Brasília,
Abril-Maio-Junho 2002
Balanço
dos sete anos: realizações e lacunas
O
primeiro seminário do Ciclo de Debates sobre Políticas Públicas
de Educação Superior – Balanço dos sete anos de políticas
públicas de educação superior: realizações e lacunas – ocorreu
no dia 3 de abril de 2002, em Brasília.
Participaram
dos painéis Abílio Baeta Neves, presidente da Coordenação
de Apoio ao Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes);
Ulysses Panisset, então presidente do Conselho Nacional de
Educação (CNE), Maria Helena Guimarães de Castro, presidente
do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
(Inep); Francisco César de Sá Barreto, secretário da Secretaria
de Educação Superior (SESu//MEC); Arthur Roquete de Macedo,
presidente da Câmara de Educação Superior do CNE e Divonzir
Gusso, coordenador de Estudos Setoriais do Ipea.
Nina
Ranieri da Universidade de São Paulo, Cláudio de Moura Castro
do Grupo Pitágoras e Simon Schwartzman do AIR/Brasil foram
os debatedores.
Abílio
Baeta Neves falou das realizações da Capes nos dois governos
FHC. “Nestes sete anos fizemos coisas com sentido e orientação”.
Segundo sua análise, a avaliação da pós-graduação promoveu
resultados importantes: fundamentou o aparecimento da
cultura da avaliação no Brasil e esteve associada ao fomento,
ao investimento e à indução da melhoria, tornando-se reconhecida
mundialmente. Abílio considerou, dentre outros aspectos, a
necessidade de abertura da pós-graduação ao mercado não acadêmico;
a flexibilização e a ampliação do modo de financiamento das
propostas das IES públicas e privadas e a elaboração de um
novo Plano Nacional de Pós-Graduação.
Ulysses
Panisset fez um relato histórico das reformas da educação
superior no país, além de constatações significativas. “Cerca
de 97% das crianças foram colocadas na escola e desenvolveu-se,
de maneira extraordinária, o ensino médio, acompanhado de
uma demanda enorme para o ensino superior”. Panisset recomendou
que a ABMES “reúna as lideranças do ensino superior brasileiro,
visando a evitar a competição destrutiva que está acontecendo
no Brasil”, chamada por ele de “verdadeira antropofagia.”

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Ulysses
Panisset
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Maria
Helena Guimarães de Castro observou que a continuidade de
gestão verificada no governo FHC trouxe novidades para a educação
brasileira, dentre as quais o fortalecimento do que foi proposto
e implementado, tais como o aumento do orçamento do Inep;
a implementação de um sistema de estatísticas educacionais
– “indispensável para pensar e organizar sistemas de avaliação
para a educação básica e a educação superior” e a criação
e execução do Exame Nacional de Cursos (ENC, o Provão) e do
Ensino Médio (Enem), hoje legitimados pelas IES e pela sociedade.

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Maria
Helena Guimarães de Castro
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Simon
Schwartzman observou que o MEC não é mais “uma carta de negociação
política partidária, com efeitos desastrosos”. Para ele, ao
longo do governo FHC, o MEC desenvolveu políticas, metodologias,
procedimentos e adquiriu uma cultura de incorporação de competências.
Destacou, no entanto, a necessidade de se avançar na área
da autonomia universitária – “nós tivemos um projeto de uso
mais adequado de recursos que ficou pelo meio do caminho”;
as IES não têm incentivos para tirar o que é ruim e investir
no que é bom”.
A
definição do papel do ensino superior público no quadro atual;
o atendimento adequado à população que está entrando no ensino
superior – “para que não largue o curso no meio do caminho”;
a criação de sistemas de avaliação, evitando-se o monopólio
do governo nessa área; o pagamento do ensino por quem possa
pagar, associado a um sistema de crédito educativo,
foram propostos por Schwartzman.

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Simon
Schwartzman
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Claudio
Moura Castro afirmou que o MEC buscou reverter os problemas
estruturais do ensino superior, mas nem sempre com sucesso.
Segundo ele, existe um problema crônico: a falta de diferenciação
entre o topo e a base. “Definiu-se a qualidade como se fosse
uma dimensão única. O ensino para a superelite é exatamente
o mesmo oferecido a pessoas que mal sabem ler e escrever.”
O
Provão, com todos os seus méritos, tira flexibilidade e “trava”
a elaboração de currículos mais compatíveis com a realidade
dos alunos. A volta à educação geral pode ser uma reação importante.
“Falta ênfase em ler, em escrever, em pensar, em resolver
problemas, em ser culto e em ser bom cidadão”. Claudio chamou
a atenção de todos para a necessidade de se pensar a relação
tumultuosa entre ensino e pesquisa; de implementar o mestrado
profissional; de gerir os orçamentos das universidades; de
associar avaliação e premiação. Finalmente, Claudio destacou
a importância do ensino privado e as dificuldades pelas quais
passa este setor. “É preciso cuidar do abuso e não acusar
o uso”, finalizou.
A função
regulatória do MEC
Francisco
César de Sá Barreto abordou o novo modelo de supervisão
do ensino superior, estabelecendo comparações com os procedimentos
adotados em gestões anteriores. Na sua administração, Sá Barreto
pretende: evitar o excesso de procedimentos burocráticos;
reforçar a base de dados sobre as IES e adotar procedimentos
sistemáticos de supervisão e avaliação. Haverá, segundo ele,
uma reformulação total na composição das comissões de especialistas
– serão substituídas por comitês técnicos – para que possam
subsidiar as deliberações do CNE. Além disso, a SESu promoverá
a regulamentação da educação a distância; redefinirá os procedimentos
de autorização para os cursos de especialização; reformulará
os cursos de formação de professores e promoverá a expansão
do sistema.
Arthur
Roquete de Macedo enfatizou o papel do CNE como órgão de Estado
e não de governo. Como tal, o Conselho desenvolveu um trabalho
articulado à SESu e ao Inep e colaborou na definição das políticas
e diretrizes estabelecidas para o ensino superior. Dentre
as principais realizações do CNE, Roquete destacou a definição
das diretrizes curriculares; os avanços do processo de recredenciamento
– “evoluímos tanto que existe uma possibilidade de recredenciamento
voluntário”. Defendeu as propostas de inclusão da nota obtida
no Provão no histórico escolar do aluno e a transformação
do processo de recredenciamento em aprimoramento do sistema
e não de punição das IES.

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Arthur
Roquete de Macedo
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Divonzir
Gusso delineou um cenário dos problemas que vêm se acumulando
ao longo de nossa história, como o ponto de partida para o
desenho de cenários futuros na área educacional. Neste sentido,
abordou diversas questões dentre as quais os desafios da expansão,
o mercado, a oligolopolização do mercado, o financiamento,
a formação professores e o desenvolvimento da pesquisa.
Nina
Ranieri analisou as dificuldades de regulação de um sistema
de ensino superior brasileiro diversificado e heterogêneo.
“O governo tem mantido sempre a mesma postura de centralização
e de controle, conflitando com a autonomia das universidades
públicas e particulares, em razão da autonomia das associações
e sociedade civis, ambas garantidas pela Constituição.” Dentre
a recomendações de Nina, destacaram-se a quebra do monopólio
da avaliação feita pelo governo; o desenvolvimento de novas
formas de financiamento do sistema e a criação de competências
na área de pesquisa.
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Nina
Ranieri
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