ABMES Notícias n.° 83

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Brasília, Abril-Maio-Junho 2004

 

Editorial

 

IES PARTICULARES DEBATEM  PROPOSTA DO PROUNI (*)

O projeto de lei n.º 3.582/04 do Programa Universidade para Todos  (Prouni),   enviado ao Congresso em regime de urgência constitucional, trata da questão da inclusão social dos alunos que, por carência econômica, não têm acesso ao ensino superior.

Em ofício enviado ao  Ministro da Educação, Tarso Genro, o sistema particular mostrou a sua total concordância com a proposta, desde que os seus termos fossem discutidos, previamente, visando a obter um entendimento e a concretizar uma parceria entre o Governo e as Instituições. Mas tal discussão não aconteceu no momento da elaboração do Projeto.

O Governo criou, no entanto, uma Comissão Especial do PL 3.582 – Prouni, cujo relator é o deputado Irineu Colombo (PT/PR), responsável pela realização de uma série de audiências públicas, oportunidade em que as representações das IES particulares compareceram para apresentar críticas e sugestões. Além das audiências públicas, foram realizados encontros regionais, visando a discutir o Prouni e ouvir as demais contribuições da sociedade.

A proposta do Prouni, considerando apenas as questões educacionais e sociais, apresenta pontos que mereceriam uma discussão mais aprofundada, visando a adequá-lo à realidade das instituições de ensino superior (IES).

Primeiro, o viés assistencialista – a concessão das bolsas sem a exigência da contrapartida por parte do aluno. Até mesmo nos países socialistas, o princípio deste tipo de benefício baseia-se na posterior prestação de serviços de quem o recebe. Não é o governo que concede as bolsas; é a sociedade, isto é, os impostos pagos custeiam os estudos dos universitários, que os retribuem, depois de formados, por meio de serviços prestados à população.

Sabe-se que não se valoriza o que é de graça e este é o segundo aspecto polêmico. O valor do curso almejado pelo candidato deveria se basear no princípio da escolha por mérito de conhecimento. É lógico que, dentro dos padrões estabelecidos para a carência, o Prouni não deveria atender apenas aos alunos carentes das escolas públicas. Há famílias com as mesmas carências que fazem imenso sacrifício para manter seus filhos em escolas particulares de primeiro e segundo graus. Alunos oriundos de escolas públicas e privadas, observado tal critério, deveriam ter o mesmo direito.

Terceiro aspecto: o esforço governamental não está focado no ensino básico e no ensino médio. Havendo escolas com qualidade, todos os alunos poderiam disputar um lugar no ensino superior em condições de igualdade. Este, sim, é um elemento tão ou mais importante quanto a renda familiar.

O quarto aspecto: estipular que o beneficiado seja oriundo, obrigatoriamente, da rede escolar pública, discriminando os alunos das escolas particulares cujas famílias tenham as mesmas carências econômicas e lutem com as mesmas dificuldades para manter seus filhos nas escolas.

Quinto aspecto: o governo se esquece que o sistema particular já oferece substancial percentual de bolsas. É preciso, portanto, planejar a acolhida de novos bolsistas de maneira a manter o necessário equilíbrio educacional e financeiro das instituições.

O governo considera, e este é o sexto aspecto, o mais importante de todos,  que o sistema universitário é a única alternativa para capacitar profissionais e colocá-los no mundo do trabalho. Ora, a opção do estudante de prosseguir os estudos está relacionada com as suas condições socioeconômicas.  Oferecer mais vagas nos períodos matutino e vespertino, não resolverá o problema porque, na maioria das vezes, o estudante  carente trabalha durante o dia e parte da noite. Além disso, não haverá vagas para atender a todos.

A expectativa de que o diploma superior seja o único passaporte para um bom emprego é um mito que começa a desmoronar. O certo será criar um plano de formação de recursos humanos em consonância com o desenvolvimento nacional, observando uma realidade socioeconômica factível, onde as diferenças salariais entre o escalão superior e inferior não fossem tão significativas como no Brasil.

O País não possui um plano estratégico de desenvolvimento. A economia não cresceu dentro das expectativas nacionais. Também não existe um plano de capacitação de recursos humanos relacionado com as tendências de crescimento. Quaisquer medidas, ações ou programas que não estiverem agregados ao progresso e ao desenvolvimento do País, correm o risco de criar expectativas e não resolver os problemas.  A crise econômica também chegou ao ensino superior brasileiro.

Os índices de inadimplência dos alunos são altíssimos e algumas escolas ainda estão com o 13.º salário em atraso. As IES convivem, há setenta meses, com uma legislação que premia a inadimplência, causando grandes prejuízos às escolas, fato ignorado pelo legislativo  e pelo executivo.

A ABMES espera que todas as instituições representativas do segmento particular   

unam-se nesse momento delicado que estamos vivendo, fazendo chegar aos órgãos governamentais suas reivindicações. A ABMES espera também que o governo tenha sensibilidade para ouvir  e negociar tais reivindicações, contribuindo sobremaneira para o fortalecimento do ensino particular, responsável pela formação de mais de quatro  milhões de profissionais.

______________________________

(*)Edição do texto apresentado por Gabriel Mario Rodrigues, presidente da ABMES, na audiência pública da Comissão Especial da Câmara dos Deputados que tem como objetivo emitir parecer ao Projeto de Lei n.º 3.582 de 2004 do Poder Executivo que “dispõe sobre a instituição do Programa Universidade para Todos”.

 

 

ABMES LANÇA PRÊMIO MILTON SANTOS DE EDUCAÇÃO SUPERIOR

O geógrafo Milton Santos –  que dá nome ao Prêmio criado pela nova diretoria da ABMES, no dia 15 de junho de 2004 – nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, em 1926. Era professor emérito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Faleceu em São Paulo, no dia 24 de junho de 2001.

Sua vasta obra,  ainda pouco conhecida e estudada no Brasil, revoluciona não apenas a Geografia mas as ciências humanas e sociais. Com sua genial conceituação do espaço geográfico, Milton ofereceu a possibilidade de se compreender a totalidade do mundo. Abordou, como ninguém,  a problemática da urbanização no Terceiro Mundo, a teoria e a metodologia geográficas, temas sobre os quais publicou mais de quarenta livros e cerca de 300 artigos, traduzidos para o espanhol, francês, inglês e japonês. Ensinou em diversas universidades na Europa, África, América do Sul e América do Norte.

Dentre as honrarias recebidas em reconhecimento ao seu trabalho intelectual, destacam-se os títulos de Doutor Honoris Causa de inúmeras universidades no Brasil e no exterior e o Prêmio Vautrin Lud, correspondente ao “Prêmio Nobel” da Geografia. Milton Santos foi o único pesquisador fora do mundo anglo-saxão a receber tal prêmio.

A ABMES teve a honra de contar com a inestimável colaboração de Milton Santos em várias oportunidades. Proferiu nesta entidade conferências, promoveu calorosos debates sobre suas idéias, como um intelectual independente — Ele dizia: “não pertenço a nenhum grupo, a nenhum partido e não pratico nenhuma forma de militância. Minha única militância são as idéias”. A ABMES Editora publicou dois trabalhos de Milton Santos. (www.abmes.org.br)

Obras de Milton Santos

A Edusp reeditou quatro títulos da obra de Milton: A natureza do espaço; Por uma geografia nova; Economia Espacial; O espaço dividido e Pensando o espaço do homem.  (divulga@edu.usp.br). A Editora da Unesp, Séries Perfis, publicou MS testamento intelectual (entrevista não concluída e um depoimento inacabado). A Editora Perseu Abramo publicou MS e o Brasil (resultado de um colóquio realizado em julho de 2002, em Salvador). Ver ainda o site www.territorial.com.br

Prêmio Milton Santos de Educação Superior

 

 

Professor Haroldo Cruz morre aos 80 anos

Faleceu, na tarde do dia 7 de junho, aos 80 anos,  reitor  do Centro Universitário de Barra Mansa, Haroldo Carvalho Cruz. Advogado e professor, criou a Escola Técnica de Comércio, atual Sabec, em Barra Mansa e a Sociedade Barramansense de Ensino Superior (Sobeu). Cruz foi também um dos fundadores do Sistema Sul Fluminense de Comunicação. Era membro da Provedoria da Santa Casa de Misericórdia e fundador do Sindicato do Comércio Varejista de Barra Mansa. Foi presidente da Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de Barra Mansa (Aciap), sendo membro do seu Conselho.

 

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