Gestão, Financiamento e Avaliação de Qualidade nas Instituições Universitárias
A Avaliação do Ensino Superior
Eunice Ribeiro Durham*
I - Introdução
Processos de avaliação do ensino, em todos os níveis, são
procedimentos cada vez mais necessários e cada vez mais difundidos
nos países nos quais a educação constitui uma preocupação
fundamental.
Os objetivos básicos de qualquer sistema de avaliação incluem:
identificar e descrever o contexto da escolarização, em
diferentes tipos de instituição e sob condições de aprendizagem
heterogêneas;
identificar e analisar os problemas dos diferentes níveis
de ensino;
possibilitar maior compreensão dos fatores que influem
no desempenho escolar dos alunos;
apontar desigualdades regionais e sociais no acesso à
escola e no rendimento escolar.
oferecer às administrações públicas e às instituições
escolares informações que lhes permitam formular programas
de melhoria da qualidade do ensino;
comparar o desempenho dos alunos brasileiros, em diferentes
níveis de ensino, com o de outros países.
No Brasil, o Ministério da Educação já institucionalizou
o processo de avaliação permanente da qualidade do ensino
fundamental, que vem sendo aperfeiçoado e melhorado. Os resultados
desta avaliação têm contribuído enormemente para redirecionar
a política educacional e os recursos da União no sentido de
superar os problemas mais graves e urgentes. Neste ano, o
MEC iniciou um processo análogo de avaliação do segundo grau,
com objetivos semelhantes.
De forma geral, os processos de avaliação trabalham com três
tipos de informações referentes:
à estrutura física da rede escolar, à organização do trabalho
didático e aos recursos humanos disponíveis;
aos indicadores de eficiência (taxas de aprovação, repetência,
abandono e conclusão dos cursos);
aos indicadores da qualidade do ensino oferecido, obtidos
através de testes padronizados de desempenho escolar dos
alunos.
No caso do sistema de ensino superior, o processo de avaliação
é mais complexo e diferenciado em virtude da multiplicidade
de funções que ele preenche e da diversificação dos cursos
oferecidos. Trata-se, entretanto, de um nível de ensino no
qual a avaliação é particularmente necessária. Isso se deve
ao papel cada vez mais relevante que a educação superior vem
assumindo no mundo moderno, especialmente em virtude de sua
íntima vinculação com o desenvolvimento tecnológico, econômico,
social e cultural do país, além da função que possui de preparar
pessoal docente para os demais níveis de ensino. O cumprimento
desses papéis e funções, entretanto, depende crescentemente
da elevação constante da qualidade do ensino oferecido e de
sua capacidade de formar pessoal efetivamente qualificado
para o mercado de trabalho, para os demais níveis de ensino
e para a própria expansão das atividades de pesquisa dentro
e fora das universidades.
* Professora da Universidade de São Paulo - USP. Secretária
de Política Educacional do MEC. Ex-Diretora da Fundação Coordenação
de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. Ex-
Secretária de Ensino Superior do MEC.
O acelerado crescimento, tanto em números absolutos como relativos
do sistema de ensino superior, que tem caracterizado as últimas
décadas, acompanhado como foi de uma diversificação interna
muito grande, fez com que ele perdesse transparência exatamente
quando esta se tornava cada vez mais relevante. O conhecimento
do sistema, a avaliação da qualidade do ensino que ele oferece
e da pesquisa que realiza, a análise das áreas de conhecimento
que cobre e das desigualdades regionais na oferta de cursos
e no desenvolvimento da investigação, não podem mais ser obtidos
através de uma visão impressionista. Apenas uma avaliação
que utilize procedimentos análogos aos da pesquisa científica
pode fornecer à nação o conhecimento necessário do conjunto
das atividades e das instituições que constituem o ensino
superior no Brasil. O processo de avaliação se torna, assim,
necessário por constituir uma atividade indispensável ao auto
conhecimento por parte do próprio sistema.
A avaliação é ainda importante por outra razão. Ela constitui
um instrumento de accountability, conceito este fundamental
numa sociedade democrática e para o qual (e talvez sintomaticamente)
não possuímos uma tradução adequada. Precisamos considerar
que os custos do ensino superior, tanto em termos absolutos
como relativos, vêm se tornando cada vez mais elevados. Quer
se trate de instituições públicas, financiadas com recursos
de impostos, quer de instituições privadas, mantidas diretamente
com o pagamento efetuado pelos alunos, é indispensável que
quem sustenta as instituições seja informado sobre a qualidade
e os custos dos serviços que elas prestam. Só esta informação
permite decisões fundamentadas sobre a quantidade e a direção
dos investimentos a serem feitos, quer a decisão resida com
o Poder Público, quer esteja na mão das famílias que mantém
os filhos em instituições particulares. Mesmo em se tratando
de universidades públicas, não se pode conceber que a autonomia
as isente de accountability, nem que continuem a receber recursos
públicos sem prestar contas da qualidade e da amplitude dos
serviços que prestam à sociedade em termos de ensino, pesquisa
e extensão.
Para cumprir suas finalidades, a avaliação deve ser ampla
e abrangente, cobrindo o conjunto dos estabelecimentos de
ensino, tanto públicos como privados. Entretanto, as tentativas
de avaliação que tomam como unidade as instituições e pretendem,
através de um processo único e completo, medir o seu desempenho
em todas as áreas de conhecimento, abrangendo todo o ensino,
toda a pesquisa e toda extensão, têm se mostrado demasiadamente
complexas e inflexíveis . Além disso, exigem uma tal concentração
e multiplicação de avaliadores competentes em múltiplas áreas
que se tornam, na prática, inexeqüíveis. Precisamos também
considerar que toda avaliação é necessariamente parcial e
nenhuma, por mais completa que seja, pode levar em consideração
a totalidade das variáveis que influem na qualidade do ensino
e na sua adequação a contextos sociais e culturais diversos.
Por isso mesmo, uma avaliação do ensino superior, em suas
múltiplas dimensões e funções, só pode ser feita através de
um sistema avaliativo que utilize múltiplos instrumentos e
procedimentos, de tal forma que as parcialidades próprias
de cada processo se compensem e contrabalancem mutuamente.
Da perspectiva do Governo Federal, ao qual compete a função
de coordenação, integração e suplementação de recursos para
o conjunto do sistema (além da manutenção de suas próprias
instituições), um sistema de avaliação deve contemplar:
Informações estatísticas abrangentes sobre o sistema em seu
conjunto, por região e por tipo de instituição.
Processos de avaliação da qualidade dos serviços prestados
e das diferentes atividades desenvolvidas nas instituições
de ensino superior, em termos do ensino, da pesquisa e extensão.
Cumpre ainda observar que a LDB, aprovada pelo Congresso,
cria um sistema de credenciamento e recredenciamento periódico
das instituições de ensino superior, precedido de um processo
de avaliação. Desta forma, as informações estatísticas e a
avaliação do ensino, da pesquisa e da extensão devem fornecer
subsídios para um processo específico de avaliação institucional.
II - Avaliação do ensino, da pesquisa e da extensão
1 - A Pesquisa
As atividades de pesquisa têm sido objeto de avaliações sistemáticas
e diversificadas por parte de um conjunto de instituições
externas ao Ministério da Educação, que fazem parte do Sistema
de Ciência e Tecnologia. Estas avaliações incidem, basicamente,
sobre a qualidade dos projetos, como condição para a concessão
de financiamento e sobre a produção científica em diferentes
áreas do conhecimento. Este tipo de avaliação é feito pelas
agências de fomento à pesquisa e, eventualmente, pelas diferentes
associações científicas. No conjunto, tem dado origem a uma
reflexão crítica, permanente e abrangente sobre o desenvolvimento
da pesquisa no Brasil. É importante que estes dados sejam
incorporados no processo avaliativo das instituições de ensino
superior, ao lado daqueles concernentes à pós-graduação.
2 - Pesquisa e Pós-Graduação
No sistema de ensino superior, a pesquisa é avaliada com
a pós-graduação, pois se concentra nesse nível de formação.
A pós-graduação, entre todos os níveis de ensino, é o que
conta hoje com o sistema melhor estruturado de avaliação permanente
da qualidade dos cursos, através dos procedimentos desenvolvidos
pela CAPES.
A avaliação da pós-graduação, como a dos demais níveis de
ensino, baseia-se em indicadores de eficiência e de qualidade
tanto dos "insumos" como dos "produtos"
dos cursos. Entre os primeiros, estão aqueles referentes à
qualificação do corpo docente, à infra-estrutura física de
laboratórios, bibliotecas e outras instalações, à estrutura
curricular e à organização do trabalho em linhas de pesquisa.
A eficiência é avaliada através das taxas de conclusão dos
cursos e do tempo médio para obtenção de diplomas. A "qualidade
do produto" é avaliada com base em dois indicadores:
de um lado, a produção científica e, de outro a produção de
dissertações e teses. Tanto um quanto outro envolvem avaliações
externas. As publicações científicas, através de referees
que atuam junto às editoras de livros ou revistas científicas;
as dissertações e teses, avaliadas por bancas que incluem
examinadores externos aos cursos nos quais são defendidas.
3 - O Ensino de Graduação
A graduação, que constitui a atividade central do sistema
de ensino superior, não conta ainda com procedimentos institucionalizados
de avaliação. As dificuldades desta institucionalização são
múltiplas. Uma das principais reside na própria dimensão e
diversidade do sistema. Existem no Brasil, hoje, mais de 5000
cursos de graduação, contemplando todas as áreas de conhecimento.
Além desta dificuldade, há uma outra: se bem que indicadores
de insumos, semelhantes àqueles utilizados para a pós-graduação
possam ser facilmente construídos, o mesmo não se pode afirmar
quanto a indicadores da qualidade dos "produtos",
isto é, da qualidade da formação fornecida aos estudantes.
Para suprir esta lacuna, o Governo Federal está organizando
dois sistemas paralelos e complementares de avaliação do ensino
de graduação:
a) um exame de final de curso, que visa, especificamente,
estabelecer um indicador objetivo da qualidade do ensino através
de uma medida de rendimento dos alunos;
b) uma avaliação dos cursos por área de conhecimento, efetuada
por comissões de especialistas, as quais devem integrar os
indicadores de insumos e de eficiência com os resultados dos
exames de final de curso.
O exame de final de curso visa suprir a ausência de indicadores
objetivos da qualidade da formação obtida pelos alunos, cumprindo
função análoga à dos julgamentos de teses e dissertações que
ocorrem na pós-graduação e à avaliação dos projetos efetuados
pelo Sistema de Ciência e Tecnologia.
As comissões de especialistas têm funcionado de forma intermitente
no Ministério da Educação, na última década e meia. Estão
sendo revitalizadas nesta gestão, com uma tríplice missão:
a) Um levantamento do "estado da arte" em cada
área de ensino, incluindo uma avaliação das deficiências apresentadas
em termos das especialidades desenvolvidas e uma comparação
em relação ao desenvolvimento internacional do ensino das
diferentes disciplinas e da formação nas diversas áreas profissionais.
b) Uma avaliação da qualidade dos cursos oferecidos por diferentes
instituições, utilizando o conjunto dos indicadores de insumos.
A análise da infra-estrutura disponível, da qualificação do
corpo docente, da estrutura curricular, das taxas de repetência
e evasão são extremamente importantes nesta avaliação de cada
curso, assim como a do desenvolvimento de atividades de pesquisa.
A avaliação das comissões de especialistas incorporará além
disso, os resultados dos exames de final de curso.
c) Uma avaliação dos pedidos de criação de novos cursos,
estabelecendo critérios para sua aprovação, tendo em vista
a necessidade de assegurar um padrão mínimo de qualidade.
O trabalho das comissões de especialistas é permanente e
necessariamente lento e complexo, envolvendo, além de análise
de indicadores, visitas in loco ao conjunto de instituições
brasileiras que oferecem cursos naquela área.
4 - A Extensão
A extensão constitui a área mais heterogênea e diversificada
das universidades. É também aquela para a qual não foram desenvolvidos
ainda instrumentos adequados de avaliação, nem no Brasil nem
no exterior. O projeto do Ministério é incluir a avaliação
da extensão na avaliação institucional.
III - A avaliação institucional
A avaliação institucional deve ser estabelecida como parte
do processo sistemático de credenciamento e recredenciamento
das instituições públicas e privadas, como prevê a LDB, e
ser organizada pelo Governo Federal para seu próprio sub-sistema
(Instituições Federais e Privadas). A avaliação das instituições
estaduais e municipais deverá ser, na medida do possível,
delegada aos Estados.
A avaliação institucional deve conjugar a auto-avaliação
com a avaliação externa, integrar os resultados dos demais
processos avaliativos e utilizar indicadores gerais referentes
à qualificação e condições de trabalho do corpo docente e
à adequação da infra-estrutura disponível. Deve, além disso,
levar em consideração a heterogeneidade das instituições,
valorizando sua capacidade de respostas às necessidades da
sociedade na qual se insere e respeitando as vocações diferenciais
de cada uma delas.
A avaliação institucional não deve portanto ser efetuada
tomando-se como referência exclusiva, padrões e critérios
uniformes, aplicáveis indiferenciadamente a toda e qualquer
instituição. Ao contrário, deve estar referida ao projeto
da própria instituição, às prioridades e objetivos que formulou
em termos da oferta de ensino, do desenvolvimento da pesquisa
e das atividades de extensão. O projeto institucional não
se limita a objetivos próprios do processo de desenvolvimento
do conhecimento, mas inclui as respostas às demandas e necessidades
sociais do contexto social no qual a instituição se insere.
É o próprio contexto que deve legitimar a priorização do ensino
ou da pesquisa ou da extensão.
O projeto institucional deve decorrer de processo de auto-avaliação,
no qual a instituição analise seu potencial e formule suas
prioridades.
A auto-avaliação constitui-se assim como parte essencial
do processo e envolve a revitalização do PAIUB, o programa
de apoio às iniciativas das universidades nessa direção, o
qual deve ser estendido às demais instituições de ensino superior.
O processo de avaliação institucional deve, portanto compreender:
1 - Um processo de auto-avaliação que leve a instituição
a:
1.1- definir suas potencialidades e deficiências.
1.2- analisar as demandas e necessidades do contexto no qual
se insere.
1.3- definir seu projeto institucional.
2 - Um projeto institucional que inclua:
2.1- definição das áreas de conhecimento a serem desenvolvidas
tanto em termos de ensino como de pesquisa.
2.2- definição das prioridades na área da extensão.
2.3- transformações e inovações a serem introduzidas de forma
a atender às necessidades locais, regionais e nacionais.
2.4- prioridades da política de qualificação de pessoal.
2.5- processos a serem introduzidos para a melhoria da qualidade
do ensino, da pesquisa e da extensão.
3 - Uma avaliação externa, por comissões ad-hoc, que leve
em consideração:
3.1- a auto-avaliação efetuada.
3.2- a adequação do projeto em termos das potencialidades
da instituição e do contexto social no qual se insere.
3.3- a capacidade de realização dos objetivos propostos.
4 - A avaliação externa incluirá visitas, entrevistas
e análise de indicadores, entre os quais:
4.1- qualificação e condições de trabalho do corpo docente.
4.2- infra-estrutura disponível.
4.3- número de alunos de graduação e pós-graduação em diferentes
áreas.
4.4- resultados dos processos de avaliação dos cursos de
graduação e pós-graduação já efetuados.
4.5- taxas de evasão, repetência e conclusão de cursos.
4.6- candidatos por vaga nos diferentes cursos.
4.7- recursos financeiros disponíveis.
4.8- produção científica.
4.9- amplitude das atividades de extensão.
No caso das Instituições Federais de Ensino Superior, diretamente
mantidas pela União, a avaliação institucional deve contemplar
ainda indicadores de eficiência de gestão que promovam a eficácia
na utilização dos recursos públicos, para a melhoria da qualidade
dos serviços prestados à população. Esta avaliação inclui
um conjunto de outros indicadores:
1- cobertura das diferentes áreas de conhecimento tendo em
vista as necessidades regionais;
2- relação entre número de alunos e número de docentes por
área de conhecimento;
3- relação entre número de funcionários e número de alunos;
4- taxas de repetências, abandono, evasão, aprovação e conclusão
de cursos;
5- custo aluno relativo, levando-se em consideração o custo
diferencial de diferentes tipos de cursos;
6- análise da dispersão do número de alunos por turma;
7- volume de receitas próprias, especialmente as derivadas
de financiamento de pesquisa.
Indicadores especiais serão utilizados para a avaliação da
qualidade dos serviços e da eficiência dos hospitais universitários.
A avaliação institucional contará, como instrumento de apoio,
com um banco de dados o qual integrará as informações estatísticas
referentes aos cursos oferecidos, número de alunos, taxas
de aprovação, reprovação, abandono e conclusão do curso, número
e qualificação dos professores, infra-estrutura disponível,
além de consolidar os resultados dos diferentes processos
avaliativos: graduação, pós-graduação e pesquisa, e exames
de final de curso. Deverá, além disso, incorporar informações
relativas às atividades de extensão. O Banco de Dados fornecerá
um conjunto de indicadores que subsidiarão todas as atividades
de extensão.
V - Conclusão
A avaliação não é um procedimento único que se restrinja
a um momento no tempo ou a um exame. Trata-se, ao contrário,
de um processo complexo, diferenciado, permanente e sujeito
a um contínuo aperfeiçoamento, que se dá em diferentes níveis
e através de diversas agências e instâncias. O projeto do
Governo Federal é de ampliar e aperfeiçoar o processo, valorizando
a multiplicidade de instâncias e agências avaliativas. O objetivo
é o de incentivar a melhoria da qualidade do ensino, a ampliação
do atendimento à população, o desenvolvimento da pesquisa
e da extensão e a contínua informação objetiva, para toda
a sociedade, da situação e dos custos do sistema de ensino
superior.
Gestão, financiamento e avaliação de qualidade nas instituições
universitárias
Roberto Leal Lobo e Silva Filho *
Definimos gestão como a atividade cujo objetivo é o de encontrar
a melhor maneira de aproveitar os recursos humanos, físicos
e financeiros de uma instituição para o cumprimento de sua
missão. Por isto, para que uma gestão seja bem executada é
preciso que a instituição possua uma missão clara e conhecida.
Tenho convivido com a questão da gestão universitária ininterruptamente
nos últimos trinta anos. Inicialmente na Universidade de São
Paulo como docente, diretor de unidade, vice-reitor e reitor.
Agora, no ensino superior privado, como reitor da Universidade
de Mogi das Cruzes. Ocupei-me também, nos intervalos mais
recentes, em discussões internacionais sobre gestão universitária
no Projeto Columbus. As notas que trago para o nosso encontro
são alguns registros dessa experiência.
A gestão é um desafio curioso à competência acadêmica. Habituada
a fazer a crítica implacável das demais instituições públicas
e privadas, a universidade até hoje não encontrou seu modelo
administrativo ideal. Ainda não saiu da confortável posição
do "faça o que eu digo mas não faça o que eu faço".
Depois do tempo despendido no trato do problema e tendo felizmente
verificado que algumas batalhas vem sendo ganhas, ainda não
se pode dizer que a guerra acabou. Há um adversário duro,
tenaz, combativo, que não se renderá jamais em definitivo.
É o que chamarei aqui de "obstáculo estrutural".
Trata-se de algo que todos nós, acadêmicos, tentamos modificar
várias vezes e ainda não se transformou substancialmente.
Refiro-me ao "sistema de governo", principalmente
o das universidades públicas, ou seja, uma estrutura supostamente
plural, em que os colegiados, "garantias" de democracia,
acabam por inibir as boas iniciativas.
Um dos grandes problemas da universidade pública é ninguém
assumir responsabilidades, já que as decisões são tomadas
por meio de votação. Não é aceitável que cada colegiado seja
autônomo para decidir sem explicar, sem responsabilidades
pelo resultado da decisão. Em resumo: ninguém paga pelos erros
e todos se escondem atrás da votação. A verdade é que as grandes
universidades públicas permanecerão ineficientes se continuarem
como federações de faculdades, departamentos e professores,
sem interesse em manter relação entre os diversos setores,
fazendo o que bem entendem, errando sem pagar pelos erros.
Se os colegiados centrais gozam de uma amplitude imerecida,
os departamentos são ainda mais onipotentes.
Na universidade pública brasileira, como tudo é discutido
por todos, desde a cor do papel higiênico até o fechamento
de um curso, a estrutura acaba ficando caótica. Qualquer empresa
nesse ritmo e com esse modelo já teria falido.
O aperfeiçoamento institucional não pode prescindir de medidas
que assegurem, pela reformulação dos papéis dos colegiados,
o bom desempenho dos administradores. É preciso encontrar:
1 - A forma mais apropriada de escolha dos dirigentes; como
assegurar a governabilidade.
2 - A estrutura mais adequada para os colegiados; qual a
responsabilidade destes órgãos: quem é responsável pelo insucesso?
Quem decide? Quem paga a conta?
O objetivo de uma gestão competente no ensino superior é
otimizar meios para produzir os serviços típicos deste setor,
como o ensino de graduação, a pesquisa e a extensão de boa
qualidade.
Muitos especialistas entendem que qualidade em educação não
se mede, embora esses mesmos
* Reitor da Universidade de Mogi das CRuzes. Ex-Reitor da
Universidade de São Paulo.
indivíduos saibam muito bem escolher a escola ou a universidade
mais conveniente para seus filhos. Parece, então, que esta
coisa chamada qualidade existe e, se existe, deve ser possível
analisá-la. Vale a pena ressaltar, neste ponto, que o conceito
de qualidade mais aceito para as universidades é o da qualidade
científica do corpo docente e o do nível dos alunos ingressantes.
No entanto, pouco se questiona o quanto melhora o professor
ou o aluno ao conviver na universidade.
Vale aqui como referência enunciar cinco critérios de qualidade
de educação, nem sempre conflitantes: suplantar padrões, ser
consistente e agradar clientes, ser eficiente e eficaz, ter
reconhecimento social e contribuir para o desenvolvimento
da sociedade e, finalmente, a capacidade de transformação
dos que convivem em seu meio, especialmente, alunos, professores
e funcionários.
A gestão voltada à busca da qualidade deve ser o objetivo
tanto das instituições públicas ( o termo mais correto seria
estatais porque são mantidas e de responsabilidade do Governo)
quanto das particulares. A eficiência da gestão das particulares
não necessita grandes regulamentações, pois o mercado é, por
si só, um elemento suficientemente motivador para que se atinja
este objetivo, embora ainda haja muito a progredir neste setor.
A participação do Estado deve se restringir à defesa do consumidor
que deve poder escolher a instituição para onde deseja ir
a partir do conhecimento das características dos cursos oferecidos
e das perspectivas profissionais dos egressos. Programas de
certificação de qualidade sob a responsabilidade do governo
ou de entidades privadas independentes podem ser a melhor
solução. No caso das públicas, a questão é a da eficiência
e eficácia da utilização dos recursos oriundos dos impostos
pagos pela população que não tem formas de aferir custos e
desempenho diretamente. Cabe aqui uma ação direta dos governos
que representam o contribuinte, assumindo a necessidade de
fiscalização do uso dos recursos e dos objetivos da instituição
pública, inclusive no que diz respeito à solução dos problemas
da sociedade. A autonomia financeira, administrativa e acadêmica
deve ser monitorada por meio de compromissos explícitos assumidos
entre as partes, como, por exemplo, os contratos de gestão
que já estão sendo implantados para alguns órgãos públicos.
I - ESTRUTURA DA UNIVERSIDADE
A Universidade é uma organização complexa, sujeita a fortes
pressões externas e internas, com níveis de decisão e responsabilidade
diluídos e mal definidos, dirigida por profissionais originários
normalmente de áreas de ensino e pesquisa que nada têm a ver
com gestão ou administração, com mandatos, em geral, curtos
e não renováveis. Ela tende a ser paternalista com a própria
comunidade, avessa a qualquer forma de burocracia e planejamento
central e mais preocupada com seus problemas internos do que
com seu papel dentro da sociedade. Por outro lado, a descentralização
e a autonomia dos núcleos de decisão, a ausência de um forte
planejamento central e governamental, têm permitido que esta
instituição seja uma das poucas na história da humanidade
a se manter relativamente estável em seus objetivos e em sua
atuação ao longo de muito séculos, sobressaindo como defensora
da liberdade de pensamento e dos direitos humanos. Por isso,
se é claro, atualmente, que as pressões que a universidade
sofre para atender a mais estudantes, sem a contrapartida
orçamentária correspondente, para atender às demandas de maior
envolvimento com o desenvolvimento sócio-econômico regional
e nacional, para suplementar o estado em programas de atendimento
social e para ser eficiente na gestão de seus recursos, sejam
eles públicos ou privados, exigem um processo de transformação
e modernização internos, é também claro que esse processo
deve preservar a flexibilidade interna, o poder de adaptação
da universidade e a liberdade de criação e de crítica.
Hoje em dia, com a grande evolução das comunicações e das
técnicas de coleta, processamento e distribuição da informação,
muito dos dilemas que as organizações enfrentavam, até recentemente,
como o da integração versus diferenciação, centralização versus
descentralização, setorização versus institucionalização,
etc., podem ser minimizados com o auxílio das novas tecnologias
como as redes de telecomunicações, que resolvem o conflito
do tempo de resposta versus necessidade de controle, e os
sistemas especializados, que permitem que um não especialista
seja capaz de realizar tarefas complexas que somente especialistas
seriam capazes de realizar há pouco tempo atrás. Uma nova
estrutura da universidade, que preserve as qualidades da instituição
mas que, ao mesmo tempo, aumente sua capacidade de resposta
diante dos novos e crescentes desafios, tornando-a mais eficiente
e transparente à sociedade, deverá incorporar, necessariamente,
modernas técnicas de gestão e metodologias pedagógicas que
absorvam todo o potencial tecnológico disponível, sem transformar-se
numa camisa de força tecnocrática. Isso me parece possível.
II - MUDANÇAS NECESSÁRIAS
É preciso mudar a universidade em todo o mundo, inclusive
nos Estados Unidos. Vejamos o ponto de vista do Professor
Giamatti, ex-reitor de Yale: "Ao longo dos últimos vintes
anos, a fé do povo americano nas instituições de ensino tem
diminuído significativamente. O povo está cético com o que
considera ser a distância crescente entre o que as instituições
prometem e o que cumprem, entre o que se diz e o que a população
acredita que elas façam de fato. A pletora de relatórios de
comissões, documentos, livros e críticas à educação pública
do nível secundário é um sintoma da erosão daquela fé. Mas
o objetivo final da insatisfação não são as escolas secundárias;
são as universidades. Não quero dizer que haja um complô deliberado
contra o ensino superior, mas elas estiveram tão preocupadas
com outros problemas que não tiveram tempo, desde o final
da Segunda Guerra, de redefinir seus próprios objetivos".
O mesmo discurso se encontra na Europa, na América Latina
e, em particular, no Brasil. Parece claro que as universidades
terão que passar por um processo de mudança se pretenderem
recuperar o prestígio que tinham há trinta anos, só que com
um novo projeto, uma vez que a realidade de hoje não é a mesma
de trinta anos passados. De um modo geral as universidades
são refratárias a mudanças. São muitas as razões, algumas
delas bastante desagradáveis e corporativistas. Outras mais
justas. Não há tempo nem interesse de listá-las aqui. Vamos
focalizar neste momento a questão mais geral das mudanças
institucionais.
Os processos de mudança podem ser implantados de várias formas,
mais ou menos profundas. Por exemplo, uma decisão nova de
um colegiado pode, no limite, ser compreendida como uma pequena
mudança institucional. Resumimos algumas destas formas:
1. Através dos canais convencionais (órgãos de decisão internos
agindo cotidianamente): esta forma mantém as estruturas e
os processos internos, aperfeiçoa procedimentos, é setorial,
e, freqüentemente, superficial em seus objetivos.
2. Através de programas de qualidade (com várias experiências
na América do Norte e Europa): é uma estratégia global, que
procura um alto grau de participação para aperfeiçoar os processos
e suas interligações, é uma proposta de médio e longo prazos,
voltada para a satisfação dos clientes (quem são eles, exatamente?)
internos e externos e dos fornecedores. Os processos podem
ser esquematizados como fornecedor-cliente, correndo o risco
de concentrar-se mais nos serviços gerais de atendimento do
que nos processos acadêmicos.
3. Através da auto-regulação e avaliação setorial (utilizadas
em alguns programas na América Latina, Europa e EUA): concentra-se
num setor específico, analisando o desempenho através de avaliações
internas e externas, sendo, por isso, focalizado, intenso,
exaustivo. Embora tenha dificuldade de tratar das interligações,
atua nos processos e procedimentos, mas não nas estruturas.
4. Reengenharia: admite a necessidade de uma reestruturação
profunda da instituição, é intenso, redefine objetivos, atua
de cima para baixo na decisão e de baixo para cima nas recomendações,
prioriza resultados e, devido ao grande impacto estrutural,
tem grande possibilidade de gerar crises internas.
5. Benchmarking: é um procedimento normalmente complementar,
onde se procura aprender a partir de exemplos externos bem-sucedidos,
adaptando as soluções encontradas à instituição em questão.
Todos os modelos se baseiam no reconhecimento de que é necessário
introduzir mudanças, que se deve buscar a qualidade, e se
baseiam, de uma forma ou de outra numa mistura destas alternativas
e em programas de avaliação.
A efetivação de mudanças normalmente só ocorre a partir de
pressões externas às instituições, sejam elas originárias
do mercado, da legislação ou de forte pressão da sociedade.
É como o princípio da entropia, em física: a diminuição da
entropia ( aumento da ordem) só acontece em sistemas abertos,
isto é, que interagem com outros. A entropia só diminui em
sistemas isolados devido a flutuações que não se sustentam
ao longo do tempo.
Para que a implantação das mudanças necessárias à melhoria
da gestão e da qualidade das universidades seja possível,
é preciso que o Governo, através de seus órgãos de controle
e de legislação, permita e estimule a implantação de novas
políticas universitárias e de novos modelos para o ensino
superior. Exigir estruturas de corpo docente e de governo
universitário que reproduzam o modelo das atuais universidades
públicas pode representar um engessamento perigoso para o
aperfeiçoamento do sistema universitário como um todo, inibindo
a introdução de formas mais eficientes de gestão. Por que
exigir colegiados soberanos e eleições gerais para todas as
funções, se isto não tem dado certo? Por que exigir em cursos
profissionais grandes contingentes de professores com titulação
acadêmica de pós graduação stricto sensu quando um dos sérios
problemas das universidades públicas é justamente a visão
excessivamente acadêmica do corpo docente nas áreas profissionais,
criando os maiores obstáculos para a incorporação de profissionais
competentes externos à universidade em suas disciplinas? Não
será um grande artista ou um grande jornalista mais importante
para a formação dos profissionais que um mestre sem experiência?
Nas áreas profissionais é útil ter um grande número de professores
em tempo integral ainda que sua produção científica seja escassa?
Com as novas tecnologias educacionais será que o número de
estudantes por classe é o critério mais importante para assegurar
a qualidade do ensino? É preciso saber como a instituição
está lidando com estes problemas antes de emitir um juízo
baseado somente em dados quantitativos a priori.
III - A AVALIAÇÃO
Para a implantação de mudanças é indispensável que seja instalado
um programa permanente de avaliação, a partir do qual possa
ser feito um diagnóstico institucional, e sejam acompanhadas
criticamente as modificações implantadas no processo. É preciso
levar em conta que qualquer processo de avaliação induz comportamentos
adaptados ao tipo de prioridade que o processo focaliza. Por
isso, é necessário prever e modificar ao longo do caminho
o próprio programa de avaliação, para evitar que ele seja
um indutor de práticas indesejáveis. Algumas questões relativas
à avaliação:
Fim ou início?
De resultados ou de processos?
Punitiva ou motivadora?
Externa ou interna?
Quantitativa ou qualitativa?
Por que a avaliação está tão em moda? Há várias razões para
isso: o crescimento do ensino superior que passa a onerar
os orçamentos nacionais de maneira competitiva com outras
prioridades, a queda da qualidade e de seu controle pela mesma
razão, o custo intrínseco do ensino pela incorporação de novas
tecnologias e laboratórios caros, a diversidade das profissões,
as mudanças gerenciais em curso na sociedade como a qualidade
total, a reengenharia, etc. que priorizam os clientes e a
eficiência baixando custos desnecessários; falta de ação das
universidades para absorver esta nova realidade.
E para que serve a avaliação? Para melhorar o desempenho
da instituição, para demonstrar a quem paga que seus recursos
estão sendo bem utilizados, para enfrentar a concorrência.
Por isso há, tipicamente, dois tipos de avaliação: a auto-avaliação,
cuja iniciativa é interna à instituição, embora possa contar
com elementos externos para trazer experiências e conhecimentos
não disponíveis internamente: é um processo de aperfeiçoamento
interno; a outra é a avaliação externa, cuja iniciativa vem
de fora da instituição e cujo objetivo é o de aferir se os
recursos investidos nela são adequados e estão sendo bem utilizados.
O desempenho da instituição pode ser melhorado tendo em vista
os resultados alcançados, a qualidade dos insumos (infra-estrutura)
ou os processos; de preferência, os três. Frente a que comparar?
A outras instituições tomadas como modelo, a um conceito abstrato
de como uma instituição de ensino superior deveria ser, a
ajustes periféricos de defeitos admitindo que o que existe
está bem ou criar sua própria missão, objetivos e metas para
avaliar o desempenho institucional frente a eles. Avaliar
exige referencial.
A avaliação é uma das etapas de um programa de gestão institucional.
São necessárias ao menos quatro etapas: diagnóstica, planejadora,
executora e avaliativa.
a) Diagnóstica: a primeira etapa do processo é o levantamento
do que se faz, sem maiores juízos de valor. Levanta-se os
dados, processos internos complexos e simples, a qualidade
dos insumos e dos resultados frente ao que é a instituição
e aquilo que se gostaria que ela fosse; é um trabalho exaustivo
e profundo em que se conceituam empiricamente referenciais
de boas práticas e analisa-se a instituição diante delas,
buscando-se identificar fraquezas e forças internas.
b) Planejadora: a segunda etapa. Nesta etapa procura-se estabelecer
a vocação da instituição e suas vantagens competitivas identificando-se
oportunidades e riscos que se apresentam para as diferentes
alternativas e a maximização das primeiras e minimização das
segundas baseadas nas forças e fraquezas internas. Estabelecimento
de políticas e metas para aproveitar as oportunidades, reduzir
riscos, ampliar as forças e corrigir as fraquezas que interfiram
com os objetivos propostos. É nessa fase que se analisa, diante
do diagnóstico e das novas metas, a necessidade de mudanças
de estrutura e de mecanismos de decisão.
c) Executora: implanta-se o que se planejou. Pode parecer
óbvio, mas é a etapa talvez mais difícil, exigindo cronogramas,
adaptações de rumos e coragem para efetuar as transformações
institucionais necessárias.
d) Avaliativa: a última fase do processo. Nela se estabelecem
parâmetros para o monitoramento das ações institucionais,
aferindo se as metas foram ou não atingidas, as razões dos
insucessos e sistemáticas corretivas e de acompanhamento.
Esta fase é de periodicidade menor que as duas primeiras,
a avaliação tendo um caráter mais contínuo e permanente que
elas.
e) Preparação de uma próxima etapa: Avaliação do planejamento.
Retomada do processo.
IV - GESTÃO DE RECURSOS
A propósito de pagar a conta, quero contar um episódio ocorrido
há alguns anos, quando ocupava a Reitoria da Universidade
de São Paulo. Durante uma reunião com o meu coordenador de
administração, ele mostrou um documento impressionante. Não
havia naquele papel qualquer texto ou frase bombástica. A
rigor, nem mesmo novidades. Era um simples gráfico. Acontece
que ali estavam alinhados, comparativamente, os orçamentos
das universidades estaduais paulistas e as arrecadações do
ICMS nos estados brasileiros. Um inimigo do ensino superior
público faria este resumo brutal do demonstrativo: a USP sozinha
tem um orçamento equivalente ao volume integral do ICMS no
Ceará. Com este montante o Ceará cuida de seis milhões de
habitantes, enquanto na USP, mantínhamos apenas 70 mil pessoas,
entre professores, alunos e funcionários. O neoliberal radical
alegaria que a privilegiada USP aplica mais de um milhão de
dólares por dia no ensino superior gratuito, enquanto o Ceará,
com a mesma verba, administra problema de saúde, transporte,
educação primária e secundária, agricultura, habitação popular.
E que o CRUESP, sozinho, corresponde em termos de ICMS, a
metade do nordeste brasileiro.
Estou imaginando esse discurso distorcido para enviar um
alerta aos defensores do ensino superior público. Ao mesmo
tempo em que advogam o generoso modelo em vigor eles precisam
compreender que não pode haver desperdício de recursos nas
universidades públicas.
Tenho consciência de que a menção a este gráfico eventualmente
pode municiar os que combatem o ensino público de terceiro
grau. É um risco. Mas certamente não terá vida longa o raciocínio
simplista de que a miséria do nordeste se deve aos gastos
das universidades paulistas. Não é por isso que o nordeste
é pobre. Nem será destruindo a USP/UNICAMP/UNESP que se eliminará
essa pobreza. As universidades de São Paulo constituem hoje
a vanguarda do nosso desenvolvimento científico, tecnológico
e cultural. Há necessidade de preservar essa vanguarda. Mas
elas não têm o direito de mandar a conta que desejarem para
o povo brasileiro. Elas precisam ser fiscalizadas e apresentar
o melhor desempenho possível. Têm que ser econômicas e eficientes.
Não adianta, por outro lado, pensar que o ideal é nivelar
tudo por baixo no Brasil porque assim o país crescerá harmonicamente.
Não crescerá. Se não tivermos tecnologia jamais resolveremos
os problemas no nordeste ou os problemas do cerrado. É preciso
que existam centros de excelência. Desde que tenham o compromisso
de não gastar mais do que realmente necessitam para alcançar
os seus objetivos. Não há excelência que justifique o desperdício
de dinheiro público.
A questão orçamentária nas universidades públicas até hoje
não foi objeto de um estudo mais aprofundado por parte delas
mesmas e do próprio governo. O que há é uma queda de braço
permanente, um vai-e-vem de pressões, com o governo e reitores
buscando espaços na mídia para expor suas razões. Um dos pontos
cruciais desse debate é a famigerada "folha dos aposentados",
que absorve, na USP, cerca de 25% da verba de pessoal e que
tende a crescer, podendo até inviabilizar o sistema. Alguns
reitores chegam a pleitear que o governo libere as universidades
deste ônus e assuma o pagamento dos inativos. Ouso dizer que
isso não é o maior problema. A transferência do guichê, do
campus para o governo, mantém o erário como fonte de pagamento.
O dinheiro será público, em qualquer das duas hipóteses. A
questão central é outra. A questão central é o excesso de
servidores ativos. Se uma universidade com 18 mil funcionários
reduzir sua folha pela metade, nem mesmo assim deixará de
funcionar, e bem. E a economia resultante permitirá que ela
honre suas obrigações com os inativos, amplie suas atividades
acadêmicas e ainda guarde dinheiro para um eventual fundo
de pensão no futuro. Estou simplificando? Estou. Não há outro
enfoque possível nos limites desta palestra. Mas a essência
de qualquer projeto de viabilização das universidades estaduais
e federais reside no enxugamento gradual e inteligente de
sua folha de servidores ativos.
V - PROFISSIONALIZAÇÃO DA UNIVERSIDADE
A moderna gestão pressupõe a profissionalização da universidade.
Pressupõe, por exemplo, a substituição rápida de executivos
que afetam o desempenho da instituição. Sabemos todos, porém,
que isso é impossível no formato institucional das universidades
públicas. Estes executivos são eleitos. Diretores de unidades,
conselheiros, presidentes de comissões centrais, todos são
eleitos. E nem sempre as escolhas recaem em nomes adequados
para o exercício das funções. Os diretores de unidades nem
sempre são aqueles mais vocacionados para tarefas administrativas
e sim os que atuam com mais habilidade na coleta de votos.
Isso já faz parte da cultura gerencial das instituições. A
remoção do problema será penosa e difícil, mas precisamos
tentá-la, mesmo com o ônus de uma reputação de centralismo
ou autoritarismo. A democracia acadêmica não é isso. A democracia
acadêmica, ao contrário do que muitos supõem, não é a solução
de questões técnicas por sufrágio universal. A democracia
acadêmica é o livre exercício da crítica e o pluralismo das
idéias.
Profissionalizar uma instituição de educação superior, tanto
na área pública quanto na privada, vencidos os obstáculos
impostos pelo assembleismo institucionalizado no caso das
públicas, e da interferência muitas vezes paternalista ou
familiar das mantenedoras no caso das particulares, será ,
em princípio, como profissionalizar qualquer empresa. Alinho
aqui alguns itens básicos para estas iniciativas oxigenadoras
da gestão acadêmica:
Recrutar recursos humanos adequados para cumprir os objetivos
de cada área.
Implantar mecanismos ágeis que reduzam o tempo despendido
para a tomada de decisões.
Delegar autonomia, a partir da fixação clara de metas e responsabilidades.
Explorar novos nichos de atuação.
Identificar com nitidez os concorrentes e os parceiros.
Usar o benchmarking, como já foi dito, para conhecer e adaptar
experiências de outras instituições e resolver problemas próprios.
Potencializar ao máximo o patrimônio de recursos humanos
e materiais.
Avaliar permanentemente os processos, os resultados e o desempenho
do pessoal.
Satisfazer clientes internos e externos.
VI - CONCLUSÃO
O sistema de ensino superior no Brasil precisa repensar não
apenas os seus métodos administrativos, mas o modelo institucional
em que são praticados esses métodos. Até mesmo para merecer
a denominação de sistema público. A universidade assim chamada
deve ser aquela que atende o interesse da sociedade. E o interesse
da sociedade repousa basicamente no zelo pelos recursos delas
originários. Este é um princípio ético indeclinável e que
exige reforma vertical na gestão acadêmica em nosso país.
Deixo, para concluir, não proposições acabadas, mas algumas
perguntas que inquietam os nossos espíritos há muitos anos.
E que deverão inquietar outros e mais outros, até conduzirem
a uma realidade mais animadora.
É possível melhorar a qualidade da universidade?
É possível oferecer melhores serviços aos usuários internos
e externos?
É possível reduzir a burocracia, mantendo os controles administrativo
e acadêmico?
É possível organizar melhor a universidade, preservando a
liberdade e a criatividade?
É possível baixar os custos operacionais da universidade
mantendo a qualidade?
É possível compatibilizar os estímulos institucionais e os
individuais?
É possível aliviar os professores das inúmeras tarefas burocráticas
sem perder seu envolvimento nas decisões acadêmicas importantes?
É possível mudar a universidade dentro da estrutura atual
ou serão necessários novos paradigmas?
Como transformar estas perguntas em respostas afirmativas
é uma responsabilidade de todos nós.
Em busca de um novo paradigma gerencial para as
Instituições de Ensino Superior:a gestão da qualidade total
Antonio Carlos da R. Xavier*
I - Introdução
As instituições de ensino superior brasileiras (IES) encontram-se
diante de um grande desafio: como garantir a sobrevivência
no longo prazo, num ambiente que se torna cada vez mais competitivo?
Intensa competição por recursos, exigências crescentes por
parte dos clientes e pressões governamentais pela qualidade
dos serviços prestados são alguns dos ingredientes com que
se deparam as IES. Nunca se falou tanto de avaliar a qualidade
dos serviços prestados pelas IES e nunca se questionou tanto
a qualidade e os valores cobrados por esses serviços.
Nesse contexto, tem-se acentuado a necessidade de se repensar
as IES, preparando-as para as transformações que estão ocorrendo
no ambiente em que operam. Como qualquer organização, as IES
têm por objetivo principal satisfazer as necessidades de seus
clientes. Devem prestar serviços de ensino, de pesquisa e
de extensão de qualidade e, ao mesmo tempo, garantir um bom
ambiente de trabalho para os seus funcionários.
Essa necessidade de prestar serviços de qualidade para clientes
cada vez mais exigentes, num ambiente competitivo, tem levado
muitas organizações a adotar modelos inovadores de gestão.
Dos princípios do gerenciamento científico de Frederik K.
Taylor, aos dias de hoje, ocorreram consideráveis melhorias
nos métodos de gestão. Entretanto, no setor educacional, e
no ensino superior em particular, os avanços têm sido modestos.
Diante desses desafios, como podem as IES se estruturar para
aumentar a sua competitividade e para fornecer aos seus clientes,
colaboradores, alunos, empregadores e sociedade serviços que
atendam e até mesmo excedam as suas expectativas?
O presente texto apresenta, sucintamente, como uma moderna
técnica de gerenciamento, a gestão da qualidade, pode vir
a ser utilizada pelas IES para a consecução desses objetivos.
II - Compreendendo a gestão da qualidade
Embora os conceitos de base da gestão da qualidade possam
ser encontrados nos trabalhos de Shewhart, já nos anos 30,
é principalmente a partir das contribuições de Deming e dos
japoneses, no após-guerra, que esse modelo de gestão angariou
notoriedade.
Os princípios de W. Edwards Deming, estatístico considerado
como um dos pais da qualidade, quando aplicados à educação,
enfatizam a necessidade de a liderança colocar a qualidade
como objetivo central de sua ação, de se trabalhar preventivamente
para que os estudantes tenham sucesso, ao contrário de detectar
o insucesso depois de ocorrido, e de se usar o controle estatístico
dos processos para melhorar continuamente a qualidade dos
serviços administrativos e os resultados dos estudante. Segundo
Deming, qualidade consiste no orgulho do trabalho bem feito.
Somente quando os colaboradores se sentem seguros e dispõem
do conhecimento adequado podem prestar serviço de qualidade,
desde que a direção assegure constância de propósitos e elimine
o medo como fator de pressão.
Um outro estatístico, Joseph M. Juran, também considerado
como um dos pais da qualidade, define qualidade como sendo
adequação ao uso. Assim no caso de uma IES, a missão deveria
ser a de
* Coodenador da Coordenação de Qualidade e Produtividade da
Diretoria do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA
desenvolver programas e serviços que satisfazem as necessidades
dos clientes. Como Deming, Juran enfatiza o fato de que a
adequação ao uso deve ser determinada do ponto de vista do
cliente e não do produtor; que a busca da qualidade é um processo
sem fim; que a melhoria contínua da qualidade requer liderança
e treinamento intensivo.
Inicialmente, as teorias de Deming, Juran e outros teóricos
da qualidade foram aplicadas na indústria. Com o passar do
tempo, atingiu o setor dos serviços e a partir dos anos 80
e mais intensamente a partir dos anos 90 vêm sendo aplicadas
na educação, principalmente nos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra.
A metodologia da gestão da qualidade ocupa cada vez mais espaço
na literatura e diversas revistas inglesas e americanas foram
lançadas para tratar exclusivamente do tema.
A pergunta que freqüentemente se faz é se a gestão da qualidade,
como utilizada em outros setores, se aplica igualmente à educação,
em especial às instituições de ensino superior? A resposta
a essa pergunta é que há suficiente evidência de que a gestão
da qualidade funciona bem na educação e nas instituições de
ensino superior, tendo em mente que algumas adaptações devem
ser efetuadas.
Mas, o que é a gestão da qualidade? Trata-se de um conjunto
estrategicamente organizado de princípios e métodos, que visa
à mobilização e cooperação de todos os membros da organização,
com o objetivo de melhorar a qualidade de seus produtos e
serviços, para obter a máxima satisfação de seus clientes
e obter um acréscimo de bem-estar para os seus membros, de
acordo com as exigências da sociedade. Trata-se, assim, de
uma maneira diferente de organizar os esforços das pessoas,
harmonizando esses esforços para que as pessoas realizem suas
tarefas com entusiasmo e participem, efetivamente, na melhoria
de como o trabalho pode ser realizado.
É freqüente encontrar na literatura a expressão gestão da
qualidade total para designar o modelo de gestão centrado
na qualidade. Isso se deve ao fato de que a gestão da qualidade
é a gestão total (em toda a empresa e por todas as pessoas)
da qualidade total (todas as dimensões da qualidade sendo
consideradas: qualidade intrínseca, custo, atendimento, moral
da equipe, segurança e ética).
Uma IES que pratica a gestão da qualidade deve:
a) Ter foco no cliente - Todo produto educacional tem um
cliente, cujas expectativas devem ser atendidas e mesmo excedidas.
As IES têm dificuldade em reconhecer esse fato, não considerando
os beneficiários de seus serviços como clientes. Entretanto,
a menos que se reconheça que todo serviço tem um cliente a
qualidade não pode ser melhorada.
b) Envolvimento total - As transformações requeridas por
um modelo centrado na qualidade, que tem como foco a satisfação
do cliente, é tarefa de todos na organização. Em geral essas
transformações começam com a adoção de um novo paradigma educacional,
que afeta profundamente a "antiga" maneira de realizar
as tarefas. Em geral, as mudanças de paradigma ocorrem por
pressões externas e não são facilmente assimiláveis, principalmente
quando afetam o modo de fazer as coisas. A crença generalizada
de que maior qualidade somente poderia ser obtida com mais
recursos financeiros tem se revelado infundada.
c) Medição - As IES avaliam seus estudantes mediante testes
de desempenho e não se concentram na coleta de fatos e dados
que permitam obter um maior controle sobre o processo em que
o ensino se dá. Pode-se afirmar, sem risco de ser injusto,
que pouco se conhece nas IES de como avaliar adequadamente
a qualidade dos seus processos.
d) Visão sistêmica da organização - É comum procurar melhorar
o desempenho do sistema sem compreender claramente como ele
opera. Em outras palavras, é necessário que o sistema tenha
metas (sem o que não é um sistema) comuns baseadas nas necessidades
dos clientes, ao bom atendimento dessas necessidades e ao
oferecimento de alto valor com um mínimo de desperdício. Sabe-se
hoje que a maior parte dos problemas (cerca de 80%, segundo
Juran e cerca de 96%, segundo Deming) estão fora do controle
dos funcionários, ou seja, apenas 4% a 20% dos problemas é
de responsabilidade dos funcionários. O restante é responsabilidade
da gerência.
e) Liderança - Sem liderança não há gestão da qualidade.
A liderança deve sinalizar claramente o seu compromisso com
a qualidade. Sem esse compromisso a mudança cultural requerida
não ocorrerá.
f) Melhoria contínua - é preciso buscar constantemente o
aperfeiçoamento dos processo para oferecer produtos e serviços
de melhor qualidade.
III - As lições aprendidas
Para que a gestão da qualidade possa ser adequadamente implementada
algumas ações gerenciais devem ser observadas, num sistema
fundamentado nos princípios de satisfação do cliente, respeito
pelas pessoas, melhoria contínua e tomada de decisão com base
em fatos e dados:
a) reconhecer a melhoria da qualidade como um sistema;
b) operacionalizar os conceitos para que todos os compreendam;
c) trabalhar com os colaboradores na melhoria do sistema;
d) medir a qualidade do sistema;
e) desenvolver melhorias na qualidade do sistema;
f) medir os ganhos de qualidade, relacionando-o à satisfação
do cliente;
g) tomar medidas para manter os ganhos de qualidade obtidos;
h) estender os ganhos para todo o sistema;
i) comunicar as lições aprendidas.
De maneira geral, tendo por foco a satisfação do cliente,
e utilizando como método gerencial o chamado ciclo Shewhart-Deming,
as IES devem atuar em três vertentes:
a) a que determina o que fazer, isto é, o planejamento estratégico
das IES;
b) a que explicita como fazer o que ficou estabelecido, isto
é, a adoção da gestão da qualidade; e,
c) a que trata de com quem será feito o que deve ser feito,
ou seja, o patrimônio humano das IES.
Se não houver uma feliz combinação dessas três vertentes
_ a estratégica, a técnica e a comportamental a probabilidade
de insucesso será grande.
Sabe-se também, com base na experiência acumulada na implantação
de gestão da qualidade em IES nos EUA e Europa, que alguns
pontos devem ser observados:
a) O compromisso da liderança é condição sine qua non de
uma efetiva gestão da qualidade. Há consenso de que a gestão
da qualidade deve começar pelos escalões mais altos da organização.
Sem um profundo investimento de tempo e de energia da direção,
as IES não terão meios de implementar as mudanças estratégicas,
culturais e técnicas que a gestão da qualidade requer. não
há delegação possível nesse caso.
b) Há diversas barreiras para o sucesso da gestão da qualidade.
No processo de implantação, inúmeras barreiras podem dificultar
o êxito do programa: número insuficiente de facilitadores;
falta de participação da direção no planejamento e educação
para a qualidade; mudanças constantes da direção; e muita
conversa e pouca ação.
c) É mais fácil começar do que continuar. Como a implantação
da gestão da qualidade implica mudanças culturais, estratégicas
e técnicas importantes nas IES, a manutenção do programa,
ao longo do tempo, passado o entusiasmo inicial, corre o risco
de se ver prejudicada pela rotina do dia-a-dia, com muitos
afazeres sem focalização.
d) A participação dos docentes é fundamental. Deve-se evitar
a tendência de começar a gestão da qualidade pelos processos
administrativos, deixando para depois os diretamente relacionados
ao ensino, pesquisa e extensão. O não envolvimento dos docentes
desde o início eleva substancialmente o custo da mudança.
e) A estrutura de implantação é crítica para o funcionamento
da gestão da qualidade. Sem adequada estrutura de implantação
não há gestão da qualidade. Em linhas gerais, e respeitando
as peculiaridades de cada instituição, uma estrutura típica
contempla um comitê estratégico (responsável pelas decisões
em nível estratégico e que concebe e comunica a visão organizacional,
bem como dá suporte para o desenvolvimento das ações de qualidade),
um comitê executivo (responsável pelo apoio logístico e pela
coordenação do desdobramento da política de qualidade formulada
pelo comitê estratégico) e grupos de melhoria da qualidade
(responsáveis pela implementação das ações em nível operacional).
Outros componentes úteis da estrutura incluem a existência
de um plano estratégico da qualidade, de facilitadores e multiplicadores
bem treinados, de um sistema de análise e disseminação de
informações, de informações sobre a satisfação dos clientes
e de mensurações sobre a qualidade do atendimento e do desempenho
interno.
f) A gestão da qualidade é mais do que projetos de melhoria
da qualidade. A gestão da qualidade implica mudanças profundas,
afetando a cultura da organização. Os projetos de melhoria,
sem estarem fundamentados em uma teoria geral, em um planejamento
estratégico da qualidade, correm o risco de perder de vista
o foco no cliente externo.
g) Só treinamento não basta. É comum, e equivocado, imaginar
que o simples treinamento seria suficiente para proceder às
mudanças organizacionais. A gestão da qualidade é, em primeiro
lugar, uma questão de liderança e não de treinamento. treinar
e capacitar é importante mas não agregará valor se não houver
um plano de mudança que permita colocar em prática o novo
conhecimento adquirido.
h) Não é possível gerenciar o que não se pode medir. Não
basta coletar dados. É preciso analisar, resumir e utilizar
os dados para melhorar o atendimento. Não se pode administrar
o que não se pode medir e não se pode medir sem gerenciar.
i) A gestão da qualidade gera economia de recursos. Os projetos
de melhoria, no contexto da gestão da qualidade, geram ganhos
financeiros consideráveis. Ao reduzir o desperdício e ao evitar
o retrabalho, proporcionam grande aumento de produtividade.
No início pode haver um aumento nos custos, visto que é alto
o investimento em treinamento. Entretanto, como demonstra
a experiência, por se tratar de um investimento de alto retorno
com forte impacto na qualidade dos serviços prestados, os
ganhos de produtividade logo se fazem sentir.
j) O foco no cliente é fundamental. Os ganhos de produtividade
serão conseqüência da elevação da qualidade, que, por sua
vez, deve estar centrada na satisfação do cliente. O foco
no cliente elimina atividades que não agregam valor, reduzindo
o retrabalho e os erros. Ouvir o cliente interno permite obter
espírito de equipe e substancial melhoria na qualidade dos
processos.
IV - Os desafios
Já se afirmou que embora os educadores estejam entre os primeiros
a escrever sobre novas idéias, eles quase sempre são os últimos
a aplicá-las em suas próprias atividades. A resistência à
incorporação de um novo paradigma, principalmente na Academia,
tende a ser muito grande. Entretanto, pressionadas pela concorrência,
pelos custos crescentes e por orçamentos apertados as IES
podem encontrar o ambiente favorável para a implantação da
gestão da qualidade.
Os pontos a serem considerados durante o processo de implantação
foram delineados acima, mas a experiência mostra que o fator
crucial está na liderança, sem a qual nenhum processo de transformação
pode ocorrer. Assim o primeiro grande desafio é o de alinhar
a liderança das IES no sentido de promover e sustentar as
transformações que a gestão da qualidade requer. A liderança
é responsável pela criação da visão organizacional centrada
na qualidade e cabe a ela estabelecer os espaços de atuação
com claro senso do negócio, criar novas abordagens e imaginar
novas áreas a serem exploradas.
Cabe ainda à liderança e ao corpo gerencial zelar pelo estabelecimento
do padrão de atendimento (adequação às necessidades dos clientes),
pela manutenção do padrão estabelecido (combinar os insumos
de modo eficiente e eficaz para garantir o padrão de atendimento)
e pela melhoria do padrão (todo padrão deve ser incansavelmente
melhorado para exceder as expectativas dos clientes).
Na busca desses objetivos deparam se também com o desafio
de atender a cinco imperativos:
a) Conformidade: o serviço educacional deve atender às necessidades
dos clientes, mediante uma adequada conformidade a especificações
definidas com base em estudos sobre a satisfação dos alunos,
empregadores, sociedade em geral.
b) Prevenção: na concepção e execução do serviço educacional
devem ser tomadas medidas que levem em conta os seus custos,
para que falhas ou defeitos sejam evitados.
c) Excelência: fazer certo a coisa certa, da primeira vez;
os resultados da excelência em melhor desempenho, na recusa
de toda falha ou erro nos processos, no respeito às especificações
e na busca da melhoria contínua.
d) Medição: as características da qualidade podem e devem
ser medidas; é preciso desenvolver procedimentos de avaliação
do corpo discente e docente e da própria gestão, com o objetivo
de identificar os problemas, suas causas e a não-qualidade
do sistema.
e) Responsabilidade: os quatro imperativos mencionados acima
devem ser respeitados; trata-se do respeito coletivo e individual,
envolvendo todas as pessoas, todos os setores e o ambiente
externo.
Liderança visionária, método gerencial adequado e patrimônio
humano como ativo são, assim, os ingredientes do sucesso empresarial
que podem levar as IES a alcançar níveis de excelência nunca
imaginados.