DIRETRIZES CURRICULARES PARA OS CURSOS
DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
JOSÉ MARQUES DE MELO*
1. O campo da comunicação
Ao definir Comunicação como “processo social básico”,
Wilbur Schramm (1954) vislumbrou um “campo científico”
(Bordieu, 1983) caracterizado por amplitude cognitiva e pluralidade
metodológica. Por isso mesmo, alguns anos depois, ao revisar
o avanço das pesquisas na área, ele exortaria os comunicólogos
a não considerá-la como seu “território exclusivo”
de estudos. Seu argumento era o de que a natureza dos fenômenos
comunicacionais os convertia necessariamente em “focos
de interesse” de qualquer “disciplina relacionada
com a sociedade humana e o comportamento humano”. (Schramm,
1972:6-7)
Na verdade, as ações comunicacionais dos seres humanos já
vinham sendo objeto de reflexões teóricas ou de observações
empíricas no âmbito das universidades, em disciplinas como
Linguística, Educação, Psicologia, Antropologia etc. Isso,
bem antes da emergência da nova área acadêmica, à qual os
alemães se referem inicialmente como zeitungwisesnchaft e
depois publizistik. Que os franceses denominariam information.
E os norte-americanos chamariam simplesmente de mass communication
ou media. (Marques de Melo, 1970: 35-83)
Essa identidade acadêmica traduzia a vocação típica dos estudos
relacionados com o jornalismo, a propaganda, o divertimento
e a teleducação. Correspondendo às funções essenciais dos
mass media enquanto instituições sociais (McQuail, 1994:11-22),
eles foram agrupados no segmento das “Ciências Sociais
Aplicadas”. Seus quadros de referência encontravam-se
no âmago do sistema produtivo. Ou seja, nas rotinas das empresas
produtoras e distribuidoras de bens simbólicos (jornais, emissoras
de rádio ou televisão, editoras de livros e revistas, casas
cinematográficas, agências de propaganda etc.). Aquelas que
osfilósofos da Escola de Frankfurt rotulariam como “indústria
cultural” (Horkheimer e Adorno, 1970: 7-14).
Não é sem razão que os cursos pioneiros atuam como instâncias
de formação profissional, de certo modo reproduzindo os paradigmas
vigentes na indústria. São modelos que haviam sido codificados
ou normatizados pelas corporações midiáticas. O corpo docente
que os difundia fora recrutado segundo critérios de competência
ocupacional.
Só mais tarde a pesquisa dos fenômenos comuni-cacionais ocuparia
espaço nas atividades universitárias, ensejando equilíbrio
entre prática e teoria. Tais estudos assumem a tendência do
experimentalismo ou da pesquisa aplicada (Balle, 1997: 22)
– testando em laboratórios ou submetendo a observações
empíricas os modelos oriundos do mercado, para melhorá-los,
atualizá-los, renová-los.
Mas a delimitação de fronteiras entre os campos acadêmicos
não significou o distanciamento das emergentes Ciências da
Informação e da Comunicação (Mucchelli 1995: 7-10; Lazar,
1992) em relação às Ciências Sociais Básicas (História, Sociologia,
Antropologia, Politicologia). Nem tampouco em relação às humanidades
(Filosofia, Literatura, Belas Artes). Lembre-se que os primeiros
cursos, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos da América,
estão inseridos nas universidades. O que permitia aos estudantes
das escolas de Jornalismo, Cinema, Editoração, Relações Públicas,
Radio-tele-difusão ou Publicidade a circulação pelas áreas
conexas. Esse contacto deu-se em vários sentidos. A assimilação
dos conteúdos inerentes às mensagens. O aprendizado das metodologias
indispensáveis à sua produção e difusão (estética, linguagem,
tecnologias, mercadologias). A compreensão das teorias relativas
aos efeitos sócio-culturais dos sistemas midiáticos (Nixon,
1963). O perfil profissionalizante de tais cursos (Benito,
1982: 219-249), previamente demandados e continuamente mantidos
sob a vigilância das corporações respectivas (jornalistas,
publicitários, cineastas etc), deu-lhes uma grande vitalidade.
A cooperação com o sistema produtivo (empresas midiáticas),
resultou em estágios, intercâmbios, financiamento de pesquisas.
Não obstante ocupassem o mesmo espaço acadêmico - faculdade
ou instituto - e partilhassem o terreno comum dos suportes
de difusão - os meios de comunicação de massa - os cursos
sempre mantiveram autonomia didática. Destinando-se a formar
profissionais, preservaram a heterogeneidade de ofícios. Daí
a observação de Alba y Buenaventura (1997: 15): “É comum
ver nos Estados Unidos, por exemplo, que as universidades
separam o que as universidades latino-americanas tendem a
aglutinar: jornalismo, cinema, televisão e os communication
studies”.
Quando a América Latina1 transplanta os modelos europeus
ou norte-americanos de ensino de Comunicação2 , vários obstáculos
se interpõem. Um deles foi a ausência de tradição interdisciplinar
nas nossas universidades (Cunha, 1980), estruturadas como
“conglomerados de faculdades”. Isso inviabilizou
a circulação dos estudantes pelas áreas conexas, estreitando
a grade curricular em função das disponibilidades existentes.
Outra dificuldade foi a ausência de pesquisa institucionalizada.
As nossas instituições de ensino superior limitavam-se a formar
recursos humanos, moldados quase sempre à imagem e semelhança
dos conhecimentos importados d’além mar. (Teixeira, 1989).
Isso representou um fosso entre o curso e a profissão, tendo
em vista a inexistência de trabalhos laboratoriais. Mais grave
ainda foi a tradição regulamentadora exercida pelos aparatos
burocráticos do Estado. Isso inibiu a criatividade universitária
(Wanderley, 1983) e “engessou” os currículos (LINS
DA Silva, 1979) segundo modelos pensados de forma centralizada
para vigência nacional.
Em conseqüência, houve uma atrofia no perfil profissional,
produzindo conflitos entre as universidades e as corporações
midiáticas. Estas, de um modo ou de outro, refugaram os diplomados
pelos cursos de comunicação. O fenômeno foi menos intenso
no Brasil do que nos países hispano-americanos.
Ali, a partir dos anos 70, as universidades adotaram o modelo
do comunicador polivalente. Refluem em certo sentido à tendência
à especialização que dominava nas indústrias do ramo. Embora
o Brasil tenha começado a trilhar caminho semelhante, houve
uma reviravolta precoce. Liderada pelas corporações midiáticas,
manteve-se a tendência à formação de comunicadores especializados.
Como de resto ocorria no Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália
e outros países desenvolvidos (Marques de Melo, 1991, 1992).
Assim sendo, a tradição brasileira de formar “comunicadores
sociais” habilitados ao exercício das profissões legitimadas
pela sociedade (Jornalistas, Publicitários, Relações Públicas,
Radialistas, Cineastas, Produtores Editoriais) permaneceu
vigente, apesar das distorções introduzidas pela legislação
emanada do antigo CFE - Conselho Federal de Educação. O cerne
da questão reside, até agora, na imposição de um currículo
para todo o país, impedindo que os cursos de comunicação experimentassem
alternativas diferenciadoras, a partir das demandas locais/regionais.
Além disso, a legislação posterior aos anos 80 criou uma “camisa
de força”, exigindo uma multiciplicidade de “disciplinas”.
Impôs-se um “currículo máximo” quando sua destinação
era a de “currículo mínimo”. (Kunsch, 1986 e 1992;
Marques de Melo, Lins da Silva e Fadul, 1979 e 1991)Situação
menos confortável foi a “pasteurização” estabelecida
através do desconhecimento das identidades ocupacionais. Eliminou-se
a autonomia dos cursos profissionalizantes (Jornalismo, Cinema,
Relações Públicas, Publicidade etc.), reduzidos a habilitações
artificialmente agregadas a um “megacurso” de Comunicação
Social. Em menor escala, essa diretriz correspondeu ao perfil
do “comunicador polivalente” hispano-americano.
Se as conseqüências não foram tão negativas isso deve-se
ao “jeitinho brasileiro”. Em outras palavras, o
currículo mínimo instaurado para os Cursos de Comunicação
nos anos 80-90 tornou-se uma espécie de “lei para inglês
ver”. A resistência da comunidade acadêmica transformou
o “ciclo básico” em “tronco comum”. Mesmo
assim oferecido separadamente em grande número de instituições.
Dessa maneira, o vestibular antes feito para o “campo”
da Comunicação Social, acabou sendo substituido pelo exame
seletivo vinculado a cada habilitação. Tal estratégia foi
determinada pela grande evasão ocorrida em várias universidades.
Os estudantes vocacionados para uma determinada profissão
não tiveram paciência de esperar dois anos pelos conhecimentos
específicos que demandavam vocacionalmente (Pasquali, 1987).
Em decorrência disso, a formação humanística, indispensável
aos profissionais de qualquer segmento comunicacional (Amaral
Vieira, 1978) ficou estigmatizada. Reduziu-se, com raras exceções,
a um enciclopedismo estéril e até mesmo inútil. Finalmente,
cabe referir ao exagero das “ementas” fixadas para
todas as disciplinas do currículo. Uma quase prisão destinada
aos docentes, suprimindo a “liberdade de cátedra”.
Também isso foi contornado. O “controle” institucional
é inviável dentro da sala de aula. A maioria dos professores
manteve fidelidade às ementas somente no “papel”,
ou seja, nos programas arquivados na secretaria do curso.
Mas nas classes ministraram livremente os conteúdos preferidos.
Parece que chegamos ao fim desse “beco sem saída”,
caracterizado pelo “salve-se quem puder”. Comportamento
típico daquela “universidade em ritmo de barbárie”
(Giannotti 1986).
2. Novas diretrizes curriculares: idéias para o debate
Ao instituir a liberdade curricular para as universidades,
a nova LDB pode ser um instrumento útil ao aperfeiçoamento
dos cursos de Comunicação. Ela dá “solidez ao sonho”
(Vogt, 1993) acalentado pela nova geração de acadêmicos forjados
em muitas escolas. Especialmente aqueles que não perderam
de vista o seu compromisso com as demandas da sociedade.
Deseja-se que as “diretrizes curriculares” a serem
estabelecidas pelo CNE fortaleçam a autonomia universitária.
De modo a permitir que cada instituição experimente o caminho
mais consentâneo com sua vocação comunitária. (Niskier, 1996:
225) Mas, ao mesmo tempo, espera-se que ela seja flexível.
De modo a garantir aos alunos o exercício da liberdade intelectual.
Estimulando-os a compor a grade didática com disciplinas escolhidas
de acordo com as preferências individuais (Schawarz, 1984)
Atendidas essas condições que extrapolam o campo da Comunicação,
torna-se indispensável discutir quais as nossas especificidades.
E incluí-las no bojo das novas diretrizes curriculares. Quais
as questões prioritárias ?
2.1 - Campo acadêmico: identidade e fronteiras
Enquanto objeto de estudo, a Comunicação tem sido alvo de
interesse de inúmeras disciplinas científicas, que a refletem
teoricamente e analisam empiricamente, a partir dos seus respectivos
paradigmas. Mas enquanto campo acadêmico (Miége, 1995), sua
identidade tem se caracterizado pelo delineamento de fronteiras,
estabelecidas em função dos suportes tecnológicos (mídia)
que asseguram a difusão dos bens simbólicos e do universo
populacional a que se destinam (comunidades / coletividades).
Assim sendo, trata-se de um campo delimitado por duas variáveis:
2.1.1 - A indústria midiática (orgnizações
manufatureiras ou distribuidoras de cultura: jornal, livro,
revista, rádio, televisão, cinema, vídeo, disco e congêneres,
além dos intrumentos telemáticos em processo de configuração);
2.1.2 - Os serviços midiáticos (empresas terciárias, dedicadas
ao planejamento, produção e avaliação de mensagens, dados
e informações a serem difundidos pela mídia ou a ela concernentes
– anúncios, campanhas, pesquisas, divertimentos etc ).
A principal fronteira é a que decorre dos limites entre dois
segmentos.
De um lado, os atos de comunicação interpessoal (tradicionalmente
objetos de estudos das Ciências da Linguagem ou das Ciências
do Comportamento) e os atos de Comunicacão Grupal (geralmente
privilegiados pelas Ciências da Educação ou pelas Ciências
da Administração).
De outro lado, os atos de comunicação comunitária (circunscritos
a organizações complexas ou a espaços geográficamente contíguos,
cuja abrangência pressupõe o uso de suportes tecnológicos
de alcance reduzido) e os atos de comunicação pública (mediados
por tecnologias de largo alcance e disponíveis para todos
os membros da coletividade abrangidos pelo raio de audiência
do canal). Se, estes últimos eram processos historicamente
sem retro-alimentação, hoje as inovações tecnológicas restauram
a interatividade, que possibilita o diálogo imediato, mas
nem sempre instantâneo, entre emissor e receptor).
O campo acadêmico da Comunicação Social corresponde a êsse
segundo segmento, incluindo os atos de comunicação comunitária
(comunicação organizacional, comunicação corporativa, comunicação
institucional) e os atos de comunicação pública (comunicação
massiva, comunicação mercadológica, cibercomunicação). Trata-se
de um campo vocacionado para a interdisciplinaridade, na medida
em que seus objetos específicos são produtos cujo conteúdo
está enraizado no território das demais disciplinas que constituem
o universo científico. Além disso, os bens culturais que fluem
através dos suportes midiáticos penetram no tecido social,
constituindo estímulos para observações empíricas das ciências
da sociedade. Tais conhecimentos servem como fonte permanente
de retroalimentação dos processos produtivos no âmbito das
indústrias midiáticas.
Nesse sentido, as Ciências Sociais representam fontes de
conhecimento básico, das quais os midiólogos, enquanto produtores
de conhecimentos aplicados, não podem prescindir.
Assim sendo, a Comunicação Social tem um perfil multifacético,
englobando as diferentes profissões que gravitam em torno
das indústrias e serviços midiáticos. No quadro atual da sociedade
brasileira estão plenamente configurados, em decorrência de
regulamentação legal (Santos, 1995), quatro núcleos profissionais:
Jornalismo
Publicidade e Propaganda
Relações Públicas
Radialismo e Teledifusão Conquistaram legitimação universitária,
mas não alcançaram ainda status corporativo, três núcleos
profissionais
Cinematografia
Videoplastia
Editoração Existem, contudo, espaços atomizados de atuação
profissional, ainda não estruturados corporativamente, nem
reconhecidos pela academia, mas demandados crescentemente
pelas indústrias/serviços midiáticos:
Entretenimento massivo
Teleducação
Divulgação científica
Mediação cultural
Comunicação organizacional
Comunicação educativa
Informação on line
Pesquisa midiática
Sondagem de opinião Trata-se de um conjunto de nichos
profissionais a ser contemplado pelos currículos dos Cursos
de Comunicação, naturalmente de acordo com a vocação de
cada universidade, em consonância com as demandas do seu
entorno comunitário.
2.2 - Universo cognitivo: emba-samento curricular
A formação dos profissionais da Comunicação Social pressupõe
três blocos cognitivos a serem dinamicamente articulados:
2.2.1. Os conceitos comunicacionais que
demarcam a identidade do campo acadêmico (embasados na “teoria
da comunicação de massas” e na “estrutura dos sistemas
midiáticos (indústrias/serviços)”) e dos respectivos
segmentos ocupacionais (construidos historicamente pelas corporações
e renovados pelas evidências empíricas sitematizadas pela
universidade, bem como pelas agências de pesquisa em funcionamento
no interior das indústrias midiáticas ou das prestadoras de
serviços).
2.2.2. Os processos midiáticos que configuram
a produção, difusão e avaliação dos bens culturais correspondentes
a cada segmento ocupacional, inclusive as rotinas profissionais,
as linguagens, tecnologias e preceitos legais, os métodos
de planejamento e gestão, bem como os instrumentos de retroalimentação,
no sentido de manter plena sintonia entre as expectativas
do mercado consumidor e as estratégias dos produtores culturais
e dos patrocinadores.
2.2.3. Os conteúdos culturais que dão sentido
às mensagens implíticas nos bens simbólicos construidos e/ou
difundidos pelas indústrias/serviços midiáticos. Trata-se
do domínio de conhecimentos enciclopédicos (visão geral da
sociedade e dos seus pilares estruturais: História, Política,
Economia, Cultura, Relações Sociais) ou especializados (disponíveis
no estoque cognitivo das Ciências e das Artes).
As três dimensões devem compor necessariamente a grade curricular
dos Cursos de Comunicação Social, sendo recomendável que sua
estrutura resulte de um diálogo permanente entre a universidade,
as indústrias/serviços midiáticos e as corporações profissionais.
3. Estratégias de ensino-aprendizagem: implementação
curricular
Em se tratando de um campo profissio-nalizante, fincado no
segmento das Ciências Sociais Aplicadas, a implementação do
currículo dos Cursos de Comunicação deve considerar as seguintes
variáveis:
3.1. Sintonia entre os processos didáticos e a natureza
de cada curso.
Neste sentido é recomendável a adoção de estratégias pedagógicas
aglutinadoras dos três núcleos cognitivos, evitando-se a atomização
das unidades de ensino e a justaposição entre conceitos, processos
e conteúdos. Trata-se de amalgamar as partes em função de
projetos laboratoriais, que possam simular ou reproduzir atos
de comunicação, ensejando uma percepção integral da dinâmica
produtiva;
3.2. Para tanto, torna-se imprenscindível
a disponibilidade de laboratórios e equipamentos compatíveis
com a natureza de cada segmento profissional. Não se trata
de reproduzir nas diretrizes curriculares a descrição da infra-estrutura
a ser construida para os cursos, embora seja indispensável
garantir a sua existência para evitar o retorno às situações
vividas nos tempos pioneiros desse campo acadêmico, quando
predominava o ensino verboso e livresco, tornando abstrata
a aprendizagem. Também não se recomenda o reducionismo didático
aos âmbito dos laboratórios, estimulando um produtivismo estéril,
sendo desejável uma interação crítica entre produção e reflexão.
Neste sentido é que a pesquisa pode ser introduzida como instrumento
pedagógico dinamizador, avaliando os processos de produção
e gerando insumos para novos experimentos e trabalhos de campo.
O atual currículo mínimo estabelece um requisito a ser preservado
nas novas diretrizes curriculares. Trata-se do Projeto Experimental
requerido no último semestre do curso. Sua prática demonstrou
uma grande utilidade como passaporte para o mercado de trabalho,
sempre que realizado com disciplina, criatividade e eficácia.
Mas também revelou profunda discrepância entre as diretrizes
originais e as opções adotadas pelas universidades, sendo
sua principal falha a carência ou fragilidade da orientação
proporcionada pelos docentes aos alunos concluintes (Targino
e Magalhães, 1993). No entanto, se forem aplicados padrões
de qualidade como os propostos por França e Gomes (1997),
os projetos experimentais podem ser revitalizados, convertendo-se
em suportes adequados para a síntese cognitiva das informações
adquiridas pelos alunos ao longo do curso, capacitando-os
para ser ao mesmo tempo produtores e inovadores comunicacionais;
3.3 O ponto de partida para a organização
da grade curricular deve ser necessariamente o entorno local/regional
em que os cursos estão situados. Afinal de contas é nas indústrias/serviços
da cidade/região que os novos profissionais buscarão o primeiro
emprego. Todavia, não se deve esquecer que os processos comunicacionais
estão sendo submetidos a constante pressão nacionalizadora/mundializadora.
Isto se reflete nitidamente nas rotinas produtivas. Daí a
preocupação constante da equipe docente em manter-se sintonizada
com as tendências nacionais/globais, desprovin-cianizando
a formação profissional, inclusive porque é legítima a aspiração
dos jovens profissionais para galgar postos de trabalho nas
empresas que encabeçam as redes midiáticas às quais estão
vinculados os meios locais/regionais;
3.4. Em se tratando de um universo ocupacional
em acelerado processo de mutação, como decorrência das inovações
tecnológicas, das mudanças econômicas e das transformações
culturais, não se justifica manter os cursos de graduação
com a longa duração que hoje possuem. Experiências testadas
em outros países demonstram que os ofícios midiáticos podem
ser ensinados/aprendidos na universidade em regime de curta
duração, dependendo evidentemente da bagagem cognitiva de
cada aluno. Muitos estudantes que se inscrevem nos cursos
de Comunicação são originários de outras carreiras, carregando
portanto um capital cultural que deve ser potencializado.
Ao invés de condená-los à frequência a disciplinas cujo conhecimento
eles já adquiriram ou que não correspondem ao seu universo
de expectativas para o exercício profissional, seria preferível
dar-lhes a oportunidade de avaliação formal e, se considerados
aptos, reduzir-lhes as exigências de conteúdo. Da mesma forma,
convém pensar em estratégias de interconexão entre graduação
e pós-graduação, entre graduação e extensão, eliminando obstáculos
pedagogicamente inconsistentes. Também é imprescindível organizar
programas de estágios supervisionados nas empresas, como recurso
destinado a aproximar os alunos do mercado de trabalho real,
ensejando-lhes muitas vezes o primeiro emprego. Tal mecanismo
pode servir ainda para a universidade captar as novas tendências
do mercado, suprindo deficiências de conteúdo das atividades
de ensino.
4. Acolhida às novas profissões: renovação curricular
Tem sido tradição no nosso país a indiferença ou a resistência
da universidade às novas profissões. Somente quando são regulamentadas,
as novas carreiras se organizam para forçar as portas da universidade,
logrando inclui-las no seu elenco curricular.
Assim também tem sido no caso da Comunicação Social. Algumas
dessas profissões continuam em ascensão nos meios acadêmicos
- casos típicos da Propaganda e do Jornalismo. Outras quase
não vingaram - caso da Produção Editorial. Há também as que
permanecem estacionárias - caso das Relações Públicas. (Marques
de Melo, 1997) Agora, com a perspectiva de autonomia curricular,
os currículos desses cursos devem passar por revisões profundas,
acompanhando os parâmetros aqui esboçados.
Mas é imprescindível que as universidades tenham sensibilidade
para acolher as profissões emergentes neste campo acadêmico.
Da mesma forma, justifica-se desativar ou transformar aquelas
cujas demandas ocupacionais encolheram ou se reduziram. Há
casos em que é possível suprimir o curso, mantendo interesse
pela profissão com um programa de pesquisas. Trata-se, em
verdade, de preservar o diálogo entre as instituições acadêmicas
e as comunidades a que servem e das quais recebem os subsídios
para manter-se.
Vivemos uma conjuntura marcada pela ascensão da “sociedade
da informação” como decorrência da expansão das novas
tecnologias de reprodução simbólica. A ela correspondem várias
profissões ainda não plenamente configuradas. Em abril de
1999, realiza-se em Montreal, Canadá, a Conferência Mundial
da Orbicom - Rede Unesco de Cátedras de Comunicação - com
a finalidade de analisar as mutações profissionais resultantes
da fusão entre as indústrias/serviços midiáticos e a telemática,
bem como as demandas para midiastas e midiólogos com perfil
globalizante. Cabe aos dirigentes dos Cursos de Comunicação
no Brasil descobrir as evidências desses fenômenos e dar-lhes
resposta imediata. A rapidez com que se processam hoje as
mudanças no âmbito da midia e das tecnologias que lhe dão
suporte exige constante atualização dos currículos, das estratégias
de ensino/aprendizagem e naturalmente a reciclagem do corpo
docente.
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* Diretor do Centro de Comunicação e Artes e Titular
da Cátedra Unesco da Comunicação da Universidade Metropolitana
de São Paulo. Professor Titular, aposentado, e ex-Diretor
da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.
1 Para uma visão panorâmica dos modelos de ensino de Comunicação
que prevalecem nos países hispano-americanos recomenda-se
como fontes de referência as obra de Fuentes Navarro, 1991
e 1992, que resgatam de certo modo as propostas respaldadas
pela FELFACS – Federação Latino-Americana de Associações
de Faculdades de Comunicação Social. 2 No Brasil, os Cursos
de Comunicação surgiram isoladamente como cursos superiores
de Jornalismo, Cinema, Publicidade ou Relações Públicas. A
primeira tentativa de aglutiná-los numa mesma unidade de ensino
ocorreu na Universidade de Brasília, sob a inspiração de Pompeu
de Souza (1965: 53-64) , que propôs a Darcy Ribeiro e seus
continuadores a criação de uma Faculdade de Comunicação de
Massa. Seu escopo estava bem delimitado, a exemplo do que
já ocorria nas universidades de Stanford (USA), Sussex (Inglaterra),
Bruxelas (Bélgica) e Paris (França): “Dedicar-se-á, pois,
a Faculdade de Comunicação de Massa ao estudo e ensino das
ciências, artes e técnicas concernentes a todos os veículos
e instrumentos que, transmitindo informação, opinião, sugestão,
recreação e arte, em escala industrial, intra-relacionem e
inter-relacionem as massas humanas, recebendo e exercendo
influências geradoras ou condicionadoras de estados-de-espírito
coletivos das mesmas. Estudará e ensinará, portanto, a melhor
utilização de todos estes veículos e instrumentos: jornais,
revistas e periódicos de toda natureza, agências noticiosas,
agências de publicidade e propaganda, rádio, cinema, televisão,
ou, ainda, outros quaisquer que o progresso da tecnologia
venha a criar ou desenvolver.” Frustado pelo golpe militar
de 1964, o projeto de Darcy Ribeiro / Pompeu de Souza viria
a ser retomado pela Universidade de São Paulo, quando se cria
ali, em 1966, uma Escola de Comunicações Culturais, embrião
da hoje ECA-USP (Marques de Mello, 1974).