguagem C - UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais; Rede de comunicação em EAD(extensão) -UFPR - Universidade Federal do Paraná; Robótica -
    UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Windows 95 (extensão)- UnB – Universidade de Brasília; Avaliação institucional -
    UnB – Universidade de Brasília; Capacitação de tutores em EAD - UFPR - Universidade Federal do Paraná; cultura cyberpunk (extensão) - UFBA - Universidade Federal da Bahia; Curso de atualização para professores tutores de cursos a distância em saúde (extensão) - UNIFESP - Escola Paulista de Medicina; Educação, município e cidadania (extensão) - UnB – Universidade de Brasília; Freud, pensamento e ação (extensão) - UnB – Universidade de Brasília; Gestão (aperfeiçoamento) - UnB - Universidade de Brasília; Introdução ao discurso filosófico na modernidade - UFBA - Universidade Federal da Bahia; Introdução ao jornalismo online UFPE - Universidade Federal de Pernambuco; Introdução crítica ao Direito (extensão) -Universidade de Brasília; Introdução Crítica ao Direito do Trabalho (extensão) - UnB – Universidade de Brasília; Jean-Jacques Rousseau (extensão) - UnB – Universidade de Brasília; Licenciatura plena em educação básica (graduação) - UFMT - Universidade Federal do Mato Grosso; Localidade e relação campo-cidade como temas contemporâneos (atualização) - UFFRJ - Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro e CPDA; Mídia aplicada à educação - UFPE - Universidade Federal de Pernambuco; O pensamento inquieto (extensão) - UnB – Universidade de Brasília; Pedagogia (graduação) - UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina; Pedagogia (licenciatura)-
    UFPR - Universidade Federal do Paraná; Política, Estado e Globalização na América Latina – (atualização) - UFFRJ - Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro e CPDA; Psicopedagogia (especialização) - UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro; Supervisão escolar (especialização) - UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro; Capacitação de recursos humanos em planejamento e gestão de desenvolvimento regional (extensão) - UFPA - Universidade Federal do Pará; Curso interativo de design de superfície -UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Gestão da informação e da comunicação organizacional - UFBA - Universidade Federal da Bahia; A redação como libertação (extensão) - UnB – Universidade de Brasília; Língua Portuguesa – visão discursiva (especialização) - UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Universidade Virtual Brasileira

    A Rede Brasileira de Educação a Distância, também chamada de Universidade Virtual Brasileira (UVB.BR), começou a se organizar na mesma época da Unirede, a diferença básica é que congrega estabelecimentos particulares de ensino superior. Ela atualmente é formada pelas seguintes instituições: Associação Educacional do Litoral Santista (Centro Universitário Monte Serrat), SP; Associação Potiguar de Educação e Cultura (Universidade Potiguar), RN; Centro Superior de Ensino de Campo Grande (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), MS; Instituto Cultural Newton Paiva Ferreira (Centro Universitário Newton Paiva), MG; Instituto Superior de Comunicação Publicitária (Universidade Anhembi Morumbi), SP; Sociedade de Ensino do Triângulo (Centro Universitário do Triângulo), MG; Sociedade Educacional do Espírito Santo (Centro Universitário Vila Velha), ES; União Superior de Ensino do Pará (Universidade da Amazônia), PA; Universidade do Sul de Santa Catarina, SC; Universidade Veiga de Almeida, RJ.

    Atualmente a UVB oferece cursos em quase todas as áreas do conhecimento, a maioria de extensão universitária, como: Gestão empresarial em tempos globalizados; Gerenciamento de projetos; Planejamento estratégico de recursos humanos; Gestão ambiental urbana; Aspectos estratégicos e administrativos para a redução de custos; Como reduzir custos: aspectos quantitativos; Introdução às estratégias de comunicação; Cultura em transformação; Preparação de professores autores e tutores; Sala de aula interativa; Nutrição Materno-infantil; Técnicas e práticas de planejamento e orçamento para administradores municipais – segundo a lei de responsabilidade fiscal; Curso básico de administração de sistemas Linux I; Acessando banco de dados com Java; Construção de páginas com ASP; Marketing turístico; Responsabilidade civil médica; Direito autoral e a internet; Sentidos do vestir contemporâneo; Desenho básico de moda.

    Univir

     

    A Univir foi se organizando como um projeto que nasceu nas Faculdades carioca (atualmente Universidade carioca) com o objetivo de fundar a primeira universidade aberta do Brasil. Desde 1995 esse objetivo vem sendo perseguido. A Univir concentrou sua atenção na organização de um sistema fortemente baseado na telemática, fez acordos com importantes empresas nessa área, mas provavelmente sofreu muito por causa dos sucessivos adiamentos impostos pelo Ministério da Educação aos projetos de educação superior a distância no Brasil. A UniVir oferece cursos técnicos, de extensão universitária e de pós-graduação e está trabalhando para oferecer também cursos de graduação.

    Santa Catarina

    A Universidade Federal de Santa Catarina montou, a partir de 1995, o Laboratório de Ensino a Distância a partir da iniciativa Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UFSC (PPGEP), que já se transformou em referência nacional no uso de teleconferências (com suporte de materiais impressos e Internet) como instrumentos preferenciais em programas de capacitação e formação de nível superior para empresas de grande porte.

    ENSP

    Em 1997, Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz, com o apoio editorial do Centro de Educação Aberta, Continuada e a Distância (UnB), elaborou e começou a veicular um curso de educação a distância (pós-graduação) para dirigentes e gestores municipais na área de saúde. Esse curso foi dividido em três unidades com cinco módulos cada, distribuídos através de materiais impressos e tendo o processo de aprendizagem sido acompanhado por tutoria oferecida pela ENSP. Esse programa também conta com apoio científico do Laboratório de Tecnologias Cognitivas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NUTES-UFRJ).

    IME

    Também em 1997, o Instituto Militar de Engenharia (IME) implantou o projeto chamado Universidade Virtual, com o objetivo de desenvolver cursos de graduação e pós-graduação, avaliar os programas de educação a distância existentes e pesquisar novas tecnologias. Entre os experimentos que tem realizado destaca-se um Sistema de Videonferência Seguro (SVS) para uso em programas de educação a distância que tenham como um de seus meio a teleconferência.

    ONGs

    No campo das organizações não-governamentais, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas-IBASE, elaborou (com o apoio do INED-Instituto Nacional de Educação a Distância) um programa de cursos denominado Educação para a Cidadania, que se materializou, em 1997, em somente um curso de 10 módulos com materiais impressos e vídeos sobre temáticas da cidadania. Esse curso foi preparado para fazer parte do esforço do Ministério da Educação e do Desporto na atualização de professores em serviço. Dois anos antes, em 1995, a Escola de Formação Quilombo dos Palmares, uma ONG de Recife, Pernambuco, organizou o Curso por Correspondência para Dirigentes do Movimento Popular. Hoje, no campo das organizações não-governamentais, está sendo gestado um programa de apoio ao desenvolvimento de educação a distância através da Internet pela Rede de Informações para o Terceiro Setor – Rits, que está sendo iniciado com o apoio financeiro da Fundação Kellog, o primeiro curso deverá ser voltado ao fortalecimento institucional das entidades não governamentais, especialmente na área de gestão e administração.

    CREAD

    Em 1993 foi criada a Rede Brasileira de Educação à Distância READ/BR, sob os auspícios da Organização dos Estados Americanos e cuja secretaria ficou ao encargo da Associação Brasileira de Tecnologia Educacional-ABT. Logo depois, em 1996, a ABT passou também a ser referência do Consórcio Rede Interamericano de Educação a Distância – CREAD, animado pela Penn State University, dos Estados Unidos. Idéias similares estão em franco processo de desenvolvimento em vários países, no Brasil a idéia de intercâmbio entre entidades diferenciadas ainda está engatinhando.

    ABED

    A Associação Brasileira de Educação a Distância - ABED, foi criada em 1995, a partir da ação articulada da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo, e da Fundação Roberto Marinho. "É uma entidade sem fins lucrativos que tem como finalidades o estudo, pesquisa, promoção e desenvolvimento de projetos na área de Educação a Distância". Tem realizado várias atividades, encontros, seminários, congressos internacionais e conferências. Com a ampliação de seu quadro associativo começou a publicar um boletim informativo trimestral chamado "Galáxia da Educação a Distância".

    Várias outras experiências importantes como: da Universidade da Força Aérea, do Banco Itaú, do Banco do Brasil, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (notadamente no acompanhamento das constituintes 1987-1991), da Fundação Roberto Marinho (Telecurso 2000), da Universidade Aberta do Nordeste (Fundação Demócrito Rocha), da Universidade Federal de Santa Maria, Universidade Salgado de Oliveira, Universidade do Vale dos Sinos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Estadual do Ceará, Universidade de São Paulo, Seminário Teológico Presbiteriano do Rio de Janeiro e muitas outras instituições.

    Além dessas, há uma série de outras experiências, programas e cursos em andamento, nem todos são de conhecimento público porque ainda se encontram em fase muito experimental, outros acabaram, por um motivo ou outro, não logrando sucesso e não foram devidamente divulgados.

    Não é só no campo da produção que o Brasil tem avançado. No mesmo sentido do processo internacional de valorização da estratégia da educação a distância e do crescente uso de tecnologias educacionais como indutoras de melhor aproveitamento escolar, o Brasil modernizou sua legislação, incluindo na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional vários dispositivos que facilitam o desenvolvimento da educação a distância; em 10 de fevereiro de 1998 foi apresentada a primeira regulamentação geral da matéria (Decreto 2.494/98).

    Um importante passo no sentido de colocar a educação a distância como política pública fundamental no rol das ações de desenvolvimento educacional no Brasil foi a criação de uma secretaria própria no âmbito do Ministério da Educação. A criação da Secretaria de Educação a Distância de fato demonstra a relevância que ganhou a educação a distância no Brasil e também que o governo federal passou a conferir importância estratégica a programas que têm como objetivo a organização de novas alternativas de apoio ao ensino, capacitação de professores em serviço e criação de bases tecnológicas nas escolas, os principais programas com essas características são a TV Escola e o Programa de Informática Educativa.

    É provável, em vista da pouca experiência que se tem no campo da educação a distância, que nos próximos anos a Administração Pública apresente dificuldade em regulamentar e supervisionar os programas formais de educação a distância, ainda mais se não conseguir romper com os padrões tradicionais e comportamentos do ensino presencial. Apesar disso, o que se observa é a manifestação de um volume crescente e significativo de projetos, experiência, propostas e cursos sendo desenvolvidos por instituições as mais diferentes, governamentais, comerciais, não governamentais, nacionais e internacionais, envolvendo universidades, escolas, empresas de informática e centros de pesquisa. Esse grande movimento em direção à educação a distância irá, certamente, provocar mudanças institucionais profundas em várias áreas.

    Os primeiros projetos de curso superior aprovados pela nova estrutura do Ministério da Educação foram os seguintes:

    • Universidade Federal do Pará
      Curso autorizado: Matemática, nas modalidades Bacharelado e Licenciatura Plena ( Parecer nº 670/98 CES/CNE, publicado no Diário Oficial da União de 09/03/99, Seção 1, página 7).

    • Universidade Federal do Ceará
      Cursos autorizados: Biologia, Física, Matemática e Química, na modalidade Licenciatura Plena (Parecer nº 887/98 CES/CNE, publicado no Diário Oficial da União de 09/03/99, Seção 1, página 7).

    • Universidade Federal de Mato Grosso
      Curso autorizado: Educação Básica: 1º a 4º séries, Licenciatura Plena (Parecer nº 095/01 CES/CNE, Portaria nº 372 de 05/03/01 publicado no Diário Oficial da União de 06/03/01, Seção 1E, página 8).

    • Universidade Federal do Paraná
      curso autorizado: graduação em Pedagogia, licenciatura plena, com as habilitações Magistério dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Magistério da Educação Infantil.

    • Universidade do Estado de Santa Catarina
      Curso autorizado: curso de Pedagogia, na modalidade licenciatura plena, (Parecer nº 305/2000CES/CNE, Portaria nº 769/2000 de 01/06/2000, publicado no Diário Oficial da União de 02/09/2000, Seção 1E , página 9).

    • Universidade Braz Cubas
      Curso autorizado: Especialização em Direito Civil e em Direito Penal (Parecer nº 796/00 CES/CNE, e Portaria nº 1556 - A publicada no Diário Oficial da União de 05/10/00, Seção 1E, página 8).

    Capítulo 3. Características e usos da educação a distância

    Walter Perry e Greville Rumble afirmam que a característica básica da educação a distância é o estabelecimento de uma comunicação de dupla via, na medida em que professor e aluno não se encontram juntos na mesma sala, requisitando, assim, meios que possibilitem a comunicação entre ambos como correspondência postal, correspondência eletrônica, telefone ou telex, rádio, "modem", vídeo­disco controlado por computador, televisão apoiada em meios abertos de dupla comunicação, rede digital de serviços integrados etc.

    Analisando os conceitos apresentados pelos mais destacados pesquisadores de educação, Desmond Keegan , também um dos mais importantes estudiosos e pesquisadores da área de educação a distância, sumariza os elementos que considera centrais para o entendimento da educação a distância:

    • separação física entre professor e aluno, que a distingue do ensino presencial;

    • influência da organização educacional (planejamento, sistematização, plano, projeto, organização dirigida etc), que a diferencia da educação individual;

    • utilização de meios técnicos de comunicação, usualmente impressos, para unir o professor ao aluno e transmitir os conteúdos educativos;

    • previsão de uma comunicação de mão dupla, onde o estudante se beneficia de um diálogo, e da possibilidade de iniciativas de dupla via;

    • possibilidade de encontros ocasionais com propósitos didáticos e de socialização; e

    • participação de uma forma industrializada de educação, a qual, se aceita, contém o gérmen de uma radical distinção dos outros modos de desenvolvimento da função educacional.

    Miguel Casas Armengol, um dos formuladores da proposta do governo venezuelano que deu origem a Universidad Nacional Abierta e, depois o seu primeiro reitor, enumerou, com base em seus estudos sobre educação superior a distância e nos trabalhos de Börje Holmberg, Anthony Kaye e Greville Rumble, as seguintes características da educação a distância, vamos usar essa referência e comentá-la, a seguir, à luz das novas experiências e das perspectivas atuais e, também, de outras referências e estudos de Desmond Keegan, Tony Bates e Otto Peters.

    1. População estudantil relativamente dispersa, devido a razões de posição geográfica, condições de emprego, incapacidade física etc.

    Além daqueles que apresentam enorme dificuldade de acesso ao ensino por motivos físicos (portadores de necessidades especiais) e geográficos, uma grande quantidade de alunos, principalmente adultos, ao mesmo tempo em que têm uma enorme necessidade de prosseguir seus estudos ou de aperfeiçoar-se, apresentam grande dificuldade de subordinar-se à disciplina de horários e locais das escolas presenciais, por isso não conseguem acesso ao ensino, isto porque trabalham ou têm outros afazeres, ou mesmo porque têm dificuldade de se subordinar a determinadas regras ou condicionantes dos cursos presenciais.

    No caso daqueles que já têm uma profissão e estão trabalhando em horário integral, é quase impossível compatibilizar seus horários profissionais e suas responsabilidades familiares com um novo curso. Assim, a educação a distância aparece como o único meio adequado de dar-lhes acesso a um novo saber. O tempo passa a ser uma condicionante de aferição da acessibilidade e não ter tempo, nas sociedades modernas, deixa de ser uma questão de opção passando a se constituir em característica da vida social atribulada, que impõe aos trabalhadores de baixa renda longas horas de deslocamentos em transportes coletivos e aos de renda média outras tantas horas em engarrafamentos.

    Há outros casos que também devem ser levados em consideração: muitas vezes as instituições educativas se especializam no atendimento à determinada clientela mais jovem e quando um adulto já de certa idade deseja freqüentar os cursos encontra barreiras geracionais, de linguagem, de comportamento etc, preferindo, nesses casos, alternativas que lhe garantam certa tranqüilidade para seguir o curso.

    Essa dispersão da população estudantil, então, pode ser tanto física ou geográfica, quanto geracional ou de comportamento.

    Um adulto pode se sentir muito inibido a freqüentar um curso presencial que ele acredita ser somente destinado a jovens (mesmo que isso não seja totalmente verdadeiro). Esse mesmo curso oferecido à distância pode significar a diferença entre o acesso à educação ou a apartação.

    2. População estudantil predominantemente adulta, que apresenta peculiaridades que justificam enfoques educativos mais voltados à educação de adultos.

    Quanto a este aspecto, Keegan afirma que a educação "pode prover um programa educativo completo para ambos, crianças e adultos".

    No caso de tratar­se de curso destinado a público infantil e adolescente, é fundamental que se observe a necessidade de um forte apoio logístico e institucional que institua meios permanentes de estímulo social e motivação individual, quer incorporando as instituições sociais locais, quer dando forte destaque aos meios de comunicação com forte base emotiva e enfatizando a interatividade. É recomendável que os cursos sejam mediados por orientadores de aprendizagem treinados a estimular os jovens e a valorizar sua aprendizagem individual. Exercícios e experimentos práticos, ligados à realidade concreta dos jovens devem ser uma constante no processo de ensino.

    Para o adequado atendimento da população adulta, que, então se constitui na maioria da clientela da educação a distância, é fundamental que os projetos tenham, desde seu início, a perspectiva de valorização da experiência individual, não somente no que se refere ao tema a ser estudado mas, principalmente, no tratamento dos conteúdos a partir da experiência de vida e cultura dos alunos.

    Quanto a valorização da experiência anterior, deve­se levar em conta aspectos importantes da cultura geral e local. Em se tratando de pessoas com pouca escolaridade formal ou indivíduos educados em processos que pouco incentivam a iniciativa individual, é recomendável que os cursos sejam precedidos de (ou, preferencialmente, em todos os seus estágios incorporem) pequenos cursos (ou módulos) que ensinem como estudar, como utilizar seu tempo e estimulem o aluno a tomar iniciativas e a construir sua autonomia. Essa introdução pode ser a distância ou realizada como uma atividade presencial, como foi feito, por exemplo, neste curso que você está fazendo agora (lembra daquela semana inicial?).

    Os problemas e o grau de complexidade do curso, também, devem levar em consideração os aspectos culturais e o aprendizado anterior do aluno. Esse processo deve ser adequadamente controlado, como meio de avaliar se o curso está realmente atingindo seus objetivos e se os alunos estão verdadeiramente superando estágios de apatia e subordinação, vencendo barreiras e desenvolvendo sua autonomia e independência.

    Observa-se aqui um ponto em que a tecnologia de informação e comunicação ganha destaque quando apresentada como base para a constituição de um novo modelo de educação. Ao longo do tempo, quando a sociedade demandava mais acesso à educação, a única opção era massificar o ensino, ampliando o número de estabelecimentos e o número de alunos por sala de aula. O relacionamento entre professor-aluno que se estabeleceu com esse modelo (já na Idade Média) subordina, de forma contundente, o indivíduo ao grupo. Várias teorias inclusive já foram elaboradas para justificar essa subordinação como adequada.

    Nesse caso, o professor se dirige, em geral, a um aluno-médio, inexistente, ou exclui a quase totalidade da sala de aula e exerce o magistério somente com uns poucos estudantes.

    Ao se desenvolver, a tecnologia de informação possibilita que, agora, se possa começar a construir modelos educativos que tenham realmente como referência o estudante, estabelecendo mecanismos de acompanhamento individualizado mesmo que o curso esteja sendo freqüentado por milhares de estudantes ao mesmo tempo e em vários países.

    O acompanhamento (tutoria, avaliação e apoio) de cada estudante começa a ser possível, mesmo que as turmas tenham milhares de alunos. Mas, para que isso realmente seja possível, é necessário dotar-se os sistemas educativos a distância de inteligência computacional (programas próprios) que valorizem a centralidade no aluno (bancos de dados, customização dos acessos via rede de computadores, bom gerenciamento de informações, garantia de privacidade etc).

    3. Cursos que pretendem ser auto­instrucionais, mediante a elaboração de materiais para o estudo independente, contendo objetivos claros, auto-avaliações, exercícios, atividades e textos complementares. Estes cursos podem ser auto­suficientes e constituir­se em guia para o estudo de um conjunto de outros textos, fomentando a capacidade de observação e crítica e o pluralismo de idéias, aspectos especialmente valiosos nos estudos universitários.

    Do ponto de vista da preparação dos materiais, há uma diferença fundamental entre a educação presencial e a distância. Neste último caso, é importante que os materiais sejam preparados com antecedência e por equipes multidisciplinares/transdisciplinares que incorporem, nos instrumentos pedagógicos escolhidos, as técnicas mais adaptadas para a auto-instrução, tendo em vista que o processo de aprendizagem deverá se dar com uma pequena participação de apoios externos.

    O centro do processo de ensino passa a ser o estudante, a aprendizagem. Não mais o professor e o ensino.

    É essencial também que se procure ir ampliando as possibilidades de escolha dos estudantes, oferecendo visões alternativas sobre o mesmo problema e materiais complementares que auxiliem na formação de um pensamento crítico e analítico.

    Uma escola realmente aberta faz-se cada vez mais necessária para a concretização desse modelo hipertextual e de múltiplas conexões que a autonomia e a centralidade no estudante (deslocamento do eixo do ensino para a aprendizagem) demanda; uma nova escola ou uma nova forma de fazer-se educação.

    O hipertexto que a imprensa começou a proporcionar, se expande e adquire nova forma no tempo da comunicação informatizada da rede mundial. Os cursos oferecidos por meio digital tiram proveito da miríade de produtores conectados entre si pela Internet, multiplicam-se os fornecedores de cursos e amplia-se a facilidade de troca de informações e impressões entre os alunos. Mas, novamente aparece o "problema" que despontou depois da invenção de Gutenberg: como sobreviver nesse mar de informação que quase instantaneamente nos cerca? (ver um pouco atrás a nota 16: "as escolas eram um meio de governar a ecologia da informação").

    Em qualquer uma dessas características cabe fazer uma referência à tutoria. Na maioria dos programas educacionais a distância ela está presente, que na forma de assessoria, de animador, ou mediador. Em geral, recomenda-se não reproduzir as mesmas relações existentes no ensino presencial, deixando para o tutor a cobertura de todas as deficiências que se verifiquem nos materiais, ou dando-lhe autonomia para interferir no processo de desenvolvimento do curso. A tutoria complementa, facilita, apoia, mas não ensina, ministra aulas ...

    Por isso é importante articular bons materiais, produtos de uma boa concepção e adequado planejamento do curso, testagens e reformulação dos programas, com uma tutoria que ajude o aluno a ter iniciativa, a pesquisar e a refletir.

    Sempre que possível, é importante ir atualizando os materiais, incorporando as experiências e os conhecimentos proporcionados pela aplicação dos mesmos. Não se recomenda fazer uma reedição de materiais impressos sem que se aproveite essa oportunidade para melhorá-los. No caso de mídias como os vídeos, isso pode significar maior custo, já que não é igualmente fácil editar um vídeo antigo. Mas, se houver profissionais competentes, isso pode ser feito com a mesma tranqüilidade e com pouco aporte de recursos.

    4. Cursos pré­produzidos, que geralmente ainda usam de forma predominante livros ou apostilas impressas, mas o fazem combinando os textos com uma ampla variedade de outros meios e recursos tais como: suplementos de periódicos e revistas, livros adicionais, rádio e televisão educativos em circuito aberto ou fechado, filmes, computadores e, especialmente, redes de microcomputadores, vídeo­discos, vídeo­textos, comunicações mediante telefone, rádio e satélite, equipamentos portáteis para testes ("kits"), vídeo-conferência, teleconferência, rede digital de serviços integrados, etc. A adequada integração desses diversos meios para conquistar objetivos instrucionais, constituiu o denominado "enfoque multimeio". A logística desses cursos se caracteriza pela centralização da produção, combinada com uma descentralização da aprendizagem.

    Para a implantação de um sistema de educação a distância ou mesmo a ampliação de um já existente, há que se considerar, além desses aspectos enunciados acima, as tendências comunicativas, tanto no que diz respeito a equipamentos (hardware) quanto a programas (software), para que não se faça investimentos que se tornem obsoletos no curto prazo. Atualmente, tendo em vista a grande flexibilidade que adquiriram os microcomputadores, há uma forte tendência em poder­se utilizá­los em substituição a outras formas de comunicação, principalmente para a educação, que em breve terá, a custo relativamente baixo, a possibilidade de utilização em massa da multimídia e de teleconferências com base em computadores pessoais ou redes de computadores (ver as características técnicas das redes mais adiante).

    A possibilidade de incorporar-se no computador quase todos os demais meios de comunicação, potencializada com a ligação em rede, transforma esse equipamento no condutor físico da mensagem educativa mais apropriado ao momento de desenvolvimento da educação a distância. Facilita sua escolha o fato de estar cada dia mais fácil utilizá-lo, notadamente quando se trata de públicos mais jovens.

    5. Comunicações massivas; uma vez que os cursos estejam preparados é possível, conveniente e economicamente vantajoso utilizá­los para um grande número de estudantes.

    Na educação tradicional os custos de produção de um curso tendem a ser semelhantes de um período para outro, mantendo-se no mesmo nível dado um determinado número de alunos. Ampliar o número de turmas significa ampliar quase que igualmente o custo do programa. O peso do curso tradicional está no custo variável. É relativamente barato para um grupo pequeno de pessoas, mas muito dispendioso e difícil de operar quando se amplia demasiadamente o número de estudantes (isso sem falar no risco com a perda de qualidade).

    Na educação a distância é um pouco diferente (dependendo do modelo que se adote). O peso está nos custos iniciais, como veremos um pouco mais adiante. Há um determinado custo fixo exigido para se fazer um determinado curso, utilizando-se esta ou aquela tecnologia, independentemente do número de alunos que terá. Aumentar o número de alunos não diminui o custo inicial, mas o reparte entre mais beneficiários. O aumento de dispêndios que se tem com a elevação substancial do número de alunos pode ser insignificante, sem comprometer a qualidade do curso

    O gráfico acima ilustra uma comparação entre custos de várias tecnologias de comunicação formulado por BATES

    Por isso se afirma que a educação a distância é uma estratégia educativa para grandes quantidades de estudantes.

    Além disso, a existência de uma grande quantidade de materiais educativos, de livre reprodução ou de custo baixo, disponíveis em bibliotecas digitais de acesso fácil, pode proporcionar o aparecimento de outros cursos de modo exponencial.

    6. Comunicações organizadas em duas direções, que se produzem entre os estudantes e o centro produtor dos cursos. Esta comunicação se cumpre mediante tutorias, orientações, observações sobre trabalhos e ensaios realizados pelo estudante, auto­avaliações e avaliações finais. O meio principal de comunicação é a palavra escrita, entretanto usa­se com freqüência o telefone, o rádio e reuniões entre tutor e aluno ou com pequenos grupos.

    Em 1960, Börje Homberg ao criar o conceito de conversação didática guiada teve por base a necessidade de manter o estudante motivado, dar ênfase à necessidade de estar sempre presente nos materiais didáticos a noção de um diálogo de dupla-via, as mensagens deveriam ser facilmente lembradas e entendidas, a forma de apresentação do texto deveria ser simpática e amistosa, estabelecendo um diálogo informal e, finalmente, o plano de curso deveria ser explícito e explicitado ao estudante o seu conjunto de conceitos e objetivos.

    Ele acabou mostrando, com a aplicação de seus conceitos, que seria possível estabelecer, mesmo sem a mediação de um professor, uma conversação entre o estudante e a equipe de produção dos materiais, com a mediação dos próprios materiais.

     

     

     

     




    Conversação Didática Guiada (Holmberg)








     

     

    Se verdadeira essa condição com relação ao texto impresso, a educação a distância pode, no mundo digital, ganhar postura de interlocução permanente, inteligente, libertária, aberta com o texto quadridimensional (e também adimensional) que se forja na rede Internet ou nas redes de computadores das instituições de ensino que estejam ligadas às bibliotecas digitais e ao universo de páginas e sítios (sites) que se abrem diariamente.

    7. Estudo individualizado, sem pretender que ele seja uma característica exclusiva desta forma de ensino. Contudo, "aprender a aprender" constitui um recurso especialmente importante para o estudante a distância e é a partir desse ponto que seu desenvolvimento deve ser impulsionado neste tipo de educação para que o novo tipo de educação e escola que a sociedade requer possa ser construído.

    Mesmo para os projetos/cursos que sejam fortemente baseados na recepção grupal, há que se considerar este aspecto importante: o estudante é um indivíduo com características próprias, que devem ser respeitadas; do mesmo modo, deve merecer atenção o ritmo de estudo individual. Portanto, deve­se considerar seu comportamento e os mecanismos facilitadores de aprendizagem nessa situação.

    Um dos projetos de maior significância, do ponto de vista da eficácia da educação a distância, é a incorporação de procedimentos educativos que auxiliem o estudante a ingressar na modalidade educativa a distância. Os alunos, geralmente, têm forte influência dos métodos presenciais e, principalmente, são pouco educados a estudar a partir de seu próprio esforço individual. Neste caso, é fundamental que se oriente o estudante (não só em um momento inicial, mas durante todo o período em que estiver realizando atividades a distância) a estudar por conta própria, desenvolvendo habilidades de independência e iniciativa.

    Em cursos que tenham como principal meio de comunicação entre o aluno e o sistema de ensino (materiais, bibliotecas, aulas, etc.) algum tipo de rede de computadores, Internet por exemplo, é possível utilizar-se de procedimentos informatizados para acompanhar aluno por aluno, verificando suas dificuldades, o tempo que despende em cada atividade, quais as informações que procurou e não achou ... Isso pode ser feito geralmente com pouco esforço ou quase nenhum gasto de tempo de professores e assessores já que se pode adaptar bancos de dados relacionais fazendo com que todas as informações geradas pelos alunos possam ser imediatamente transformadas em informações gerenciais ou fontes de dados para verificações e pesquisas. Os principais programas computacionais orientados à produção e gestão de cursos a distância que hoje estão disponíveis no mercado já incorporam, pelo menos parcialmente, essa idéia.

    8. Tipo industrializado de ensino aprendizagem, a produção massiva de materiais auto­instrucionais implica em uma clara divisão do trabalho na criação e produção, tanto intelectual como física dos materiais. Ainda que além deste modelo existam outros, este constitui­se no mais utilizado e importante em escala mundial.

    É importante observar que esse modelo pressupõe ou, no mínimo, traz como conseqüência a valorização do trabalho multidisciplinar/transdisciplinar e em equipe, quase sempre ausente ou tendencialmente ausente do processo de educação presencial, onde a figura central do professor acaba por valorizar o trabalho artesanal e solitário do mestre­artesão produzindo sua obra prima e reproduzindo­a de forma sempre concêntrica ou linear, depois.

    9. Crescente utilização da "Nova Tecnologia Informativa", Scriven afirma que a informação não é educação, mas o conhecimento se firma na informação. A antiga tecnologia informativa utilizava principalmente meios mecânicos e elétricos para cumprir suas funções; ao contrário, Hawdrigde explica que a nova tecnologia informativa depende mais da eletrônica e fundamentalmente compreende três tecnologias convergentes: computação, microeletrônica e telecomunicações. As possibilidades dessas novas tecnologias para a educação a distância são extraordinárias. Obviamente, também a educação presencial pode beneficiar­se desses novos meios, porém com um alcance mais limitado que nos sistemas a distância. Atualmente é também comum chamar-se esse conjunto de tecnologias como Tecnologias da Informação e de Comunicações (TIC) ou, também, como Novas Tecnologias da Informação (NTI).

    Os avanços na área de micro-informática indicam uma tendência excepcional para a educação, quando da universalização, a baixo custo, da multimídia e da "realidade virtual". Esta última, quando melhor desenvolvida, será muito útil certamente para o ensino de matérias que requerem exercícios e experiências simulados, como mostram experimentos que estão sendo feitos com disciplinas como química, biologia, geometria e física.

    Pierre Lévy nos diz que "o processo de unificação do campo da ‘comunicação’ jé é bem antigo, na ordem econômica e financeira. Começou recentemente no plano das habilidades e das profissões durante o desenvolvimento da telemática. Com a constituição da rede digital e o desdobramento de seus usos tal como imaginamos aqui, televisão, cinema, imprensa escrita, informática e telecomunicação veriam suas fronteiras se dissolverem quase que totalmente, em proveito da circulação, da mestiçagem e da metamorfose das interfaces em um mesmo território cosmopolita" .

    Há muitos críticos da utilização de tecnologia comunicativa na educação. Grande parte das observações contrárias à utilização de modernas tecnologias na educação dá­se não por causa da tecnologia em si, mas principalmente pelo uso que dela se faz. Por um lado, não se prepara os profissionais da educação para tirarem o máximo proveito da tecnologia e, por outro, esta tem, em várias ocasiões, servido simplesmente como meio de fixação de uma mensagem única e a crítica.

    Na medida em que for sendo desenvolvida a tendência à convergência das várias tecnologias comunicativas, como imagina Pierre Lévy na observação que citamos acima, é provável que também se reduza essa crítica, especialmente se também vier a se materializar um grande investimento em qualificação de pessoal para o desenvolvimento de materiais educativos, softwares e para a implantação de situações de telepresença no ensino tradicional.

    Os computadores progridem em potência de memória, de cálculo, em velocidade de manipulação de informações, imagens e dados, numa velocidade estupenda. Reduz-se também o preço dos equipamentos. Melhora-se a qualidade das comunicações (telefonia, vídeo etc.). Em breve os computadores poderão estar sendo produzidos com telas de boa definição e suficientemente flexíveis para que se comece a pensar em utilizá-los como meio essencial para a educação, quer presencial quer a distância.

    Atualmente, os principais programas de educação a distância, quer sejam eles as grandes universidades ou os centros de capacitação de empresas (universidades corporativas), centram seus investimentos no uso de tecnologias de ponta, agregando mais e mais ferramentas tecnológicas aos processos de ensino e aprendizagem.

    As organizações de capacitação empresarial "estão dando uma importante atenção a esse ‘novo ambiente de aprendizagem’, fazendo experiências com uma variedade de ferramentas educacionais no ambiente de negócios. Ao longo do tempo, o treinamento corporativo em sala de aula, conforme o conhecemos hoje em dia, será apenas uma parte – e em certos casos uma pequena parte – da abordagem adotada pelas organizações para a educação de seus funcionários."

    10. Tendência a adotar estruturas curriculares flexíveis, por meio de cursos organizados através de módulos e currículos organizados por créditos; tais estruturas permitem uma maior adaptação às possibilidades e aspirações individuais da população estudantil, sem que isto se dê em detrimento da qualidade acadêmica do material instrucional. Tampouco, neste caso, pode­se pretender que este aspecto seja exclusivo da educação a distância, mas indubitavelmente para ela representa a possibilidade de oferecer a seus estudantes uma abertura e facilidades que na educação presencial realmente só se pode oferecer nos estudos de pós­graduação.

    Com respeito a este aspecto, o método desenvolvido por Fred Keller, denominado PSI-Personalized System of Instruction, apresenta grande contribuição para a organização de um processo continuado, centrado no aluno, que a educação a distância pode absorver e incrementar. Por outro lado, há que se observar que não basta a preferência pelo sistema de créditos, tendência dominante das universidades brasileiras hoje. A questão está em como administrar esse sistema de modo a oferecer realmente liberdade de ação ao estudante. O sistema de créditos atualmente utilizado no Brasil não tem contribuído para a flexibilidade que a proposta original apontava. Na educação a distância essa maleabilidade se dá com a adoção de uma concepção aberta de ensino e a existência prévia de grande variedade de materiais, que podem constituir créditos suficientemente numerosos que proporcionem a administração matricial dos cursos.

    Holmberg apresenta estudo que indica a superioridade do PSI sobre outros métodos de ensino convencional, destacando-se alguns paralelos entre a educação a distância e os princípios basilares do PSI, contudo aponta uma crítica ao caráter eminentemente condutivista, em seu entender, do método PSI. Mas, em que pese esse aspecto, Holmberg assinala como importante o caráter essencial da comunicação de dupla via entre o aluno e o professor, o respeito ao ritmo do aluno, a importância do uso de meios impressos, e a acentuação da motivação.

    Os métodos de ensino que mais se desenvolveram nas décadas seguintes à II Guerra Mundial tinham por base as experiências militares, quer no campo da instrução programada, quer na área do planejamento e acabaram por dar contorno a uma disciplina chamada Tecnologia Educacional, que durante muito tempo e para muitas pessoas se confundia com educação a distância.

    Se por um lado ainda se encontra dificuldade de superar o estágio da instrução programada nos cursos de educação a distância, as agências governamentais que têm responsabilidade regulatória, também têm apresentado dificuldade de superar as concepções metodológicas, logísticas e temporais da educação presencial, por isso às vezes aparecem documentos com pouca base lógica exigindo que cursos de educação a distância tenham como referência as práticas da educação presencial. Ao fazer isso, imagina-se que a qualidade está sendo preservada, mas, após alguns anos de experiência, acaba-se vendo que a qualidade em educação a distância, na maioria dos casos, requer certo distanciamento com as práticas e as concepções logísticas, temporais e de avaliação da educação tradicional.

    11. Custos decrescentes por estudante, depois de elevados investimentos iniciais e sempre e quando se combinem uma população estudantil numerosa com uma operação eficiente, a educação a distância pode ser mais barata.

    Há muitos exemplos e estudos que mostram que realmente a educação a distância pode ser muito mais barata que a educação convencional quando as condições acima estiverem preenchidas. No caso da Open University da Inglaterra, os custos de cursos universitários regulares ficam entre 37% e 47% dos custos totais de universidades presenciais, para outros tipos de cursos os custos ficam entre 55% e 80% daqueles praticados por universidades convencionais. No caso do Sistema Chinês de Universidade pela Televisão, os custos por aluno ficam entre 43% e 51% daqueles observados nas universidades convencionais, John Daniel faz uma comparação interessante, ele mostra que "os 3.500 centros universitários e universidades dos Estados Unidos têm aproximadamente 14 milhões de estudantes e um gasto anual com educação superior por volta de 175 bilhões de dólares. Isso representa um custo de US$ 12,500 por aluno. As 11 mega-universidades atendem 2,8 milhões de estudantes e envolvem um orçamento de 900 milhões de dólares, isso representa menos de US$ 350 por aluno".

    Mas, é importante frisar que apesar de observarmos um custo médio em instituições de educação a distância bem inferior ao custo por aluno de universidades e organizações educacionais convencionais, o investimento inicial da educação a distância geralmente é muito elevado, principalmente porque normalmente se compara esse dispêndio com aquele realizado por uma instituição educacional já estabelecida. Nesse caso, é uma comparação que apresenta certa dificuldade, já que não está se contando com os custos de implantação da escola convencional, como construção, equipamentos e manutenção, pois se comparam normalmente os custos variáveis e não os custos totais, dos primeiros três anos, por exemplo.

    Mas mesmo fazendo essa comparação desse jeito, os cálculos que se tem é que a educação a distância pode apresentar custos médios de duas a cinco vezes menores que os cursos convencionais.

    Isso não significa, de nenhuma forma, desemprego de professores, que seriam substituídos por máquinas. Com o crescimento de oportunidades de educação, elevação do número de alunos, pode-se empregar um número crescente de pessoas que desempenharão diversos papeis no processo de produção, acompanhamento (tutoria, assessoria etc.), avaliação e administração de cursos a distância.

     

    Capítulo 4 . Análise Prospectiva

    Escolas digitais: Uma Evolução da Tecnologia educacional e da Educação à Distância

    É clara a tendência não só para o uso de novos instrumentos didáticos, por absorção cada vez mais acelerada de novas tecnologias, como uma "abertura" maior para o conceito da educação. Pode-se perceber, nas últimas décadas, uma pedagogia mais diversificada conforme seus fins e mais utilizadora de recursos das tecnologias comunicativas.

    Os novos tempos exigem flexibilidade no aprendizado, inclusive para que se possa perseguir o objetivo de elevar a qualidade da educação. A transição para uma Sociedade do Conhecimento e da Informação já está em curso no mundo inteiro. Não se trata de um processo homogêneo, dadas as diferenças culturais e sociais que existem e devem presidir as prioridades das decisões de políticas públicas na educação.

    Ainda mais no caso brasileiro onde as profundas desigualdades de acesso à educação requerem uma abordagem muito específica, já que se precisa, ao mesmo tempo, superar o analfabetismo funcional e promover a inclusão digital de todos os cidadãos.

    Esta não é uma questão apenas de tecnologia. Trata-se de uma questão óbvia de eqüidade e, principalmente, uma saída para o avanço do processo de democratização do País e um campo de prioridades para o exercício da cidadania.

    Além das características enumeradas anteriormente, selecionadas entra várias outras também presentes em importantes estudos sobre a matéria, podemos considerar, com destaque, uma tendência crescente, que tem se verificado nos últimos cinco anos: a aproximação do ensino tradicional da aprendizagem a distância, incorporando no primeiro muitas características que existe na segunda, notadamente quando se observa os programas de absorção de novas tecnologias no ensino. Mas isso também está presente nos textos didáticos, nos métodos de ensino individualizado, na centralidade na aprendizagem etc.

    De toda sorte, mesmo que apresentem características que os separam, a convergência entre os dois sistemas é muito saudável para o aluno, desde que o credenciamento social das escolas se dê em igualdade de condições, sem discriminação.

    Mas, para o caso da educação a distância, além das aplicações mais constantes dessa modalidade de ensino - cursos universitários de graduação e pós-graduação - há uma série de campos que merecem atenção especial.

    Uma abordagem da educação a serviço da cidadania

    É importante enumerar, mesmo que ligeiramente, alguns campos onde a educação a distância pode ser utilizada dentro de um programa amplo de prestação de um serviço que a cidadania está a exigir e que o novo impulso das telecomunicações nacionais pode garantir:

    Democratização do saber e educação por toda a vida­ passo fundamental nesse sentido é dado pela educação formal, na medida em que possa conseguir garantir mínimas condições de acesso à cultura a milhões de cidadãos, principalmente através da universalização do ensino básico (meta constitucional a ser atingida - Constituição Federal, art. 214). Contudo, isto não basta. Em um mundo que vive sob a égide das transformações e mudanças, o acesso às informações sistematizadas e às formas de capacitação para a tomada de decisões independentes e autônomas, requisita ações que vão além das fronteiras da educação formal. No campo da educação não­formal e informal, a educação a distância pode desempenhar papéis múltiplos, que vão desde a atualização de conhecimentos específicos, educação permanente, até a formação profissional. Além disso, por meio de procedimentos adequados e sistematizados, pode a educação a distância contribuir sobremaneira para que o acúmulo de informações assistemáticas jogadas ao público através da mídia sejam processadas de forma organizada, contribuindo para o fortalecimento de uma mentalidade crítica e criativa, rompendo a barreira da passividade muitas vezes provocada por processos manipuladores de opinião pública.

    Mais que substituta da educação presencial a educação a distância, no Brasil, pode ser utilizada como forma complementar de educação, atualizando conceitos e conhecimentos, auxiliando a permanente tomada de consciência dos profissionais sobre os avanços promovidos em suas áreas específicas e, principalmente, gerando processos continuados de acesso ao conhecimento acumulado pela humanidade à milhões de cidadãos.

    A introdução de programas educacionais mais flexíveis, de qualidade e bastante diversificados, no que diz respeito a campos de abrangência e temáticas, pode ser um passo importante para a introdução da educação aberta e da educação para toda a vida.

    Formação e capacitação profissional ­ em que pese a polêmica, sadia por sinal, sobre o papel da profissionalização no processo de educação formal, não há dúvida quanto à eficácia e pertinência de projetos de educação a distância neste campo fundamental da existência social, notadamente se observarmos os exemplos internacionais. Foi justamente por este caminho que a educação a distância começou a trilhar seu desenvolvimento, ainda nos cursos por correspondência. Tanto no campo da formação profissional básica quanto em níveis universitários, a educação a distância tem demonstrado ser uma modalidade com grandes potencialidades, ainda mais por ser um meio de educação de massa que pode ser desenvolvido com padrões de qualidade superiores mesmo quando se acrescenta contingentes significativos de alunos.

    Do ponto de vista tecnológico, a presença da informática nos processos de capacitação tem gerado grandes avanços nos procedimentos de treinamento a distância ou treinamento independente com ajuda do computador. Caso notório são os procedimentos adotados pelas grandes companhias aéreas e setores das Forças Armadas, com a utilização de simuladores (de vôo, de combate, etc.) altamente sofisticados e bancos de dados interativos, que utilizam sistemas de inteligência artificial.

    Com níveis de sofisticação tecnológica mais simples e barata, é cada vez maior o número de empresas que descobrem as vantagens do treinamento a distância para a capacitação e atualização de seus funcionários, não somente por conta da redução dos custos, mas principalmente pela possibilidade de envolver um grande número de pessoas ao mesmo tempo e em regiões distantes.

    No caso de instituições especializadas no treinamento de pessoal é importante observar que a modalidade de educação a distância não somente pode introduzir ganhos de eficiência e eficácia, como também reduzir custos relativos, quando se tratar de processos de treinamento de contingentes numerosos de alunos e, também, elevar a qualidade, através de processos de definição de conteúdos elaborados por equipes multidisciplinares altamente qualificadas a custo relativo baixo. A educação a distância, como modalidade complementar da presencial pode auxiliar na introdução de novos instrumentos tecnológicos para o acompanhamento dos alunos em sua ação prática, em serviço. Seus materiais instrucionais poderão igualmente ser de grande utilidade na educação presencial. Temos como exemplo em outras situações o caso da Universidade Nacional Autônoma de Honduras, onde o setor de educação a distância nutre toda aquela Universidade de materiais para os cursos presenciais.

    A dinâmica própria das transformações tecnológicas atuais, que devem ser incorporadas rapidamente pelas empresas produtivas e do setor serviços, bem como a sofisticação e o requerimento de agilidade no trato de informações, como também a necessária qualificação para o trato de um mercado consumidor mais exigente, fará com que grandes empresas e conglomerados sejam forçados a adotar procedimentos de formação, qualificação e capacitação de pessoal, que atendam a requisitos de celeridade e custo, que somente a educação a distância poderá realizar.

    No que diz respeito aos serviços públicos, já se observa a necessidade de formação e atualização profissional de servidores em quantidade e com características de dispersão geográfica que irão exigir a implantação de sistemas adaptados de educação a distância que atendam aos reclamos da população por melhores e mais ágeis serviços públicos de qualidade.

    A introdução cada vez maior de elementos tecnológicos e científicos nos mais variados campos da ação humana, incluindo-se o serviço público, exige a atualização de procedimentos de trabalho em velocidade que o ensino formal não consegue acompanhar. Esse também é um diferencial de tempo em que a modalidade de educação a distância se destaca. Aqui custo e tempo lhe dão preferência, caso haja capacidade para a produção de materiais de elevada qualidade didática.

    Ademais, a veloz transformação tecnológica que a micro­informática está processando, como o aparecimento de equipamentos mais rápidos, com maior confiabilidade e capacidade de processamento, aliado ao fato de estarem sendo colocadas à disposição do público linguagens interativas, fará do microcomputador um instrumento indispensável à formação e capacitação de pessoal, utilizando processos de multimídia, com a interação de bancos de dados muito poderosos, capazes de fornecer aos educadores instrumentos eficientes e céleres de comunicação de dupla­via com os alunos, e proporcionando maior liberdade no manuseio de materiais auto­instrucionais amigáveis e fáceis de usar.

    O desenvolvimento, no Brasil, de modernos meios de comunicação de dados, a partir dos investimentos que vinham sendo feitos pelo setor público no antigo Sistema TELEBRÁS, pela EMBRATEL e, agora, pelas companhias privadas que estão adquirindo concessões públicas no setor, criará as bases tecnológicas para que organizações governamentais e não governamentais possam organizar, em conjunto com as empresas privadas, a formação de bancos de dados de utilização múltipla que sirvam de suporte a projetos que objetivem a redução dos custos de preparação de materiais instrucionais e educativos.

    Com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador, está sendo promovido um programa de capacitação de centenas de milhares de cidadãos, em todas as áreas e setores, quer com o objetivo de criar condições para que esses cidadãos ingressem no mercado de trabalho com melhores condições de competitividade, quer para ajudar o trabalhador a manter o seu emprego.

    Apesar do volume de recursos e da extensão das metas de capacitação, a educação a distância não tem sido muito utilizada nesse programa como estratégia de formação massiva. Uma explicação: falta de produtores, inexistência de materiais didáticos (com exceção dos cursos de informática), falta conhecimento do potencial e efetividade da educação a distância. A Universidade Federal de Santa Catarina foi uma exceção, desenvolveu com recursos dessa fonte um programa de capacitação de professores na temática da tecnologia educacional e educação a distância, produzindo textos impressos, um CD-ROM ensinando a usar a Internet e organizou conferências e debates via satélite para todo o estado.

    É importante observar que a educação a distância não é necessariamente sinônimo de sofisticação tecnológica. Ela pode ser desenvolvida a partir de meios econômicos e populares. De fato, as modernas tecnologias somente passam a ser instrumento adequado da educação a distância quando ganham dimensão econômica de massa. Custo baixo e facilidade de uso e de acesso são elementos importantes na análise e escolha dos meios em programas educação a distância. No caso da informática e da telemática, a indústria de equipamentos e de softwares tem caminhado no sentido de baratear significativamente os equipamentos e facilitar enormemente o uso de programas e aplicativos.

    Capacitação e atualização de professores ­ apesar de se inscrever no item acima merece destaque, no caso brasileiro, essa questão, dadas as características de nossos quadros de professores, notadamente aqueles responsáveis pela educação de crianças e jovens que se encontram em nossas escolas tentando concluir o ensino básico. Contudo, é importante salientar, que não bastam programas esporádicos de formação de professores para que o problema da capacitação para o magistério seja minimizado. Há necessidade de promover­se ações integradas e permanentes, envolvendo as capacidades locais e as instituições sociais.

    Educação aberta e continuada - por meio da educação a distância é possível promover a proliferação de experiências de grande alcance social, para a formação cultural da nacionalidade, dando acesso à educação a grandes contingentes afastados das instituições formais de ensino, ou que têm dificuldade de acesso a elas. Cursos sobre saúde, ecologia, tecnologia e artes podem ser veículos muito importantes para a integração social de grandes parcelas da população, principalmente se forem respeitadas as formas comunitárias de organização social e as instituições da sociedade civil.

    A educação a distância poderia estar sendo muito bem desenvolvida no Brasil em regimes de cooperação entre o Estado e a sociedade, para a disseminação de conhecimentos básicos e operativos, para a prevenção da AIDS, para o conhecimento de técnicas e métodos de higiene e saneamento comunitário, organização espacial urbana, capacitação massiva para a formação de empresas autogestionárias, entre outros.

    Educação para a cidadania ­ um conjunto significativo de ações educativas podem ser levadas a termo com a educação a distância, transformando processos cívicos obrigatórios por lei em processos realmente participativos e conscientes. Temas fundamentais da existência contemporânea de nossa sociedade podem, e devem, ser tratados de forma sistemática através de cursos, ou meios educativos sistemáticos, capazes de elevar o nível de participação responsável da sociedade no processo de construção da nacionalidade. A integração das organizações da sociedade civil com os movimentos populares certamente produzirá frutos fundamentais, apoiados por procedimentos educativos a distância.

    Nesse caso inscrevem­se os cursos dirigidos à segmentos definidos da sociedade, que carecem muito de informação e de formação, para atuarem concretamente na sociedade, como cursos de formação sindical, cursos de cidadania, cursos de prevenção de doenças, organização comunitária, organização social, formação política etc.

     

    Capítulo 5 – As Tecnologias da Informação e de Comunicações e a Educação

    As novas tecnologias da informação e de comunicações, em suas aplicações educativas, podem gerar condições para um aprendizado mais interativo, através de caminhos não lineares, em que o estudante determina seu ritmo, sua velocidade, seus percursos. Bibliotecas, laboratórios de pesquisas e equipamentos sofisticados podem ser acessados por qualquer usuário que disponha de um computador conectado por linha telefônica a uma central distribuidora de serviços.

    A grande vantagem do armazenamento digital das informações decorre da facilidade com que o usuário pode interagir ativamente com as informações.

    Pierre Lévy propõe esquema abaixo para explicar o processo de composição de novas formas de comunicação neste limiar do século XXI.

     

     

    A Circulação das Interfaces no Começo do Terceiro Milênio

    O que esse gráfico mostra é que o centro do processo de comunicação (onde a educação está também presente) são as redes digitais de alta velocidade e de baixo custo, operadas e operando computadores de alto desempenho, pelos quais trafegará texto, voz, imagens, sons, dados etc. Mas não é só o tráfego, são os cálculos, os bancos de dados, a potência da inteligência e das informações.

    Essa miscigenação de recursos e meios, no entender dele, já está criando a possibilidade de tratarmos o processo educativo como algo diferente do convencional, criando comunidades realmente ligadas a interesses de informação e desenvolvimento do conhecimento.

    É bem provável, tendo em vista a velocidade de crescimento das redes instaladas, o avanço exponencial da tecnologia da informática, possa ser ultrapassada a previsão da União Internacional de Telecomunicações (UIT), que durante o Telecom Interactive (realizado em Genebra em setembro de 1997) informou estimar o crescimento de 38% no uso da Internet até o ano 2001, conforme tabela abaixo:

    CRESCIMENTO DAS REDES

    Categorias

    Base Instalada

    Base Instalada

    Previsões de base instalada

    Taxa de crescimento anual composto

    Taxa de crescimento anual composto

     

    1991*

    1996*

    2201*

    1991-1996

    1996-2001

    Linhas telefônicas principais

    545

    741,1

    1000

    6,3%

    6,2%

    Celulares

    16,3

    135

    400

    52,76%

    24,3%

    Computadores pessoais

    123

    245

    450

    14,8%

    12,9%

    Hosts Internet

    0,7

    16,1

    110

    85,8%

    46,8%

    Usuários Internet Estimados

    4,5

    60

    300

    67,9%

    38%

    RELAÇÕES

             

    Usuários Internet para cada Host

    6,2

    3,7

    3

    -9,6%

    -4,2%

    CENTROS INTERNET POR

             

    100 linhas telefônicas

    0,1

    2,2

    11

    74,7%

    38,2%

    USUÁRIOS INTERNET POR

             

    100 linhas telefônicas

    0,8

    8,1

    30

    57,9%

    29,9%

    Centros Internet para cada 100 PCs

    0,6

    6,6

    24,4

    61,8%

    30%

    Usuários Internet para cada 100 PCs

    3,7

    24,5

    66,7

    46,3%

    22,2%

    em milhões
    Fonte: UIT-1997

    Esse crescimento, mesmo que não se reflita nas instalações residenciais, especialmente em países pobres como o Brasil, certamente será significativo e poderá causar grandes impactos nas corporações e até mesmo nas pequenas empresas e escolas.

    E, o interessante disso tudo, é que não existe mais a barreira do aprendizado prévio ou do domínio do instrumento, como acontecia com a televisão e o rádio.

    No caso daquelas tecnologias, se o professor (ou o conjunto de professores) quisesse não se afetar com a introdução das novas tecnologias, ele podia fazê-lo, haja vista que os seus colegas que desejassem ter acesso a essa tecnologia não iriam fazê-lo com facilidade. Normalmente esses colegas não estabeleceriam nenhum nível de competição interna e, em geral, tinham que sair da escola ou da repartição, indo para um centro de audiovisual ou uma televisão para poder trabalhar ou vivenciar a tecnologia.

    Com a informática se desenvolvendo em direção ao usuário, saindo dos centros de processamento de dados, essa situação se modificou completamente. Por isso, agora quando se abre a possibilidade de expandir a disseminação de meios de comunicação através de uma mesma rede virtual, a internet, reunindo várias formas de comunicação, informação e disseminação de conhecimentos em instrumentos e ferramentas fáceis de operar, os que se recusarem a aceitar as novas tecnologias estarão se fragilizando imediatamente, pois a concorrência do colega será imediata. Mesmo que não seja do colega professor, pode ser até mesmo do colega aluno, que lhe exigirá um comportamento e conhecimentos diferentes daquele que lhe moldaram a função de mestre.

    Contudo, o importante não está nisto. O mais interessante desse processo é a possibilidade concreta, real e inevitável de se trabalhar em grupo, criando e desenvolvendo cursos, debatendo, avaliando e revisando projetos em coletividade.

     

    Capítulo 6 . Tecnologias: da comunicação ao conhecimento

    A seleção dos meios de comunicação em um programa de educação a distância não é tarefa simples, ou pelo menos deveria ser uma escolha feita a partir de critérios que envolvessem especialmente aspectos pedagógicos e estratégicos à aprendizagem.

    Em geral, os meios de comunicação utilizados são escolhidos a partir de critérios de custos, disponibilidade interna, domínio de meios ou outros motivos menos complexos.

    Cada projeto educacional pode requerer o meio ou articulação de meios de comunicação mais apropriados para o desenvolvimento de seus objetivos. Mas, nem sempre é possível ter acesso aos meios mais apropriados. Isso não significa que não se deva conhecê-los todos, nem tampouco que não se deva considerá-los na análise de nosso projeto específico de educação a distância.

    Provavelmente o caminho mais adequado é a construção do projeto pedagógico incluindo, desde o início, os meios tecnológicos que forem definidos como os necessários à realização dos objetivos do programa. Depois, em função das limitações institucionais, econômicas, culturais, técnicas e políticas, é que se faz a adequação do projeto do ponto de vista tecnológico.

    Esse processo, de construção do projeto, incorporando as tecnologias informativas existentes e depois deputando-as em função da realidade específica é interessante, principalmente porque manterá sempre certa atenção aos meios de comunicação existentes e que estão em processo de evolução permanente. O movimento seguinte, o da adequação e depuração dos meios, tem outro mérito, o de fazer com que a discussão sobre os mecanismos internos, pedagógicos e de inteligência educacional, sejam repensados constantemente com a utilização de linguagens e meios tecnológicos diferentes, em geral mais simples, daqueles que apareceram no primeiro momento do projeto do curso. Isto é, um projeto que requereria teleconferência ou maior nível de interatividade, ao se feito somente por meio impresso pode orientar não somente a forma e a linguagem de apresentação, como determinar a quantidade de suporte e assistência e a maneira em que se comportará a tutoria.

    Novamente, o que se está propondo, com esse aparente vai-e-vem, não é uma tarefa burocrática, entendida como aquela que complica em vez de simplificar, é um exercício de inteligência, sensibilidade e de apuração do projeto. Isso pode proporcionar que se incorpore ao meio mais simples a lógica operativa que se imaginava ter também no meio mais sofisticado. Um bom exemplo é o texto impresso: se o projeto assinala como importante o estabelecimento de determinada forma de empatia e proximidade entre o professor e o aluno, e por isso (somando-se outros fatores) se opta pela utilização do vídeo ou da teleconferência, no primeiro momento, mas logo em seguida se observa restrições de ordem financeira e tecnológica e se descobre que o meio mais adequado é o texto impresso, aquela escolha anterior, por exemplo, de uma conversação guiada em estilo coloquial, pode ser reproduzida no texto com a introdução de um outro estilo de linguagem ou forma de tratamento das questões, incorporação de exercícios que provoquem maior estímulo à reunião de grupos e reflexões e diálogos que possam ser apresentadas por meio de troca de cartas, telefonemas ou encontros.

     

     

    Capítulo 7. Escolha de Meios na Educação a Distância

    Nas décadas de 70 e 80 um dos temas mais abordados na área de educação a distância foi justamente a escolha de recursos e meios de comunicação. Provavelmente isso passou a ocorrer em vista de crescentes facilidades de utilização de recursos comunicativos antes inexistentes, dispendiosos ou de difícil acesso. Mesmo com a existência, há muito, do rádio, não se impunha muita dificuldade aos educadores a escolha de meios antes dos anos sessenta. O meio de educação a distância por excelência, até essa época, era o material impresso, os demais eram sempre vistos como formas subsidiárias e, em alguns casos, complementares (apesar de existirem grandes experiências de cursos por rádio antes desse período).

    Mesmo que o texto impresso tenha continuado como o meio central de qualquer programa de educação a distância, a partir de então, por vários motivos, começou-se a pensar na possibilidade de articular vários meios de comunicação na direção de objetivos educacionais comuns.

    Essa idéia de articulação de meios, apesar de nascer nesse período, não foi implantada senão em alguns poucos casos, o texto impresso continuou como a base de grande parte dos programas de educação a distância, mas foi perdendo status para a televisão e os chamados recursos audiovisuais.

    Principalmente durante a década de 70, a televisão foi considerada como a forma redentora dos programas de massificação do ensino.

    Ao mesmo tempo em que a televisão ia ganhando espaço nas políticas públicas de educação, com a criação de universidades do ar, televisões educativas, satélites educativos etc., o texto impresso também se desenvolvia, com a introdução de novas tecnologias de impressão e a disseminação da informática também para a editoração. As cores, as formas e novas abordagens de instrução programadas davam ao texto impresso outra feição.

    O rádio passou a ser quase sinônimo de recurso educativo para países atrasados ou muito pobres. Em um mundo dividido em classes, dizer que uma coisa só serve para os mais pobres, para os marginalizados, é destrui-la de fato.

    Em verdade, o recurso radiofônico tem uma potência comparável a televisão, mas foi literalmente afastado das opções dos formuladores e projetistas de cursos, em seu lugar vieram os "kits" com fitas cassetes e os laboratórios audiovisuais (famosos nos cursos de línguas).

    O interessante é que a tecnologia mais sofisticada de todas essas, pelo menos assim é considerada hoje, a informática, está ajudando a reabilitar o rádio e, também, a televisão, que acabou por fracassar no final dos anos setenta e início de oitenta. Desejava-se que ela operasse milagres, ela não fez isso.

     

     

     

    7.1. Materiais Impressos e os Correios

    Com a invenção da escrita o mundo mudou radicalmente. Passou a ter uma memória diferente, capaz de voltar aos fatos e analisá-los independentemente do interesse do narrador de plantão.

    "A escrita permite uma situação prática de comunicação radicalmente nova. Pela primeira vez os discursos podem ser separados das circunstâncias particulares em que foram produzidos. Os hipertextos do autor e do leitor podem portanto ser tão diferentes quanto possíveis. A comunicação puramente escrita elimina a mediação humana no contexto que adaptava ou traduzia as mensagens vindas de um outro tempo ou lugar. Por exemplo, nas sociedades orais primárias, o contador adaptava sua narrativa às circunstâncias de sua enunciação, bem como aos interesses e conhecimentos de sua audiência. Da mesma forma, o mensageiro formula o pensamento daquele que o enviara de acordo com o humor e a disposição particulares de seu destinatário. A transmissão oral era sempre, simultaneamente, uma tradução, uma adaptação e uma traição"(Pierre Lévy) .

    O texto impresso pode ser construído de modo linear, com hierarquia de assuntos, indo de um tema a outro, sempre. Mas pode ser desenvolvido, também, como um texto multidimensional, mais flexível, já na perspectiva do hipertexto.

    Cursos técnicos ou de algumas áreas de ciências exatas tendem a ter materiais elaborados de forma hierárquica, primeiro o aluno deve conhecer determinado assunto, dominar certas habilidades, fazer alguns exercícios práticos e adquirir uma competência específica, depois o passo seguinte, assim por diante.

    Já cursos nas áreas de ciências humanas e os estágios superiores de cursos técnicos, onde os alunos se defrontam com um ambiente não tão exato assim e, principalmente, se incorporam a cursos que têm como um de seus objetivos ajudar o aluno a aprender a pensar, tomar decisões, analisar alternativas, esses cursos não podem ou não deveriam ser organizados de forma estruturada, hierárquica e por demais guiada.

    O texto impresso facilita a apresentação de cursos hierárquicos e lineares, haja vista a própria materialidade do texto apresentado como livro, caderno ou mesmo módulos seqüenciais.

    O texto em meio digital, na Internet, em CD-Rom, ou outra forma similar, já consegue ter maior facilidade de se transformar em hipertexto, aumentando a liberdade da caminhada do aluno, que pode ir e vir de várias formas possíveis, construindo alternativas de leituras diversas.

    Além do texto, linear ou não, coloquial ou técnico, o material impresso pode ser desenvolvido incorporando todo tipo de linguagem. Isso pode ser um instrumento importante para se aproximar de determinados símbolos e traços de cultura para melhor atingir os objetivos educacionais. Podemos imaginar cartilhas populares, fotonovelas, cordel, e várias outras formas e linguagens.

     

    7.2. Rádio e Telégrafo (sem fios e sem estradas)

    O rádio foi a primeira experiência de tornar instantânea, ou quase, a comunicação entre pessoas e comunidades distantes. Poderia ser simplesmente um meio de entrega de conteúdos de um curso, na forma de um diálogo, um debate, uma radionovela ou forma similar. Como também podia ser feito simulando a participação dos alunos, com entrevistas, perguntas ao vivo etc.

    Essa possibilidade da instantaneidade conferiu ao rádio uma condição superior aos demais meios. Junto com ele também se pensou que o telégrafo poderia ser uma alternativa para aproximar o aluno do professor, especialmente quando se tratasse de responder provas e mandar as correções. Cedo demais, queria se fazer com o telégrafo o que hoje se faz com o fax e com o correio eletrônico. Não foi possível atender aos desejos dos que viam nesse meio uma nova forma de comunicação imediata.

    O telégrafo não vingou. Passou a ser simples forma de comunicação de pequenas mensagens, lembretes etc. Mas o rádio se desenvolveu e ganhou o mundo da educação. Através do rádio se desenvolveu e organizou importantes programas de alfabetização, de ensino regular e técnico e de suporte a outros meios e recursos.

    Como não se conseguiu ou não houve mais interesse em fazer com que a forma e os conteúdos dos cursos levados através do rádio evoluíssem como as demais linguagens, alguns horários, no Brasil, destinados à educação (depois da Voz do Brasil, por exemplo) fossem se transformando em um estorvo.

    Mas, é possível pensar-se em cursos e programas educativos através do rádio que sejam atuais, modernos, dinâmicos e, até, sofisticados, tanto em áreas bem pobres, como em grandes cidades (lembre-se dos congestionamentos de São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades) ou para públicos que exercem atividades repetitivas e manuais.

    Se houver uma preocupação maior em utilizar os recursos disponíveis para transformar a educação em uma mania nacional, certamente o rádio será redescoberto como meio eficaz e dinâmico.

    O texto impresso é, provavelmente, antes da Internet e dos meios digitais, o único que se basta. Por meio dele se pode simular todas as situações de aprendizagem. Já o rádio e a televisão podem, na maioria das situações, requisitar o suporte de outros meios. Talvez isso tenha ajudado a destacar o enfoque multimeios, que hoje domina a visão da educação a distância.

    A combinação do rádio com o material impresso foi a forma mais adequada que se encontrou para o desenvolvimento de cursos radiofônicos a distância.

    Você pode imaginar, em sua região, várias situações efetivas de atendimento, através dessa combinação rádio/texto, a populações e grupos que não estão sendo atendidos pelos sistemas tradicionais de ensino. Faça uma pausa e pense um pouco nisso. Que tal uma radionovela para ajudar os operários a discutirem a saúde e segurança do trabalho ou um debate para auxiliar no entendimento de determinados procedimentos de higiene?

    7.3. Televisão, o primeiro passo da telepresença

    A partir de meados da década de sessenta, a televisão passou a figurar como o veículo e a linguagem mais atrativa para a educação de massas. Na China, no Japão, na Inglaterra, foi eleita como a forma educativa que iria revolucionar a educação popular.

    Iniciava-se uma onda que se espalharia por todos os continentes.

    Ainda estávamos no auge da tecnologia educacional, da instrução programada, das máquinas de ensinar, da vulgarização de formulações teóricas relacionadas ao comportamento humano e ao pensamento, transformando-as em instrumentos de massificação instrucional.

    Apesar de todas as limitações, que hoje se imagina que caracterizaram esse processo, houve, a partir de então, um vertiginoso crescimento do universo temático da educação nos meios de comunicação e, com a criação das televisões educativas, programas de grande impacto social foram levados a cabo em vários países.

    A própria Open University (Britânica) foi concebida nesse processo, chamava-se, inicialmente (ainda no projeto) Universidade do Ar.

    Ao longo dos anos, foi perdendo força a idéia inicial, haja vista que se percebeu que a dominância do enfoque centrado na televisão não estava surtindo o efeito esperado.

    Pesquisas e investigações científicas começaram a impulsionar outros encaminhamentos, hoje predomina o enfoque multimeios, que preconiza a articulação de meios, a partir da mescla de potencialidades e características próprias de cada meio.

    7.4. Tecnologias da Educação (a febre dos laboratórios): a ênfase no ensino

    Ao mesmo tempo em que se reduzia o espaço da televisão, começava outra onda, ainda não centrada na educação a distância, mas a ela se fazia sempre referência: a introdução da informática na escola.

    Os primeiros movimentos nesse sentido foram dados nos primórdios da década de oitenta (no Brasil um pouco depois). Imaginava-se que os microcomputadores seriam as verdadeiras máquinas de ensinar e todos deveriam conhecer informática, pois isso seria o futuro.

    No Brasil se espalharam laboratórios de informática, para ensinar computação para os jovens. Uma febre que durou pouco, mas consumiu muitos recursos.

    Durou tão pouco que não atingiu a educação a distância. Estávamos, ainda, no nascimento da microinformática (pelo menos no que se refere a acesso de massa aos equipamentos).

    Contudo, os primeiros passos da informática e da telemática, no final da década de setenta e início dos anos oitenta, foi influenciar a educação a distância pelo lado da organização de sistemas universitários de larga escala e na implantação de modelos de sistemas para o planejamento de cursos.

     

    7.5. Informática e Telemática, o início da convergência de meios

    Mantyla e Gividen afirmam que são comuns dois erros nos estágios de planejamento de programas de educação a distância: primeiro, tentar escolher somente uma única tecnologia para todas as situações e necessidades de cursos; segundo, selecionar tecnologias antes de identificar as necessidades e requerimentos educacionais.

    Esse ponto de vista, dominante hoje em dia, leva o nome de enfoque multimeios e passou a ser factível a partir do final dos anos oitenta, com a aceleração do desenvolvimento de ferramentas computacionais de baixo custo e alto desempenho, aliado ao desenvolvimento de soluções tecnológicas que possibilitaram uma imediata integração entre telecomunicações e informática, formando o que hoje conhecemos como telemática.

    Esse desenvolvimento da informática deu novo alento a uma série de outros meios. Ficou mais fácil produzir materiais impressos de qualidade e com custos decrescentes (maio número de organizações podiam pensar em produzir bons materiais), assim como ficou mais acessível a produção e edição de vídeos.

    Porém, a mudança de paradigma começa a se processar quando se observa que esse novo estágio de desenvolvimento da informática poderia transformar efetivamente o planeta em uma comunidade de comunicação (e porque não de educação).

    A organização da Internet foi a grande novidade. Em poucos anos milhões de computadores se interligaram, trocando mensagens (bilhões por dia), organizando cursos, produzindo, de forma colaborativa, programas, cursos e materiais …

    A nova onda da telemática não indica ser um modismo passageiro, ao contrário, está apontando no sentido de um tipo de evolução que potencializará suas tendências atuais: integração dos vários meios de comunicação, possibilidade de um processo de construção do saber totalmente não hierarquizado, acesso universal a bibliotecas e grandes bancos de dados, possibilidade democrática de publicação.

    Um dos problemas que geralmente se observa na introdução de novas tecnologia em educação é que se procura adaptar a nova tecnologia à velhas práticas (e velhas tecnologias), exigindo que isso dê certo em qualquer condição.

    No caso da utilização da Internet para a educação (articulada com materiais impressos, programas radiofônicos e outros meios), vê-se um grande esforço da maioria dos projetos de cursos e dos softwares em produção para se transpor para a rede mundial a tradicional sala de aula, sua disposição, sua cultura, sua hierarquia, seu ritmo ...

    O desafio que ainda não foi devidamente colocado para os desenvolvedores de soluções tecnológicas é a superação da sala de aula (em sua forma atual) e a criação de novas alternativas de organização de comunidades de aprendizagem ou comunidades de auto-fomento intelectual.

    Hoje a tendência de expansão das redes telemáticas se confirma no desenvolvimento de novas formas de trabalho, novos meios de organização da produção no setor serviços e, no nosso caso, de novas formas de educação (veja o quadro abaixo).

    7.6. Possibilidade de Uso de Redes Telemáticas e Informática Colaborativa

    Função

    Uso em sala de aula

    Organização de salas de aula

    Estratégia de ensino

    Fontes de informação

    Fluxo de informação

    Tele-acesso

    Acesso e recuperação de informações de fontes remotas

    Sala de aula única

    Convencional com a facilitação para o uso de recursos on line

    Professor, recursos on line e livros-textos

    Unidirecional para o aluno

    Publicação virtual

    Acesso on line ao material publicado

    Sala de aula única

    Parte convencional e parte servindo como editor dentro da sala de aula

    Professor e textos baseados em recursos on line

    A partir da sala de aula

    Tele-presença

    Acesso à eventos "ao vivo"

    Sala de aula única

    Convencional junto com a orientação e monitoração de alunos

    Recursos on line suplementado por livros-textos e pelo professor

    Da fonte para a sala de aula, com elementos de interatividade

    Tele-consulta

    Consulta on line a especialistas

    Sala de aula única

    Convencional junto com a facilitação da interatividade entre alunos e especialistas

    Professor e livros-textos acrescidos por especialistas on line

    Interatividade bidirecional entre alunos e especialistas

    Tele-participação

    Participação em salas de aula distintas

    Grupos de salas de aula trabalhando com tarefas participativas

    Facilitação para o trabalho cooperativo a distância

    Membros da comunidade e recursos on line com suporte do professor e suplementado por livros-textos

    Informação flui da sala de aula e também para ela

    Tele-colaboração

    Colaboração entre salas de aula

    Salas de aula unidas para a prática conjunta de atividades

    Construção colaborativa do conhecimento

    Membros da comunidade e recursos on line com suporte do professor e suplementado por livros-textos

    Informação flui da sala de aula e também para ela

     

     

    Capítulo 8. O Apoio ao Estudante é a Parte mais Importante do Sucesso

    Apresentando os fatores de sucesso de algumas universidades a distância, John Daniel afirma que a Universidade Aberta da Inglaterra e a Sukhothai Thammathirat Open University, da Tailândia, conquistaram uma boa reputação dentro dos sistemas universitários aos quais pertencem pelo trabalho de qualidade que têm apresentado. Ele enumera como elementos comuns de qualidade e sucesso dessas universidades: bons materiais de curso; redes de apoio e de tutoria nas regiões; rica mistura de meios de comunicação; significativas taxas de graduação de seus estudantes (formandos); número apropriado de professores, pesquisadores e técnicos; vibrante atividade de pesquisa e o estabelecimento de um bom senso de comunidade acadêmica.

    Vários desses aspectos já fora, vistos nos tópicos anteriores, agora é importante passar em revista ao tema da tutoria, um dos mais importantes aspectos de programas de educação a dist6ancia, como também de educação permanente.

    Na maioria das situações educativas, especialmente nos cursos formais e regulares, o estabelecimento de algum sistema de apoio, acompanhamento e avaliação da aprendizagem é recomendável.

    E, nessas situações, uma das mais fortes tendências daqueles que têm pouca experiência com a educação a distância é ver esse segmento de suporte e tutoria como uma função do professor que domina o tema ou os conteúdos, pois assim poderá ensinar o aluno, quando este apresentar alguma dificuldade.

    Além de representar uma visão um pouco ultrapassada da figura do professor, esse tipo de abordagem pode provocar algumas dificuldades ao processo de desenvolvimento dos cursos a distância. Problemas de toda ordem, tanto metodológicos e pedagógicos, quanto organizacionais e de custo. Contudo, há várias situações ainda em que esse tipo de abordagem, que vê o aluno como um sujeito capaz de participar do processo de elaboração e desenvolvimento de seu próprio processo de aprendizado, não é aplicada. Nesses casos, o sistema de tutoria replica as funções tradicionais do professor em sala de aula.

    Porém, temos observado que tanto nas escolas tradicionais, quanto nas organizações de educação a distância, o papel do professor tem se alterado um pouco e, muito provavelmente, nas próximas décadas, vai mudar ainda mais.

    Vamos trilhar um caminho um pouco diferente para analisar o papel da tutoria em uma entidade de educação a distância, vejamos primeiro o professor, depois o sistema ou rede de tutoria e acompanhamento.

    8.1. O papel do professor

    Com a educação a distância ou mesmo na educação tradicional, há muito o mestre todo-poderoso deixou de existir. Não é obra da educação a distância essa mudança do papel e do status do professor na sociedade. É fruto de um processo histórico, que se traduziu na massificação do ensino, com o conseqüente aumento das oportunidades de acesso; com a maior diversificação da sociedade e a ampliação da complexidade das relações sociais. Mas, mesmo sabendo que se trata de um processo social, que está presente em todos os países, existe ainda quem acredite poder voltar a roda da história e os professores retomarem o seu papel na sociedade.

    Hoje temos um mundo diferente. Se ainda não conseguiu resolver os problemas da fome e da miséria, tornou-se um mundo bem pequeno. A informação navega à velocidade da luz e está presente em todos os lares. Qualquer que seja ela. Informação na forma de cenas de uma guerra eletrônica, na forma de cenas de banalização do sexo, como também no corpo de programas educacionais, científicos e de massificação do conhecimento.

    Especialmente para as crianças, que dominam com muita facilidade as linguagens da comunicação eletrônica, principalmente dos grandes centros urbanos, a informação não tem segredo. Falta-lhes, contudo, organizar esse mar de informação, de conteúdo variado e de valoração inexata ou contraditória. Isto é, falta-lhes o sentido das coisas, que nem sempre a informação traz de per si.

    A escola que tem por missão informar, não vai mais existir, essa já acabou, foi ultrapassada por um milhão de outras alternativas vivenciais e institucionais. Para alguns meninos e meninas, a rua substitui essa escola. Escola que, em alguns casos, os expulsou, em outros, não os recebeu. A escola que tinha somente por missão "educar as massas", já foi ultrapassada.

    A escola que tem por missão formar, continua e continuará importante e necessária. Não a escola em si, o prédio e a sua organização burocrática, mas a organização social que lhe sustenta e o cimento dela, o professor... Essa organização, o prédio, o quadro-negro, o giz, as carteiras, a burocracia, os horários, foi uma das grandes invenções da humanidade no final da Idade Média (que se aperfeiçoou um pouco ao longo desses últimos séculos), ainda é muito presente em nossa vida cotidiana e continuará assim por muitos anos. Mas como inovação, provavelmente será superada por outra inovação, produto da mente criativa dos homens.

    O historiador Caio Prado Júnior dizia que se aprende vivendo o que se está assimilando (exemplo que dá em Dialética do Conhecimento, Tomo I, para o aprendizado da linguagem pela criança). Outros podem dizer, com a mesma base doutrinária próxima, que se aprende construindo vivencialmente o conhecimento.

    Nesse processo, o professor adquire nova e maior importância. Não é o dono da verdade, nem sabe de tudo e de todos, mas raciocina e pode chegar à verdade, pela pesquisa, pela razão e pelo sentimento/intuição. Esse processo de descoberta, de pensar e de reflexão é que transforma a essência da escola moderna, que convive com o mundo em permanente ebulição e num momento em que a história se acelera. De uma escola que se une à sociedade e à transformação ou morre anacrônica e desnecessária. Não por isso uma escola revolucionária, nem evolucionária, só uma escola contemporânea, que reproduz, como as demais, os valores e os sentidos dominantes, mas que se inquieta na contradição entre o novo e o velho, entre o estabelecido e o justo, entre a opressão e a liberdade.

    Nos últimos anos, mais que qualquer teoria pedagógica, talvez o que mais mexeu com os processos educacionais foram as novas tecnologias da informação e da comunicação. Não como parafernálias de equipamentos e fios ópticos. Mas porque essas tecnologias, materializadas em equipamentos e processos, representa um momento do desenvolvimento societário de profundas contradições e explosivas perspectivas. Não acompanhar isso faz a escola anacrônica, faz a sociedade vê-la perdendo eficiência, traduz a crise mundial do ensino.

    As mudanças nas formas de trabalho humano, nas formas de relacionamento dos homens com a escassez, nas maneiras em que os grupos sociais se localizam no espaço político regional e mundial ... se traduzem em novidades que o processo educacional não capta, dada a velocidade em que isso se dá e com que as pessoas se vêem informadas sobre a instabilidade do ser.

    A era digital, carregada de valores sociais e políticos, também é a era da possibilidade de se superar a fragilidade da instituição escolar através da revitalização do professor, como ser social e como membro de uma equipe que tem uma missão especial, que complementa a mãe, a família e a vizinhança na formação da criança, do jovem e na construção do mundo adulto pensante, livre, ético e criativo.

    O potencial que as tecnologias informativas e comunicativas podem abrir ao processo educativo depende muito do professor, que as usará ou as transformará na escola e na vivência da aprendizagem. Elas podem ser bem utilizadas, e o potencial é fenomenal. Podem ser mal utilizadas, e o resultado será medíocre.

    Não conheço nenhum experimento ou ação que veja nas tecnologias comunicativas a capacidade de operar valores, dar sentido às coisas e à vida, organizar processos de formação e orientar o ser humano em construção. Nem é esse o desafio dos cientistas e pesquisadores.

    Quem opera tem a palavra final: para expandir os limites dessa tecnologia ou prender-se na paranóia da dominação do homem pela máquina ou mesmo na mediocridade da incompetência em lidar com o novo.

    Essa pessoa é o professor. Talvez não mais o professor solitário, cujo ideal do magistério e a luta cotidiana pela sobrevivência relatou Orígenes Lessa em O Feijão e o Sonho (1939), por intermédio de Campos Lara (ou Juca) e de seu conflito permanente com Maria Rosa. Hoje esse professor está representado muito mais no coletivo de educadores que no indivíduo, ou melhor ainda, no indivíduo que trabalha cooperadamente, interagindo com outros profissionais, tanto quanto com o aluno.

    Trabalhar em cooperação, fazer parte de um grupo ou de uma equipe, discutir com outros os meios, os sentidos, os objetivos de um curso, não diminui o papel do professor, não reduz o professor a algo inferior. Certo, ele não será mais o todo-poderoso; quer queira ou não, solitário ou em equipe, já não o é mais na prática.

    A cooperação entre saberes, artes e técnicas, por um lado, e a tecnologia da informação, por outro, representa o novo potencial da educação neste fim de século.

    No primeiro momento, o que as principais ferramentas computacionais e de redes telemáticas trazem à educação é a nova capacidade de se ter acesso a um conjunto muito grande de bases de dados (bibliotecas, museus, universidades, ONGs, empresas, arquivos pessoais etc.). Isso, em um certo sentido já é uma revolução, na medida em que abre efetivamente a milhares de crianças e jovens a real perspectiva de entrar em contato com fontes de informação que jamais estariam abertas a eles, principalmente em uma país onde quase não existe bibliotecas e as que estão instaladas, salvo poucas exceções, são pobres e pequenas.

    Certamente o telefone, o computador e a conexão com a Internet chegará em todos os municípios brasileiros, mesmo os mais longínquos, antes das bibliotecas.

    Abrir esse mundo à criança, ajudá-la a correr o mundo de uma maneira mais animada, motivada, criativa e crítica, transformando essa viagem em educação e construção do cidadão, é a grande tarefa (desafio) do professor dessas localidades. Estará ele preparado? Esse é outro problema. Certamente não, ainda. Da mesma forma que ainda a escola não se preparou para ler criticamente a televisão, quer porque a repudiou, quer porque a mitificou como instrumento pedagógico de primeira linha. Ambos os comportamentos fizeram com que o professor não se diferenciasse do telespectador mediano, sendo assim incapaz de formar outros telespectadores (críticos e independentes). Talvez essa deficiência somente venha a ser superada agora, com a introdução da informática.

    Mas não é só isso. As novas tecnologias da informação trazem a possibilidade de outras abordagens tanto para a educação formal (desde a infantil até a universidade) quanto para a educação continuada e para a não-formal.

    A primeira conseqüência é a introdução de formas de educação não estruturadas, não hierarquizadas, lineares, cartesianas. Formas que podem incorporar a disciplina do pensamento crítico, mas não através dos métodos burocráticos e sim da pesquisa, da vivência na dúvida questionadora, no conhecimento em construção.

    Isso se dá principalmente porque o aluno passa a ter mais poder, para usar o livre-arbítrio, para questionar. Situação que pode ser bastante vantajosa se o professor também souber usar as ferramentas de comunicação, pesquisa, armazenamento e manipulação de dados, para que a orientação ao aluno se efetive. Caso contrário, pode-se voltar ao sistema onde se confundia pesquisa com cópia de verbetes de enciclopédias.

    A não hierarquização do estudo pode se unir à virtualidade de simulações, trazendo ao ambiente escolar público (a custos compatíveis com as dificuldades do país) realidades e situações que somente são encontradas em escolas de elite, como laboratórios de análises químicas, laboratórios de física, observatórios astronômicos, laboratórios de línguas etc. Além de poder-se criar uma comunidade escolar sem fronteiras geográficas, com leitores coletivos.

    A animação e o estímulo ao estudo tem se verificado em variadas situações. Grande parte dos relatos norte-americanos de experiências sobre a introdução de computadores em escolas e como instrumento de facilitação da aprendizagem apresentam essa como uma das mais importantes características de suas vivências positivas.

    No cérebro humano a informação, em geral, é selecionada, armazenada, recuperada e esquecida. Cada passo tem suas características próprias e o estímulo antes visto como elemento de sucesso nas experiências de introdução da informática tem sua explicação.

    O processo de reconhecimento de uma informação se dá em primeiro lugar pela atenção que se tem sobre um determinado fato que vai ser guardado. Essa seleção da informação se processa a partir de duas origens distintas: a) por vontade de quem vai guardar a informação e b) por estímulo externo. Quando a vontade e a atenção do receptor estão estimuladas ou aguçadas e o estímulo externo é suficientemente diversificado e medianamente impactante sobre os sentidos humanos (audição, tato, olfato, visão) e sobre as experiências anteriores (razão e emoção), pode-se configurar um momento de maior probabilidade de fixação na memória e de maior facilidade de recuperação da informação, haja vista que se foi diversificada o impacto sobre os sentidos haverá grande variedade de enlaces que se poderá usar para apressar o processo de recuperação e manipulação da informação ou de esquecimento proposital e sistemático de informações não necessárias ou indesejáveis.

    A maneira como isso ocorre no cérebro humano é algo fascinante e muito mais complexa que a descrita anteriormente, mas o caminho é esse mesmo e esse resumo rápido nos serve para os objetivos desse texto: as novas tecnologias da informação, se bem utilizadas por professores bem capacitados, podem abrir um novo mundo de oportunidades educativas, desde o momento da animação ao estudo, passando pela ampliação do raio de atuação dos alunos e por maior facilidade dos professores na obtenção de materiais de aula e também em comunicação com cada aluno, completando o processo de aprendizagem com uma nova relação professor-aluno, onde a orientação pode ser mais individualizada e atendendo aos anseios e características de cada um dos alunos.

    Essa individualização em processos massivos também é uma característica do uso dessas ferramentas e tecnologias no campo da educação a distância. Pode-se, com a informática e a telemática, dar tratamento individualizado ao aluno, ao mesmo tempo em que se ganha em oportunidade de expansão da educação e agregação de alunos.

    A educação a distância, neste caso, deve ser vista especialmente voltada para jovens e adultos, em cursos de aperfeiçoamento, educação continuada e profissionalização, educação não formal e cidadã ... Mas também para a educação formal seriada, quando inexistirem condições objetivas para a implantação de escolas presenciais ou houver muita dificuldade no deslocamento do aluno.

    Para a educação a distância, mesmo que a tecnologia não esteja impregnada na essência do conceito dessa modalidade educativa, o avanço das tecnologias comunicativas e da informação dá e esse modo de educar um perfil e um alcance que não se imaginava décadas atrás.

    Essas novas tecnologias, ao mesmo tempo, impelem os educadores a pensarem outras linguagens e diferentes formas de educar, de orientar e animar o processo de construção do conhecimento.

    E, novamente, se reforça a presença do professor, como parte de uma equipe ou de equipes que compartilham a elaboração de cursos, sua difusão e manutenção, o acompanhamento dos alunos e a avaliação dos processos.

    O que a educação a distância procura, e os novos progressos tecnológicos estão cada vez mais atendendo, é a eliminação de distâncias. Aproximar verdadeiramente o aluno do professor e dos outros alunos. Na educação presencial tradicional, a expansão da oferta tem produzido, na maioria das vezes, o aumento do número de alunos por cada sala de aula, ampliando, mesmo nesse caso (educação presencial) a distância entre o professor e cada um de seus alunos. Fisicamente esse professor irá dar atenção a um grupo limitado de alunos, os demais jamais terão sua atenção.

    Por isso, mais e mais escolas presenciais estão adotando métodos e procedimentos que têm sido bem testados na educação a distância, promovendo a convergência entre essas modalidades educativas.

    No Brasil essas situações ainda são raras. Mas, muito provavelmente isso estará mudando nos próximos anos, quer porque está sendo ampliado de forma vertiginosa o parque instalado de computadores e redes, como se diminui rápida e sistematicamente a resistência à educação a distância e ao uso de novas tecnologias na educação.

    Mas, utilizar técnicas multimídias e instrumentos tecnológicos em educação não significa transplantar para esses meios e ferramentas a prática da educação presencial. Começando, pelo professor, que se vê obrigado a compartilhar conhecimentos e esforços no sentido de construir, junto com outros profissionais, seu curso ou aula e todos os produtos que o acompanham.

    Aprender a compartilhar, a cooperar e a respeitar outros profissionais, outros conhecimentos e outras experiências, é o primeiro grande desafio do professor.

    Nos próximos anos a crescente interatividade proporcionada pela tecnologia da informação, a facilidade no uso das ferramentas computacionais e a vertiginosa redução dos custos de implantação de redes, fará com que se dissemine em uma velocidade estrondosa a infra-estrutura necessária para a ligação de escolas, empresas, casas e indivíduos a um mundo diferente de comunicação educativa, que dará sentido mais dinâmico ao que um dia se chamou de educação permanente.

    Essa situação se torna mais presente quando se alia a interatividade com a interconectividade, isto é, a possibilidade, crescente, de uso de vários meios de comunicação e tipos de equipamentos, sem medo de que não venham a falar entre si: televisão, rádio, livro, revista, jornal, computador, quadro-negro, telefone, poderão em breve receber o mesmo fluxo de informação, gerar outros, transformando aquilo que alguns chamam hoje de mundo virtual em parte de nosso cotidiano, tão real quanto o ato de respirar.

    Desconhecer essa situação potencial e prender-se ao passado é uma reação pouco construtiva, que certamente promoverá, se essa reação se generalizar, conseqüências muito desastrosas para o desenvolvimento da educação no país.

    Mas, quais os principais papéis que podem ser exercidos preferencialmente por professores nas equipes de especialistas em educação a distância?

    O professor, ou melhor, os professores estão presentes desde a concepção do projeto, onde são fundamentais para a escolha dos conteúdos, da forma em que os assuntos são encadeados, como tratar o público, como escolher os meios mais adequados para tratar o temário escolhido com o público determinado. Estão presentes no acompanhamento dos especialistas temáticos, analisando e escolhendo a melhor forma de apresentar os conteúdos. Na aplicação desses conteúdos aos meios tecnológicos de comunicação, os professores também têm presença marcante, acompanhando e testando, quando for o caso. Na definição dos meios de aplicação do curso, na determinação do modo de acompanhamento do aluno (tutoria, orientação, centro de ajuda, aulas presenciais, laboratórios etc.), no exercício da tutoria e na definição e aplicação do processo de avaliação.

    Como podemos ver, o desenvolvimento da educação, com a ampliação da clientela e diversificação de campos de atuação e, também, através da incorporação de novas tecnologias da informação, antes de substituir o professor, o valoriza, dá-lhe novas funções pedagógicas, realça sua essência. Porém, o mais importante, é que ele deixa de ser um ente solitário, responsável por inúmeras atividades administrativas e pedagógicas, de pesquisa e extensão, animação e elaboração de projetos. O professor passa a ser parte de um sistema cooperado de funções e aspirações.

    Parte desse sistema está representado nas funções tradicionais do professor: elaborar as aulas, ministrar aulas, acompanhar o aluno, avaliar seu aprendizado e credenciar o seu conhecimento.

    8.2. Tutoria e acompanhamento do estudante

    Na Universidade Nacional Aberta, da Venezuela, Maria de Jesús Bermúdez explica que o papel do tutor é fundamental ao processo de desenvolvimento do sistema universitário, ele, o tutor, cumpre funções que tanto ajudam o estudante em seu processo de auto-aprendizagem, "de modo a que possam fazer uso apropriado dos meios disponíveis e das estratégias instrucionais no contexto de sua situação particular de aprendizagem", como servem para alimentar o sistema de avaliação da instituição.

    A mesma autora nos brinda com o seguinte quadro comparativo entre 4 universidades que têm sua principal atividade na educação a distância, duas da Europa e duas da América Latina, mostrando a situação no final da década de 80, vejamos:

    a. Quanto aos objetivos da tutoria

    a.1. Universidade Aberta da Inglaterra

    • assegurar que o estudante entende as idéias e argumentos apresentados nas unidades e programas de curso

    • remediar as dificuldades acadêmicas dos alunos

    a.2. UNED da Espanha

    • ajudar o aluno na correta assimilação dos conhecimentos contidos no material didático e o domínio das técnicas próprias do campo científico correspondente

    a.3. UED da Costa Rica

    • dar aos estudante o assessoramento pedagógico que seu campo de estudos requer

    • colaborar no processo de avaliação do estudante

    a.4. Universidade Nacional Aberta, Venezuela

    • ajudar o estudante a fazer uso apropriado dos meios e estratégias instrucionais disponíveis no seu contexto particular de aprendizagem

    • retroalimentar o sistema de avaliação que controla o sistema de ensino-aprendizagem

    b. O papel do tutor

    b.1. Universidade Aberta da Inglaterra

    Tutor-Conselheiro

    • orientador, motivador

    • facilitador

    • avaliador da aprendizagem

    Tutor de Curso

    • facilitador

    • avaliador da aprendizagem

    b.2. UNED da Espanha

    Professor-Tutor

    • orientador, motivador

    • facilitador

    • avaliador

    b.3. UNED da Costa Rica

    • mediador

    • facilitador

    • avaliador

    b.4. Universidade Nacional Aberta, Venezuela

    • assessor acadêmico

    • mediador

    • facilitador

    • avaliador

    c. Funções típicas do tutor

    c.1. Universidade Aberta da Inglaterra

    Tutor-Conselheiro

    • ajudar o estudante a organizar padrões de estudo, familiarizar-se com os métodos de ensino e tomar decisões sobre os cursos a escolher

    • realizar tutorias

    Tutor de Curso

    • atender consultas dos estudante sobre o material didático

    • corrigir provas

    • organizar grupos e círculos de estudos

    • ministrar conferências em escolas de férias

    • servir de intermediário entre os estudantes e a escola

    c.2. UNED da Espanha

    • atender consultas dos estudante sobre o material didático

    • corrigir provas e exercícios

    • assessorar e orientar o estudante sobre problemas de seu estudo

    • organizar reuniões de estudo e de convivência

    c.3. UNED da Costa Rica

    • informar os estudantes sobre os programas e serviços da UNED

    • assessorar os estudantes sobre condutas e métodos de aprendizagem a distância

    • resolver dúvidas com respeito ao material didático

    • aplicar e corrigir provas

    • participar do processo de elaboração da avaliação e de materiais complementares

    c.4. Universidade Nacional Aberta, Venezuela

    • aclarar dúvidas dos estudantes sobre o material didático

    • assessorar os estudantes na seleção e uso de recursos de aprendizagem

    • participar da avaliação do estudante, mediante exames, ensaios práticos e exercícios.

    • participar da avaliação dos materiais didáticos

    d. Estratégias e meios de tutoria

    d.1. Universidade Aberta da Inglaterra

    • Tutoria regionalizada (centros de estudos)

    • Número pequeno de cursos para cada tutor

    • Tutor-conselheiro atende estudante de primeiro ano e Tutor de Curso atende alunos de cursos avançados

    • Número de sessões de tutoria são variáveis de curso para curso

    • Modalidades de Tutorial

      1. contígua: cara-a-cara

      2. a distância: por correspondência, por telefone, gravação, computador

    • Meios de tutoria:

      1. entrevista em grupo, presencial

      2. entrevista em grupo, por telefone

      3. entrevista individual, por telefone

      4. atividades por escrito

      5. fitas de áudio

      6. computador

    d.2. UNED da Espanha

    • Tutoria regionalizada (centros associados)

    • Número limitado de cursos por tutor

    • Número variável de estudantes por tutor

    • Número de sessões de tutoria fixas por curso

    • Modalidades de tutoria:

      1. presencial

      2. a distância: por telefone, correspondência (hoje provavelmente se usa a internet)

    • Meios de tutoria:

      1. entrevista em grupo, presencial

      2. entrevista individual, por telefone

      3. Cadernos de Avaliação a Distância

      4. Correspondência

    d.3. UNED da Costa Rica

    • Tutoria Regionalizada (centros acadêmicos e centros de estudos)

    • Número limitado de cursos por tutor

    • Número variável de estudantes por tutor

    • Número de sessões de tutoria fixas por curso

    • Modalidade de tutoria:

      1. presencial

      2. a distância: por telefone

        • Meio de tutoria:

        1. entrevista em grupo, presencial

        2. entrevista em grupo, por telefone

        3. entrevista individual, por telefone

          d.4. Universidade Aberta da Venezuela

          • Tutoria regionalizada (centros locais)

          • Número variável de cursos por tutor (segundo o nível de estudos)

          • Número variável de estudantes por tutor

          • Número de sessões de tutoria variável

          • Modalidades de tutoria:

          1. presencial

          2. a distância: por telefone

            • Meio de tutoria:

            1. entrevista individual, presencial

            2. entrevista em grupo, presencial

            3. entrevista individual, por telefone

          Algumas coisas mudaram nos últimos anos, mas essas mudanças, no geral, dizem respeito à introdução e uso de tecnologias comunicativas e um pouco de inteligência no trato das informações e gerenciamento da vida dos alunos. A maioria das universidades ainda não usam adequadamente seu parque computacional, mas a tendência é que o façam mais e mais. A Open University da Inglaterra foi a primeira universidade a começar a usar a inteligência computacional em sistemas de apoio a estudantes e gerenciamento de informações (dos estudantes, de pesquisas de opinião, dos professores e equipes, dos materiais etc.), em 1992 foi iniciado o programa de reordenamento do parque computacional da Universidade, saindo de uma lógica baseada em computadores de grande porte, centralizados, para a lógica da rede distribuída (que também usa computadores de grande porte).

          Algumas situações não aparecem em quadros descritivos publicados para públicos mais abrangentes. Por exemplo, na Universidade Nacional Aberta da Venezuela (e também na Espanha), nesse mesmo período, uma das tarefas mais importantes da tutoria (como também de outros profissionais que recepcionam aos alunos em suas dúvidas) era a animação e a motivação.

          Relatos de tutores nos centros locais na Venezuela nos deram conta de que boa parte de seu tempo era dedicado ao estímulo e à motivação dos alunos, sempre que estes faltavam a alguma sessão de tutoria e apresentavam alguma dificuldade de ordem pessoal. A tutoria também tem essa função e ela não pode ser vista com algo menor, sem importância, ao contrário, a motivação e a introdução de calor humano nas relações entre os alunos e o sistema de ensino ajudam muito na eficácia do processo educativo.

          Na medida em que se investe na melhoria da qualidade dos materiais, incorporando-lhes o conhecimento e a experiência das gerações anteriores de cursos (quando não é somente a reedição de cursos, mas sua reelaboração), e também se promove melhor utilização dos meios de comunicação, as funções dos tutores relacionadas ao ensino de conteúdos vai diminuindo.

          Os próprios tutores vão, ao longo do tempo, sendo melhor formados para suas várias funções. Os ex-alunos de cursos a distância podem desempenhar muito bem essa função. Na Rússia, lembra John Daniel, todos os tutores têm que primeiro fazer o curso como alunos, para somente depois poderem ser candidatos à função de tutor.

          A tutoria por telefone é uma das mais usadas. Mesmo que o correio eletrônico venha a reduzir substancialmente esse procedimento, muitos sistemas de ensino irão continuar, por muito tempo, utilizando a telefonia convencional por causa de seu impacto positivo no estabelecimento de canais motivacionais.

          ******

           

          Capítulo 9. Diferenças e Semelhanças entre a Educação Aberta e a Educação a Distância

          Vimos que várias escolas e universidades que oferecem cursos a distância se chamam escolas abertas ou universidades abertas, por isso muitos se perguntam se educação a distância e educação aberta significam a mesma coisa.

          Na verdade há uma forte tendência à articulação dos dois conceitos, mas eles são diferentes.

          A educação aberta tem por referência direta o tipo de oferta e a forma com que os cursos ou processos educativos são desenvolvidos. Em uma escola aberta não há qualquer exigência de escolaridade anterior para que o cidadão venha a fazer um de seus cursos. A idéia é essa mesma, ela não restringe a inscrição à formalidades de escolaridade. Ao mesmo tempo, a idéia é que o aluno possa ir construindo seu currículo e ir vencendo os cursos no seu próprio ritmo.

          Considerando as características próprias do público adulto, Terezinha Diniz acredita que "sua aprendizagem deve ser concebida e organizada preferencialmente como uma aprendizagem aberta e flexível em todos os sentidos" , isso porque observa que a experiência de vida do adulto pode dar condição para o estabelecimento da base do processo de aprendizagem aberto, tal qual definido anteriormente.

          A educação a distância, como já vimos a partir de suas características, de sua história e das formas de sua aplicação guarda semelhança com a educação aberta na medida em que é uma estratégia pedagógica que também procura vencer as barreiras que impedem o cidadão de se transformar em estudante, quer seja ela a distância física, quer sejam os impedimentos de horários ou outros já referenciados.

          Contudo, como estratégia pedagógica que articula meios tecnológicos, procedimentos didáticos próprios, metodologias de aprendizagem centradas no aluno e sistemas administrativos focados na redução de custos e na organização do trabalho coletivo, a educação a distância pode ser tanto um instrumento para o desenvolvimento da educação aberta, quanto uma ferramenta para a difusão do ensino formal.

          A idéia de dar ao aluno o controle do processo de aprendizagem é algo muito sedutor, especialmente quando se observa que, a partir de determinadas condições de experiência e vontade, o estudante adulto pode realizar as ações necessárias e tem a maturidade requerida para construir o seu próprio currículo e para definir seu próprio tempo e ritmo de estudo.

          Transformar essa idéia em algo concreto, na maioria das vezes é um desafio que não se consegue vencer, já que pressupõe a existência de estruturas educacionais com grande capacidade de flexibilizar espaços físicos, infra-estruturas laboratoriais ou pedagógicas e também profissionais da educação.

          Experiências de educação a distância com forte carga de tutoria, especialmente no caso do ensino supletivo, tentaram chegar a esse conceito, notadamente no que diz respeito à construção do ritmo e do tempo. Mas, como se trata de um processo de ensino formal, o aluno não tem autonomia sobre o currículo, assim o ensino supletivo, mesmo o mais flexível, não se enquadra perfeitamente na noção de educação aberta.

          A educação aberta pode ser tanto presencial quanto a distância. Na Inglaterra, especialmente nos anos 50 e 60, várias experiências de cursos de extensão (extra-muros, como chamavam), que tinham como centralidade o aluno, eram muito próximos desse conceito, já que o aluno e o professor pactuavam um curso e o seguiam conforme o tempo e as características do aluno. Mas essa experiência não pôde ser massificada, já que dependia de um alto grau de contato entre o professor e o aluno, tal qual o mestre e o pupilo do passado.

          Hoje, com o avanço vertiginoso da tecnologia de comunicação, aliado ao crescente poder de manipulação de dados (volume e velocidade) que a informática propicia, é possível pensar-se em programas educacionais a distância que possam ter como concepção metodológica a idéia da educação aberta. Isso provavelmente nos será apresentado por várias instituições nos próximos anos.

          Em geral, a educação a distância tem se guiado não pelos padrões da educação aberta, mas da educação formal, onde os pré-requisitos curriculares e de escolaridade estão presentes.

          Essa situação se dá não somente porque o propósito central dos programas de educação a distância tem sido o de oferecer escolaridade àqueles que, por um motivo ou outro, não tiveram acesso ao ensino regular ou para aqueles que estão precisando continuar seus estudos e não podem fazê-lo na forma presencial (trabalho, distâncias, etc.), mas também porque as instituições e os profissionais de educação a distância têm precisado mostrar que seus projetos têm mérito e qualidade, assim, nada mais adequado que mostrar isso no campo tradicional do ensino.

          Você sabe muito bem que a inovação, em si, já algo difícil de ser gerida, imagine quando a gente tem que apresentar um método inovador e a gente resolve revolucionar também no conteúdo e na forma, aí o problema fica muito maior. Foi isso que ocorreu com a educação a distância até muito recentemente.

          Várias universidades, especialmente aquelas de países em desenvolvimento, viram a possibilidade de, ao se criar os cursos a distância, fazê-lo introduzindo novas carreiras ou novos currículos. Vimos isso na Venezuela e na Costa Rico, por exemplo.

          Nada mais lógico. Já que se iria desenvolver uma nova universidade, porque não fazê-lo com cursos mais próximos das demandas da sociedade e do mercado de trabalho? Em vez de se fazer, por exemplo, um curso superior de administração convencional, poder-se-ia fazer um curso de administração de cooperativas de exportação ...

          A fusão da inovação metodológica e organizacional com a inovação curricular fez com que os dirigentes e professores dessas universidades pagassem um alto preço, já que tinham que vencer também os preconceitos quanto a qualidade de seus novos cursos (carreiras).

          Algo parecido pode ser observado no Brasil. Muitos fazem uma relação da educação a distância com o ensino supletivo, já que aqui o segmento que mais fez uso dessa metodologia foi a suplência. Novamente, nada mais lógico que assim fosse, o público adulto tem características que facilitam sua inscrição em cursos a distância, poderia se utilizar o rádio e redes de apoio, assim por diante.

          Porém, ao se aplicar a educação a distância essencialmente em programas de suplência, fixou-se na elitizada opinião pública, que a educação a distância não era uma estratégia pedagógica de qualidade.

          Hoje isso começa a mudar, tanto a educação a distância inicia no Brasil uma trajetória de credibilidade, há muito conquistada no resto do Planeta, como também se começa a dar importância a processos educativos não-formais e à educação continuada.

          Na verdade algo maior está ocorrendo. As pressões sociais sobre a educação estão dando a esta atividade social um novo impulso valorativo. Cada vez mais se compreende que a educação é um bem da humanidade e um bem de cada indivíduo. O conhecimento é algo que não se possui, como uma mercadoria, mas algo que se cultiva, como um jardim. Deixá-lo sem cuidado é o mesmo que perdê-lo com o tempo.

          Nesse contexto, revigora a idéia de que a educação é um processo de toda a vida, não mais uma obrigação que se cumpre de forma seriada, mas o caminhar permanente que hoje se faz facilitado com o uso do conhecimento científico sistematizado e com a referência dos valores éticos que vamos descobrindo ao olharmos para todos como iguais e como portadores de beleza.

          É a partir da possibilidade de usar-se a tecnologia da informação e da comunicação e de se compreender que cada pessoa pode ser tratada e respeitada como tal, como indivíduo e como parte de uma sociedade em construção, que podemos começar a pensar em uma nova forma de universidade, uma universidade que esteja permanentemente ligada, colada, envolvida com o dia-a-dia de seus alunos, aqueles que vão entrar em seus quadros, aqueles que estão passando pelas salas e os demais que já receberam um diploma temporário.

           

           

           

           

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