ABMES Notí ciasn.° 86

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Brasília, Janeiro-Fevereiro 2005

  IDÉIAS BÁSICAS DO ANTEPROJETO DE REFORMA DO ENSINO SUPERIOR

O Anteprojeto de Lei de Reforma do Ensino Superior apresentado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ministro da Educação, Tarso Genro, em dezembro de 2004, composto de 100 artigos, tem recebido severas críticas de todos os segmentos da sociedade brasileira especialmente da comunidade acadêmica, de intelectuais e de membros importantes do próprio Partido dos Trabalhadores.

O Conselho Nacional de Educação (CNE), as Comissões de Educação da Câmara e do Senado, as entidades representativas das instituições de ensino superior públicas e privadas, os sindicatos, e outros tantos setores organizados da sociedade têm sido responsáveis . dado o conteúdo polêmico do Anteprojeto . por calorosos debates em todo o País.

As entidades representativas o Fórum Nacional da Livre Iniciativa na Educação têm realizado reuniões entre seus membros e com mantenedores de todo o País. O Fórum produziu um primeiro documento, levado ao conhecimento do ministro Tarso e da sociedade, contendo críticas ao Anteprojeto e propondo, ao invés da reforma, um Plano Estratégico para a Educação Brasileira. (Ver Editorial)

O filósofo Roberto Romano acredita que .muitos dos petistas envolvidos com o obscurantista projeto de reforma são pessoas cultas, que apreciam um boa leitura e sabem o mal que estão propondo ao País.. As pessoas dessa categoria, na análise de Romano, teriam, no entanto, pouca força política para fazer valer suas idéias. .Eles sabem pensar, têm cultura, mas estão desprovidos de poder. São obrigados a dizer sempre amém aos incultos..

O caminho a ser percorrido pelo Anteprojeto é longo. O texto revisado pelo Ministério da Educação, após a prorrogação do prazo concedido para o recebimento de sugestões e propostas, irá para a Casa Civil, onde ficará por três meses, período previsto para que o ministro José Dirceu receba outras tantas sugestões, antes de encaminhá-lo ao Congresso Nacional.

O governo pretende ter, em junho, um Projeto consistente e com o necessário respaldo da sociedade para enfrentar a grande batalha no Congresso, no segundo semestre de 2005. Lula e Tarso querem a aprovação de proposta.

IDÉIAS CENTRAIS DO ANTEPROJETO DO MEC

Claudio de Moura Castro, economista e presidente do Conselho Consultivo do Grupo Pitágoras, e Simon Schwartzman, sociólogo e presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, produziram um análise completa e aprofundada sobre o Anteprojeto do MEC que a Fundação Nacional para o Desenvolvimento do Ensino Superior Particular (Funadesp), oportunamente, fez publicar. (ver pag. 8). Os citados autores, em artigo para o jornal O Estado de São Paulo (23-01-05) apresentaram as idéias centrais do Anteprojeto . autonomia, financiamento, tratamento do setor privado, medo da globalização, a gestão, expansão, organização do sistema e inclusão.

As notas que se seguem demonstram que as reações contrárias ao Anteprojeto não têm suas origens apenas no setor particular, como afirmam alguns setores da imprensa. Neste sentido, reúne-se a seguir, as idéias centrais do Anteprojeto, citadas por Claudio e Simon, com as com as outros analistas da mídia e da academia.

 

AUTONOMIA

.Um sistema adequado de autonomia com responsabilidade deveria condicionar os recursos a resultados quantitativos bem definidos. O Anteprojeto de Lei silencia sobre o assunto. Pior, a garantia de nunca reduzir os orçamentos das IES federais em relação aos anos anteriores congela situações hoje existentes de profunda injustiça e ineficiência orçamentárias.. (Claudio e Simon).

Houve quem visse a intenção de dar autonomia às universidades federais como ponto positivo. Poderia até ter sido, não fosse a postura de descentralização feita em termos tão equivocados. A  mudança pretendida botaria a perder a essência dos benefícios que a autonomia na gestão dos recursos públicos destinados às universidades federais poderia engendrar. O que se contempla não é um arranjo com incentivos bem concebidos, no qual a autonomia tenha como contrapartida um sistema de avaliação e cobrança que permita restringir ou ampliar o acesso a recursos federais, tendo em conta o desempenho de cada instituição.. (Rogério L. Furquim, PUC-Rio, O Estado de São Paulo, 28-01-05).

 

FINANCIAMENTO

Cristovam Buarque considera o Anteprojeto uma insensatez e critica a visão elitista do governo atual sobre o que é educacão, isto é, aquela que privilegia o ensinosuperior em detrimento do ensino básico. (Valor Econômico, SP, 20-01-05)

Para Claudio e Simon, .o Anteprojeto prevê aumentar em um terço os recursos federais para as universidades públicas, ao transferir os custos das aposentadorias para o Tesouro. Ainda, ao assegurar para as universidades 75% dos recursos do MEC, reduz gastos com programas voltados para a educação fundamental justamente onde investimentos federais são irrisórios..

 

HOSTILIDADE EXPLÍCITA AO SETOR PRIVADO

.Pela constituição, o ensino é livre à iniciativa privada, desde que cumpridas as normas gerais existentes. Tal liberdade colide com o Anteprojeto, no qual a educação privada deixa de ser um direito e passa a ser uma função pública delegada.. (Claudio e Simon)

Gabriel Mario Rodrigues, reitor da Universidade Anhembi Morumbi e presidente da ABMES observa que o Anteprojeto .é claramente preconceituoso em relação à iniciativa privada, além de tirar completamente a autonomia das instituições particulares e desconhecer as tendências atuais em termos de formato e conteúdo das instituições..

 

MEDO DA GLOBALIZAÇÃO

.A proposta de coibir que estrangeiros controlem as instituições de ensino superior brasileira é antiquada, como se fossem roubar nossa cultura. No mundo atual os países buscam fortalecer as dimensões internacionais de sua educação superior, atraindo investimentos e estimulando múltiplas formas de intercâmbio.. (Claudio e Simon) .

A Universidade de São Paulo, o melhor centro de ensino superior do país, foi criada com a contratação de um robusto time de luminares europeus. Aqui eles deixaram milhares de discípulos que hoje estão entre os mais destacados intelectuais brasileiros. (...) Desafiam a imaginação as razões pela quais italianos, espanhóis, franceses, alemães, argentinos, coreanos e outros povos não vêem na presença de instituições estrangeiras de ensino nenhum risco para sua cultura e seu pensamento. Já os autodenominados guardiões da cultura brasileira ficam temerosos. ( Veja, 26-01-05)

 

GESTÃO

.A América Latina, diferentemente do resto do mundo, desenvolveu uma concepção peculiar de .cogobierno . universitário que transformou suas instituições de ensino superior em repúblicas autônomas financiadas com recursos públicos e com níveis de desempenho geralmente precários. O Anteprojeto consagra essa tradição ao exigir uma gestão colegiada das instituições e eleição direta de dirigentes. Exorbita também ao criar órgãos externos de controle comunitário sobre as instituições públicas e privadas.. (Claudio e Simon) .

O projeto estende às IES privadas a mesma camisa-de-força de gestão democrática e colegiada, numa violência à iniciativa privada e à natureza não-governamental dessas instituições. Além disso, todas as IES privadas serão obrigadas a ter um Conselho Superior responsável pela elaboração de normas e diretrizes, no qual os integrantes da entidade mantenedora da IES privada não poderão exceder a 30% da representação total.. (Roberto Macedo, economista e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, O Estado de São Paulo, SP, 27-01-05)

 

EXPANSÃO E INCLUSÃO

"O governo que aumentar em 400 mil o número de vagas nas universidades públicas. O que seria de esperar é o inverso: fortes inversões públicas na educação básica, investimentos seletivos e cuidadosos no ensino superior, políticas de inclusão baseadas em apoio financeiro aos estudantes mais promissores, bem como liberdade e estímulo ao crescimento da educação superior privada", observam Cláudio e Simon. Eles afirmam ainda que uma política efetiva de inclusão deveria ocorrer pela melhoria do ensino básico e não, simplesmente, por facilitar o acesso à universidade de pessoas que, por uma ou outra razão, não conseguem se qualificar nos exames vestibulares.

Segundo matéria da revista Veja (26-01-05) a inclusão do regime de cotas nas universidades públicas prevista pelo MEC é igualmente uma jogada para a platéia. O governo quer reservar 50% das vagas nessas instituições a alunos vindos de escolas públicas, negros e indígenas. A experiência mundial em iniciativas desse tipo mostra, porém, que o mais lógico . porém mais difícil, complexo, anônimo e politicamente neutro e, por isso, pouco atraente para a militância . é universalizar o ensino básico e secundário gratuito de modo a dar chances iguais a quem quer tentar a aventura intelectual de cursar uma universidade de alto nível.

 

ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA

"O Anteprojeto trata todas as instituições de ensino superior e de pesquisa do País como pertencendo a um sistema integrado." Como está formulado, o sistema tutelaria até mesmo os institutos públicos e privados, assim como as fundações de fomento à pesquisa, como Fapesp e Finep.

As instituições de ensino deveriam passar periodicamente por processos de recredenciamento e autorização. Mas os processos propostos pela Sinaes são muito lentos e de operacionalização incerta. A lei faz ameaças ao ensino privado que não atenda às suas exigências. Mas e o ensino público? O que será feito com os recalcitrantes, com os que não atingem boa avaliação, com os que gastam mal seus recursos?. (Claudio e Simon)

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