TEXTO DOS CONFERENCISTAS
DIRETRIZES CURRICULARES PARA OS CURSOS DE ADMINISTRAÇÃO
ÁLVARO JOSÉ CUNHA*
Este estudo tem com objetivo deflagrar um processo de reorientação
do ensino superior, com vistas a promover diretrizes que possam
nortear a reordenação dos currículos plenos, incorporando
maior conhecimento multidisciplinar requerido pelas empresas
para atender ao grau de complexidade crescente de seus negócios
em uma economia globalizada e local.
As instituições de ensino superior, uma vez mais, defrontam-se
com indicadores de uma nova era de descontinuidade, na qual
vivem-se momentos de negócios dinâmicos que requerem novas
arquiteturas, estratégias, e culturas organizacionais. Esse
emergente cenário organizacional e administrativo, que se
nos apresenta, exige perspectivas totalmente novas que superem
as posturas tradicionais do passado e identifiquem ações a
serem promovidas no presente para construir um marco vitorioso
no futuro. Dentre as várias perspectivas possíveis, torna-se
oportuno para os propósitos deste seminário identificar e
destacar dois pontos de referências para nossas reflexões.
1. Redefinição das empresas e de seus negócios
Existe consenso entre os pensadores mais destacados do mundo
dos negócios que as tradicionais configurações empresariais
são frágeis e inadequadas para as atuais condições. Entretanto,
as projeções de novas arquiteturas, ainda que em números pouco
significativos, têm sido mais desenvolvidas em meios acadêmicos
do que no âmbito de empresas, em face de suas complexidades
operacionais. Raros mesmo são os empresários que têm adotado,
formatações organiza-cionais flexíveis e dinâmicas, virtuais,
estruturadas em redes, apesar de conhecerem as limitações
da estrutura departamental, em suas várias configurações,
e dos tradicionais princípios de administração e organização.
A maioria dos empresários não deseja modificar ascaracterísticas
ideológicas das teorias e práticas de administração que sustentam
o seu poder, ainda que ambíguas e entremostrem contradições
em suas aplicabilidades. Assim, apesar das idéias predominantes
sobre o futuro das empresas e de seus negócios, é provável
que as habituais estruturações piramidais continuem a ser
adotadas pelas empresas. Todavia, não é mais admissível permitir
que o passado impeça uma inovadora jornada para o futuro,
já que o futuro, além de dificilmente copiar o passado, não
mais pode ser alcançado por um caminho certo, seguro, linear.
Neste novo período da administração de empresas, o acesso
ao futuro só pode ser obtido por meio de veredas, continuamente
construídas ou reconstruídas, que assegurem e sustentem uma
posição de referência, por períodos de tempo imprecisos e
descontínuos, neste mundo confuso e incerto, inseguro, e dinâmico.
Há de se trilhar, como afirma Alvim Toffler, uma “terra
incógnita”, construindo-se, incessantemente, caminhos
próprios que possam superar a certeza da ocorrência de sucessivas
restrições situacionais. Não é cedo demais para se começar
a pensar na forma em que o sistema empresarial possa ser melhorado.
Idéias novas sobre o assunto poderão ter efeitos benéficos
sobre a travessia para o próximo milênio sem a ocorrência
de crises. Isto exigirá dos empresários questionamentos de
algumas das doutrinas e diretrizes sobre as quais alicerçam
suas gestões empresariais. Está na hora de reconhecer os defeitos
da comunidade empresarial e reconsiderar posturas arraigadas.
Charles Handy, um filósofo da cultura empresarial, em seu
artigo sobre o tema “Encontrar sentido na incerteza”,
expressa seu pensamento a respeito de uma organização flexível,
na forma de redes, a partir de um pequeno centro de pessoas-chave
que proporcione uma competência durável e mantenha todo um
conjunto de atividades unido, ao redor do qual, em um espaço
aberto, gravitam atividades operacionais de suporte e uma
série de alianças com organizações fornecedoras, distribuidoras,
com profissionais independentes, força de trabalho permanente
e transitória, clientes etc.. Para Charles Handy o grande
desafio das organizações do século XXI “será conseguir
equilibrar suas atividades: o que colocar no centro e o que
posicionar no espaço aberto ao seu redor”. Uma idéia
que se apoia no denominado e conhecido “federalismo”,
no qual “há um centro forte, que porém deixa um espaço
considerável para decisões locais, estando, assim, centralizado
em certos aspectos e descentralizado em outros, podendo ser,
ao mesmo tempo, grande e pequeno; estar regulado em alguns
aspectos e desprovido de regulações em outro”. Uma organização,
portanto, “que dá espaço para as pessoas atuarem com
iniciativa, porém sendo capazes, ao mesmo tempo, de definir
o êxito”.
Está claro que Charles Handy identifica a existência de vários
paradoxos na vida organizacional que necessitam ser entendidos
e aceitos, tais como, ao mesmo tempo:
ser globais e locais;
ser fechadas e abertas
ter funções diferenciadas e integradas
ter trabalhadores autônomos porém integrados em uma
equipe.
É fundamental, neste contexto de Charles Handy, ainda que
não seja simples, encontrar uma maneira de viver e trabalhar
com este tipo de contradições “para reconciliar os opostos
em vez de termos que escolher entre eles”. Fomos condicionados
em nosso aprendizado - e talvez alguns de nós ainda continuemos
assim procedendo - para, em nossas decisões, escolher uma
dentre várias alternativas; discutir cenários e decidir por
apenas um dentre eles. Poucos aprenderam, como observa Ruy
Aguiar da Silva Leme, professor da USP, “que é freqüente
ocorrer que uma recomendação ótima em um cenário seja péssima
em outro. E, assim, sendo ambos os cenários possíveis, seria
de se procurar uma recomendação diferente, mais aceitável
em qualquer dos dois cenários”.. Esta observação do referido
professor, sem dúvida, está fundamentada nos propósitos da
“dialética”, que nos ensina, por meio das três fases
que se denominam de “tese, antítese e síntese”,
a analisar e contrapor idéias a fim de depurar o fim desejado.
O método dialético, por meio da legitimação do diálogo, é
propício à conciliação de diferenciadas percepções e valores
que implicam a existência de critérios contraditórios entre
as pessoas, pela oportunidade de, admitidas as diferenças
entre um “x” e um ”y”, se criar um “z”,
resultante de “x” e
4. Arquitetura curricular do curso de administração
4.1. Áreas-chave operacionais
As que são essenciais para o alcance dos objetivos e das
estratégias definidas pelas organizações:
Finanças
Mercadologia
Produção
4.2. Áreas de suporte operacional
As que, pelo exercício de suas atividades, direta ou indiretamente,
geram ou contribuem com os resultados de toda a organização:
Pensamento e Perfis Organizacionais e Administrativos
Sociais e Humanas
Comunicação
Distribuição
Alocação e Alavancagem de Recursos
Econômica
Contábil
Sistemas
Planejamento
Negócios
Desenvolvimento e Pesquisa
Ambiental
Jurídica
Instrucional Supervisada
4.3. Áreas instrumentais
As que, por si mesmas, não geram ou contribuem com os resultados,
mas que apresentam resultados mensuráveis quando seus conhecimentos
específicos são utilizados por outras áreas da organização:
Quantitativas
Tecnológicas
Metodológicas
Idiomas
4.4. Áreas de cultura geral
As que constituem um conjunto de estudos que apresentam prismas
fundamentais dos conhecimentos humanos indispensáveis às atividades
e às relações profissionais:
Histórica
Filosófica
Ética
Políticas Nacional e Internacional
Economia Nacional e Globalizada
5. Conteúdos dos conhecimentos básicos e profissionais
para o desenvolvimento de competências e habilidades-sugestões:
5.1. Áreas-chave operacionais
Carga horária: 432 horas/aula
Administração Financeira e Orçamentária
Administração Mercadológica
Administração da Produção
5.2. Áreas de suporte operacional
Carga horária: 2.388 horas/aula
Teorias da Administração
Organização, Sistemas e Métodos
Psicologia Aplicada do Comportamento Organizacional
Sociologia do Comportamento Organizacional
Contabilidade
Estrutura e Análise de Balanços
Apropriação e Análise de Custos
Estratégias de Mercado
Mercado de Capitais
Fundamentos do Comércio Exterior
Programação da Produção
Distribuição Logística Intermodal
Gerência da Qualidade Total
Administração de Recursos Materiais e Patrimoniais
Planejamento Empresarial
Elaboração e Análise de Projetos
Administração de Recursos Humanos
Administração de Sistemas Administrativos
Consultoria Empresarial
Teoria Econômica ou Economia das Empresas
Instituições de Direito Público e Privado
Direito Comercial
Legislação Social
Legislação Tributária
Comunicação Administrativa
Estágio Supervisionado
5.3. Áreas Instrumentais
Carga Horária: 648 horas/aula
Matemática
Matemática Financeira
Estatística
Metodologia Científica ou Metodologia da Pesquisa
Processo e Técnicas de Decisão (Pesquisa Operacional)
Fundamentos de Informática
Projeto de Automação de Sistemas Administrativos
5.4. Áreas de cultura geral
Carga horária: 360 horas/aula
História Geral e Econômica do Brasil
Fundamentos de Filosofia
Fundamentos de Ciência Política
Economia Brasileira ( Atualidades )
Fatos Contemporâneos
6. Proposta para a opção de cursos seqüenciais
Ao ensejo da opção conferida às instituições de ensino superior
pelo Ministério da Educação e do Desporto, oportuno sugerir,
apenas à guisa de ilustração, além dos conteúdos de conhecimentos
já referenciados na arquitetura curricular proposta neste
trabalho, alguns cursos seqüenciais que podem ser oferecidos,
objetivando-se, como recomenda o MEC, “o aproveitamento
de estudos como uma integração mais flexível entre os cursos
de graduação”.
Marketing de Varejo
Marketing Industrial
Marketing de Serviços
Gerência de Produtos
Comportamento do Consumidor e do Comprador Industrial
Auditoria de Marketing
Marketing: Publicidade e Promoção
Estratégia e Gestão Financeira
Gestão de Riscos em uma Economia Globalizada
Desenvolvimento Organizacional
Inovação Tecnológica e Tendências em Recursos Humanos
Métodos Quantitativos Aplicados à Administração
Estratégias de Negócios
Métodos Modernos de Produção
Integração e Intra-Grupal
Gestão para a Qualidade e Produtividade
O modelo de currículo proposto neste trabalho, excetuando-se
alguns acréscimos e reassimilações promovidos, à guisa de
ilustração, é utilizado na UNA-Ciências Gerenciais. Está claro
que é amplo o elenco das disciplinas, porém, a UNA adota o
ciclo de dez períodos para a implantação de seus cursos. Isto
porque julgamos que o conjunto de conhecimentos indispensáveis
aos novos profissionais necessita de maior dilação do tempo
de ensino-aprendizado, em face da complexidade crescente dos
negócios empresariais. Reforça ainda a adoção dessa composição
curricular os ensinamentos extraídos de nossa experiência
de que os conteúdos programáticos de determinadas disciplinas
não podem ser apresentados e ministrados de forma adjetiva,
sem correrem o risco de serem mutilados substantivamente.
Há opiniões de que as instituições de ensino superior precisam
formar um profissional em um menor tempo de estudos, priorizando
a aquisição da prática administrativa. Controvérsias à parte
sobre a aversão popular à teoria e ao engrandecimento da prática,
defendemos a tese de que quanto mais teoria conhecer um administrador
jovem tanto melhor, já que se existe uma profissão que exija
estudo contínuo e incessante é a do administrador de empresas,
porque raramente as situações empresariais se repetem. É difícil
acreditar em administrações, e mesmo em profissionais de outros
ramos do conhecimento humano e científico, que não sabem as
teorias, os paradigmas de suas especializadas áreas de atividades.
Parece que existem pessoas que ainda querem a “falência
da ciência”, como enfatizou, há muitos anos, Brunetiére,
citado por Carvalho Neto. Entretando, essas pessoas devem
conhecer as reflexões do não menos notável e sábio Peter F.
Druker de que estamos vivendo a era da “sociedade do
conhecimento”, na qual somente os detentores de capital
intelectual vencerão no próximo milênio que se avizinha. Acreditamos
assim, que a estrutura curricular adotada pela UNA viabiliza
o fecundo estudo metodológico, de ordem cultural e prática,
dos diversos enfoques ou abordagens estabelecidos e explicitados
nos planos de aula. Todavia, a UNA atenta ao estágio de mundanças,
à realidade dos emergentes paradigmas, e às necessidades das
organizações e da sociedade, está consciente e apta para remoldar
os currículos de seus cursos. Afinal, novos tempos requerem
transformações no modo de perceber as organizações; inusitados
modelos para apresentar os currículos de conhecimentos e de
habilidades inovadores estilos de ensino aprendizagem.
Procuramos, neste trabalho, para aduzir os motivos de nossa
convicções, utilizar, o máximo possível, do peso de alheias
opiniões, de citações de expressivos pensadores da administração,
já que o tema educação é complexo e controvertido. Cremos
que nas palavras dos grandes mestre reside o crédito dos que
apenas não passam de discípulos; com o endosso deles é mais
fácil a proposição de nossas idéias. Admitem-se deficiências.
Afinal, não existe uma única e melhor maneira para se fazer
as coisas. Estamos, todavia, convictos que o teste real do
ensino-aprendizagem depende do desempenho das pessoas envolvidas
na sua implantação. Na verdade, o fundamental é a predisposição
para se mobilizarem esforços humanos em função do objetivo
institucional de “realizar melhor as coisas que já sabemos
como fazer”.
Referências Bibliográficas
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SERRA, Roberto e KASTIKA, Eduardo. Re-estructurando
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SILVA LEME, Ruy Aguiar. Por que prever? In:
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SHANK, John. O cliente fixa os custos. In:
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SHAW, Robert R. e PERKINS, Dennis M. P. Ensinar
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WILD, Ray. As novas escolas de administração.
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