A LDB e
a Responsabilidade Social
das
Instituições Universitárias: Pontos para Discussão
Maria José Vieira Féres*
Compreender e praticar a responsabilidade social tem sido
uma tarefa complexa para a Universidade Brasileira.
Alguns avanços significativos já foram conquistados nos últimos
anos, mas ainda há muito o que ser feito para que se efetive
uma relação orgânica entre as instituições universitárias
e a sociedade brasileira.
Trata-se de um tema polêmico e complexo e, por isso mesmo,
não tenho a pretensão de esgotá-lo.
Para facilitar a discussão, optei por organizar este texto
em quatro momentos, a saber: a contextualização do momento
histórico que vivemos; os desafios da Universidade Brasileira
inserida neste contexto; as contribuições da Lei de Diretrizes
e Bases da Educação Nacional e a metodologia para que a Universidade
Brasileira avance em seu papel social.
I - O momento atual e o desafio de ser "moderno"
A revolução científica e tecnológica vem provocando no mundo,
o inconteste avanço de forças produtivas, que implica novas
formas de organização da vida social.
O processo de internacionalização da economia, chamado de
globalização, traz transformações sociais, econômicas e políticas
de grande complexidade.
A constatação da existência desses processos tem sido uma
constante nos mais variados discursos, desde os oficiais _
do governo _ até nas informações sistematicamente divulgadas
pelos meios de comunicação de massa. Entretanto, constatar
e sugerir adaptações é muito pouco. É preciso compreender
e este é o desafio que nos é imposto neste final de século.
A ciência, a tecnologia e a globalização não são processos
neutros. A exclusão social gerada pela globalização é a mais
perversa em toda a história da acumulação capitalista, desde
o século XVIII. Apesar dos avanços tecnológicos e das mudanças
nas regras da economia, milhares de pessoas permanecem em
situações de miséria, excluídas sistematicamente dos possíveis
benefícios dos avanços científicos e tecnológicos. O mundo
"globalizado" não acabou com as desigualdades gritantes,
muito menos com a exploração. Pelo contrário!
Hoje, constatar que o mundo mudou é uma posição que chega
a ser simplista. É preciso transcender a perplexidade da constatação
e avaliar de forma consistente e crítica a direção que o planeta
começa a tomar.
O agravamento da questão social não ocorre por acaso. Cresce
o desemprego estrutural (fruto desta estrutura, é óbvio) e
as políticas públicas para educação e saúde continuam debilitadas,
apesar do "marketing".
Travestidos de novidade, velhos pressupostos são reativados
sob o rótulo de neo-liberalismo, num processo de ideologização,
em que valores historicamente construídos se transformam em
verdades absolutas. Neste sentido, vão se consolidando influências
culturais, com implicações nas formas de pensar, agir e proceder
das pessoas. Em nome da "modernidade" incentiva-se
o individualismo exacerbado e a competitividade. Parafraseando
Eric Hobsbawm, é o "individualismo associal absoluto".
Padrões de eficiência e qualidade são apresentados como se
fossem instrumentos técnicos e neutros.
* Professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, UFJF.
Chefe de Gabinete da Secretaria de Educação do Distrito Federal,
SE/DF. Ex-Diretora do Departamento de Política do Ensino Superior
da SESu/MEC.
Desenvolve-se na cabeça e no coração das pessoas a lógica
do mercado que nos transforma a todos em mercadoria e, cada
vez, de menor valor.
É urgente que outros valores voltem a ser afirmados e/ou
reafirmados. À competição desenfreada, é preciso que se oponha
a cooperação, ao individualismo exacerbado, o senso do coletivo
e o jargão da modernidade precisa ser qualificado.
Ser moderno significa reverter os avanços da Revolução Científica
e Tecnológica a favor da maioria da população. A modernidade
que se pretende para a vida humana tem que ser ética e deve
se estruturar em valores que resguardem a democracia e implementem
a justiça social.
Ser moderno é estar compromissado com o resgate da esperança
e da utopia, não como uma quimera ou uma ilusão, mas como
a possibilidade concreta do vir a ser.
II - Universidade e responsabilidade social
1 - A Discussão do Diagnóstico
As dificuldades de se estabelecer um relacionamento orgânico
entre universidade e sociedade são muitas. Pode-se dizer que
constitui quase senso comum o discurso sobre o distanciamento
da universidade em relação ao desenvolvimento social. Dito
assim, de forma ampla e genérica, pode-se até estabelecer
um aparente consenso entre as diferentes posições existentes
sobre os rumos da Universidade Brasileira. Por esta razão,
é importante que sejam explicitadas as questões que fundamentam
este diagnóstico.
O relacionamento, que implica responsabilidade e compromisso
das Instituições Universitárias com a sociedade somente se
efetiva por meio da produção e transmissão do saber, já que
esta é a essência da Universidade. Por isso, antes de qualquer
solução mágica, é preciso que se tenha uma avaliação crítica
da produção do ensino, da pesquisa e da extensão nas várias
instituições.
Nossas universidades assimilaram uma concepção que hierarquiza
o ensino, a pesquisa e a extensão. A pesquisa é o mais importante,
depois coloca-se o ensino e, por último, a extensão. Razões
históricas contribuíram para isto, aliadas aos mecanismos
de institucionalização e financiamento da pesquisa pelos órgãos
oficiais. Desta forma, o ensino fica relegado a segundo plano,
reservado aos docentes "menos dotados" que obtiveram
durante algum tempo a alcunha de "baixo clero".
A extensão, marginalizada da vida acadêmica, é entendida por
muitos apenas como um apêndice ou atividade esporádica, eventual.
Não há integração entre graduação e pós-graduação. Além de
não se reverter para a graduação os avanços característicos
dos cursos de mestrado e doutorado, é muito comum que doutores
não queiram lecionar para os cursos de graduação. Afinal,
além dos "status" ser inferior, não há financiamento
institucionalizado que se permita avançar na graduação, inclusive
em termos de carreira acadêmica.
Alguns atribuem esta distorção ao princípio da indissociabilidade
entre ensino, pesquisa e extensão. Penso que é exatamente
por não se praticar o princípio que se gera uma estrutura
estratificada, fazendo da pesquisa, isoladamente, o ponto
de referência da Instituição.
O ensino de graduação, além de ser dissociado da pesquisa,
padece de problemas estruturais graves. Organizado em disciplinas,
o ensino é transmitido de forma estanque e linear. Da mesma
forma, como é difícil a relação entre as disciplinas, separa-se
teoria e prática, como dois processos que acontecem em tempos
e espaços diferentes. Como a ação individual ainda é uma característica
marcante do trabalho do docente, fica quase impossível estabelecer
as interfaces necessárias entre os vários processos do conhecimento
e, por conseqüência, entre teoria e prática.
A estrutura organizacional e administrativa das instituições
fortalecem as distorções verificadas no campo acadêmico. Os
Departamentos acabaram por reforçar a enorme fragmentação
na organização da ciência, além de se constituírem como estruturas
fechadas que, na maioria dos casos, servem de proteção aos
anseios da corporação. Será a departamentalização a melhor
forma de organizar a Universidade enquanto instituição que
produz e transmite saber?
Agregue-se a tudo isto a questão do poder que acaba por atrelar,
muitas vezes, questões de relevância acadêmica e social a
interesses pessoais. A questão da gestão democrática e dos
núcleos de poder na instituição universitária precisa ser
rediscutida, tanto nos IES públicas, como privadas. Esta é
uma questão complexa sobre a qual, por razões óbvias, não
vou me deter. Acho importante frisar, entretanto, que esta
polêmica não se resolve apenas com definição de percentuais
para participação da comunidade universitária na escolha dos
seus dirigentes. Pelo contrário! É uma forma artificial para
acobertar as questões de fundo que envolvem o poder na gestão
da vida universitária e, no limite, o poder do saber.
Não se tem hoje uma avaliação dos profissionais que as instituições
universitárias estão colocando no mercado de trabalho, tanto
do ponto de vista do emprego e da competência técnica, como
do ponto de vista de formação da cidadania.
Nas relações com o mercado de trabalho há momentos em que
a instituição se marginaliza e, por outro lado, há tendências
de uma adaptação simplista, sem questionamentos. Neste caso
específico, um exemplo claro são os cursos de formação para
professores _ as licenciaturas. Os dados nacionais indicam
que o mercado precisa de professores, em algumas áreas com
carência total. Entretanto, o processo de desvalorização salarial
do magistério reflete não só na demanda para os cursos de
licenciatura, como também na posição que tais cursos ocupam
nas estruturas universitárias. Desvalorizados no mercado,
apesar da necessidade dos profissionais, ficam também desvalorizados
na instituição. A Universidade, para ter responsabilidade
social, deve ter, em primeiro plano, um compromisso orgânico
com a educação no país e, portanto, com os demais níveis de
ensino. A situação é tão crítica que soluções "mirabolantes"
são apontadas, chegando-se a falar em abolir a exigência da
qualificação formal (cursos de licenciatura) para exercer
o magistério.
Sobre a produção do conhecimento, não se tem também uma avaliação
qualitativa das pesquisas. Normalmente conseguimos computar
a quantidade que se produziu, mas não se discute sistematicamente
a relevância social e a qualidade acadêmica do que está sendo
produzido
2 - Revolução da Universidade: Construindo o Compromisso
Social
Refletindo, estudando e fazendo esforço para compreender
a conjuntura que vivemos hoje, penso que os processos educativos
em geral e, particularmente, as Instituições Universitárias
são essenciais para mediar os efeitos da Revolução Científica
e Tecnológica e do processo de internacionalização da economia.
Enquanto "locus" privilegiado da produção e da transmissão
do saber, dispõe das ferramentas necessárias para, de um lado,
fazer as adaptações que o momento exige e, de outro lado,
construir, com a pluralidade que a caracteriza, uma cultura
crítica dos valores do neo-liberalismo, capaz, por conseqüência,
de apontar os caminhos da justiça social e da modernidade
ética. Basta sair da perplexidade!
Nesta perspectiva, não se trata apenas de reformular a Universidade.
É preciso que as Instituições Universitárias assumam a sua
Revolução. Revolução significa romper com os modelos hoje
estabelecidos de forma processual e iniciar, imediatamente,
a construção de uma Universidade que se reestrutura em seus
pilares básicos.
É preciso investir em paradigmas teóricos que alterem substantivamente
a visão epistemológica da Universidade. Romper com o conhecimento
que, sob a pretensão de científico, acabou por se tornar burocrático
e cartorial. Investir no conhecimento vivo e continuado, substituindo
a visão limitada da disciplina pela interdisciplinaridade.
Reorganizar os currículos, rompendo com a concepção conteudista
e imprimindo-lhes a dimensão complexa do trabalho intelectual,
enquanto instrumentos flexíveis de constante aprendizagem
fundamentada na investigação e na descoberta. Associar ensino
e pesquisa é ensinar investigando, investigar ensinando e
ensinar a investigar. É preciso tornar o conhecimento um processo
de prazer, rompendo com a burocracia acadêmica e transformando
a sala de aula no espaço permanente de interação com a sociedade.
É nesta interação cotidiana que a responsabilidade social
das instituições universitárias se torna concreta, fazendo
da teoria e da prática um todo articulado e orgânico.
É urgente também investir em outra estrutura organizacional.
Não há interdisciplinaridade que suporte, por muito tempo,
a organização departamentalizada. Os departamentos acabam
por se transformar nos guardiões das disciplinas e de seus
respectivos "proprietários". O trabalho acadêmico
precisa ser compreendido enquanto um processo coletivo.
As novas tecnologias educacionais devem ser acionadas para
favorecer a democratização do acesso à Universidade. Implementar
a educação à distância em todas as modalidades de ensino é
mais do que necessidade. É uma tarefa. É usar o potencial
da revolução tecnológica a favor da maioria da população,
garantindo a expansão do ensino superior. É óbvio que a qualidade
deve ser resguardada; critérios, parâmetros e procedimentos
devem ser regulamentados. É preciso, entretanto, ter a clareza
de que a garantia de qualidade não está, obrigatoriamente,
na educação presencial. A vida já demonstrou isso das formas
mais variadas e, ao mesmo tempo, concretas.
Se a Universidade Brasileira conseguir ampliar o número de
matrículas de forma consistente e se reformular epistemologicamente,
resguardando seu potencial de crítica para transformação da
sociedade, a sua responsabilidade social estará concretizada.
Muito se tem dito sobre a necessidade de maior integração
das universidades com os setores produtivos. Penso que isto
é o óbvio, mas é pouco. A interação deve se dar com toda a
sociedade, inclusive com os setores produtivos, mas a partir
da produção da Instituição, que deve ter os seus pressupostos
básicos reformulados.
Não se trata apenas de fechar alguns cursos e abrir outros.
Isto também é muito pouco. Trata-se de alterar substantivamente
concepções da ciência e do conhecimento.
III - A LDB e a Revolução da Universidade
A Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as
diretrizes e bases da educação nacional, no que diz respeito
à educação superior, apresenta pontos positivos, mas avança
pouco em relação à concepção de educação superior e de Universidade.
Procurando me restringir ao aspecto da responsabilidade social,
que é o tema desta discussão, o artigo 43, que elenca as finalidades
da educação superior, assim se expressa:
Item VI - "estimular o conhecimento dos problemas do
mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar
serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta
uma relação de reciprocidade".
Item VII - "promover a extensão, aberta à participação
da população, visando a difusão das conquistas e benefícios
resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e
tecnológicas geradas na instituição" (os grifos
são meus).
Mais do que "estimular o conhecimento dos problemas
do mundo presente, em particular os nacionais e os regionais"
é preciso estar permanentemente em contato com a realidade.
Isto significa que a vitalidade e o dinamismo do processo
do conhecimento passam, necessarimente, por uma interação
contínua entre a academia e o universo em que está inserida.
O conceito de extensão continua permeado pela idéia de prestação
de serviços e de atividade eventual ou esporádica. A extensão
só tem sentido se for estabelecido contato permanente com
a sociedade e com a população. Da forma como está colocado
na lei, o objetivo é difundir o que a Instituição produz.
Penso que o grande desafio passa exatamente pela mudança na
concepção da produção acadêmica. A Universidade tem que romper
com o seu isolamento, fazendo com que sua produção intelectual
seja resultante do intercâmbio com as necessidades e contradições
sociais. Hoje, a Universidade Brasileira já pensa a extensão
como um "elemento que articula ensino e pesquisa objetivando
contribuir para as transformações necessárias na sociedade.
Sem nenhuma dúvida, há um grande avanço na LDB em relação
à educação a distância, quando estabelece que "o poder
público incentivará o desenvolvimento e veiculação de programas
de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de
ensino, e de educação continuada." (art. 80).
Como já afirmei anteriormente, esta é uma forma concreta
para a Universidade estabelecer compromissos sólidos com a
sociedade.
Em relação ao ingresso na Instituição, é também um avanço
o fato de que as Universidades poderão "deliberar sobre
critérios e normas de seleção e admissão de estudantes".
(art. 51).
IV - Revolução da Universidade e a política de ensino
superior: uma questão de método
Diz Tiago de Melo, que "o caminho pode ser o mesmo,
a diferença está no jeito de caminhar."
Para se definir um política para o ensino superior, com tranformações
de caráter estrutural e revolucionário, é preciso que se considere
alguns aspectos essenciais, a saber:
a) as mudanças substantivas que são necessárias e urgentes
na Universidade Brasileira, só se tornarão realidade com o
engajamento efetivo das Instituições no processo. Por mais
competentes que sejam os gorvenantes, educação, processo intelectual
e paradigmas teóricos não se alteram por leis e, muito menos,
por medida provisória. Os intelectuais que fazem o cotidiano
universitário não estão na burocracia do governo, estão nas
Instituições de Ensino Superior;
b) pensar na Universidade Brasileira é entendê-la com suas
diferenças enquanto parte de um sistema de ensino superior
complexo e heterogêneo, num país de dimensões continentais
e de profundas desigualdades regionais. Tratar de forma igual
os desiguais é, no mínimo, arbritário;
c) a Universidade Brasileira para se transformar precisa
se abrir à sociedade, rompendo com o peso das corporações.
Entretanto, transformar todo tipo de organização em defesa
dos interesses universitários em corporativismo é um discurso
ideológico que não se sustentará por muito tempo;
d) a avaliação é, sem nenhuma dúvida, um processo vital para
a Universidade Brasileira. Faz parte de sua essência e é,
ao mesmo tempo, uma demonstração efetiva de responsabilidade
social. Entretanto, é preciso que se tenha a cultura da avaliação
enquanto processo. Nesta perspectiva, fazer do Exame Nacional
de Cursos _ que prefiro chamar de "provão" _ um
instrumento de avaliação que poderá influir no credenciamento
das Instituições, penso que é temerário. Os especialistas
estão conscientes das limitações do instrumento da prova em
qualquer processo avaliativo. No "provão" este quadro
se agrava porque se parte para uma avaliação do produto e
não do processo.
Na atual conjuntura em que tão poucos se colocam como sabedores
de tudo e portadores de grandes soluções, lembro Sócrates,
o filósofo grego, que se entendeu na condição de sábio, porque
"sabia que não sabia."
Com estas considerações, gostaria de encerrar dizendo que
cabe às Instituições Universitárias se articularem com a sociedade
para levarem à frente as mudanças que são necessárias com
a responsabilidade social que o momento exige.
A LDB E A RESPONSABILIDADE SOCIAL
DAS INSTITUIÇÕES UNIVERSITÁRIAS
Eronita Silva Barcelos *
I - Um desvelar necessário
Permito-me ocupar parte do tempo colocado à disposição para
minha exposição sobre a temática deste primeiro dia do Seminário
"Contribuições à definição de uma nova política de ensino
superior", para manifestar a grande satisfação que sinto
em participar de evento de tamanha relevância para a educação
em nosso país. Como membro da comunidade educativa brasileira,
atuando em escolas de primeiro e segundo graus e na Universidade
desde a década de 60, tenho vivido intensamente o processo
doloroso, complexo e fecundo da construção do caminho da concidadania
responsável, que só ocorre com políticas e práticas de natureza
democrática. Tenho sido, ao lado de tantos outros educadores,
protagonista da incessante e persistente busca do sonho de
uma sociedade de todos os homens, para todos os homens e com
igualdade de acesso e de oportunidades. São 30 anos de viver
no fluxo e refluxo de processos político-sociais por diferença
dos regimes.
Estar aqui neste lugar e neste tempo, vivendo a emoção do
desafio de, em situação coletiva, ajudar a pensar políticas
para a educação do meu país, com autonomia da palavra e com
a construtividade da participação sem amarras é, sem dúvida
alguma, coisa de alta relevância e valor cívico. A paixão
pela educação que me tem impulsionado a persistir, a integrar
grupos de resistência em momentos de obscurantismo político
e, especialmente, a não querer aceitar o imobilismo, o ver
unilateralmente o que "não é permitido" e de que
há sempre outros, em lugares sempre vistos como os que detêm
a "verdade", "o mais elaborado", "o
hegemônico", é o que instiga o desejo e a coragem de,
despretensiosamente, aceitar chamamentos como o que hoje estou
a responder, colocando-me a fazer esta exposição. Estimulei-me
a tal resposta pela expectativa da atenção inteligente e qualificada
dos colegas professores universitários e das autoridades do
MEC, e muito particularmente, à crítica balizada pela história
vivida, e com função prospectiva que reúne estes atores sociais
aqui presentes ou representados pelas idéias e proposituras
desenvolvidas com competência, no sentido da valorização das
possibilidades de definirem-se, sempre, rumos novos na educação,
quando se produz a circulação/publicização dos pensamentos
tornados saberes.
E o faço com a clareza de estar trazendo uma contribuição
entre tantas outras possíveis. Clareza que permite construir
tranqüilidade, representando a UNIJUÍ, para expor idéias,
acreditando que é possível, pela interlocução de concepções,
interpretações e expectativas, construir diretrizes e linhas
de ação pertinentes a um tempo e a um espaço da cotidianidade
dos coletivos sociais. Convém, também, dizer que esta contribuição
resulta das discussões e elaborações realizadas no interior
da comunidade universitária a qual me inscrevo, o que dá mais
consistência e objetividade na ousadia de querer poder contribuir
para a definição de uma nova política de ensino superior para
o nosso Brasil.
* Professora e Vice-Reitora de Graduação da Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, UNIJUÍ.
II - De onde brotam as responsabilidades sociais
Os homens, com suas inúmeras relações, vão constituindo sua
existência em sociedade. É desse processo de produção que
os espaços de vida vão se instituindo em contínuo resignificar
de padrões culturais, produzindo avanços no entendimento da
construção dos espaços sociais de vida. As organizações ou
instituições se estruturam através dessas diferentes relações
sociais que os homens estabelecem entre si na pretensão de
organizar a vida, e refletem, dessa forma, uma face da cidadania,
praticada.
Daí resulta uma premissa incontestável: todas as instituições
têm responsabilidade social. As universidades são instituições
da sociedade e, por isso, estão inscritas no âmbito desse
processo de responsabilização, que lhe impõe, portanto, a
necessidade de permanente reflexão de seus fins, de sua estrutura,
de suas linhas de ação e do sentido das suas práticas. Não
são, as universidades, entidades abstratas. No cotidiano de
sua institucionalidade vai se estabelecendo uma rede de relações
entre os que a fazem, produtores que são de valores e de sentidos.
É o poder dos grupos instituintes, enquanto agentes sociais
em interação, algo que não pode ser esquecido e tão pouco
minimizado. A permanente tensão instituído-instituinte impulsiona
a atuação da comunidade universitária na direção e busca das
condições do "poder fazer" processualidade para
a formação da cidadania, o que significa ter a responsabilidade
social para o desenvolvimento.
A sociedade, no seu modo de produção, é o movimento da vida
dos homens, por eles mesmos organizado. E na organização da
vida a educação é fundamento, assim como a produção da ciência,
do conhecimento, da tecnologia, da cultura, etc. As universidades
são reconhecidas como espaço privilegiado dessa produção,
pois são elas que se ocupam disso. São reconhecidas socialmente,
politicamente e legalmente (com legitimidade), donde brota
a responsabilidade. Devem dar respostas às necessidades dos
homens no processo de organização de sua vida.
Para dar conta deste compromisso, a universidade precisa
ser constantemente lugar de produção do saber o que requer
seja ela, também, tempo da reflexão crítica. O Professor Milton
Santos, admirável corajoso educador, na paixão pela geografia
humanizada, tem reiterado em seus escritos e falas, que é
na universidade que deve começar a gestação de novas idéias.
Diz ele: "ali o discurso deve ser universalizado".
E mais, "a universidade não é lugar da análise do que
já existe, simplesmente e, sim, da construção do futuro".
(1996)
E a Lei? A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
o que significa na dimensão da responsabilidade social das
instituições universitárias?
A LDB a vemos como a explicitação do quadro legal geral da
visão brasileira sobre a questão da educação. A visão que,
no contexto das visões concorrentes e ainda presentes, foi
legitimada para ser orientadora da educação dos brasileiros.
A lei define os espaços, os direitos, os deveres; define conceitos
e atribuições: responsabiliza.
As bases da responsabilidade social, porém, residem no fato
de a sociedade reconhecer a instituição, respeitar a sua ação,
querer a sua ação, buscar intencionalmente essa ação. É nestes
aspectos que está a responsabilidade, mais do que no texto
da LDB.
A responsabilidade brota do processo social.
III - LDB: oportunidade de desafios novos
A aprovação do novo texto balizador da educação no Brasil,
antes de mais nada, representa um desafio, desde que o próprio
Professor Darcy Ribeiro (1996:9) afirma que este texto legal
procura "libertar os educadores brasileiros para ousarem
experimentar e inovar", na compreensão de "que o
grave é perpetuar a rotina".
Nesse entendimento, a nova LDB se constitui em sinalização
dos caminhos a percorrer, não podendo ser tomada como um fim
em si mesma. Sua função deve ser a de apontar perspectivas
num leque de possibilidades, em especial, na polarização da
cidadania competente que se faz concreta na democratização
de oportunidades e formas de acesso a um ensino e formação
pessoal e profissional de qualidade. De igual forma, favorecendo/provocando
uma atuação universitária plena, ou seja, onde o ensino, a
pesquisa e a extensão se integram, como princípio e como postura
de inserção permanente na realidade social.
Toda a lei maior é generosa, aberta à criação e passível
de atendimento à diversidade de situações educativas, desde
que, é evidente, possam ser validadas socialmente. É dever,
pois, dos que a cumprem interpretar suas proposições, diretrizes
e possibilidades, antes de que os órgãos da burocracia oficial
o façam. É crucial fazer uma leitura prospectiva e criativa
da lei, superando interpretações autoritárias e de centralização,
que se esgotam em referenciais prescritivos, detalhistas e,
no mais das vezes, periféricos à substantividade dos propósitos
da educação. Já não cabe, tomar a lei como mera prescrição
do que fazer e do que não fazer num a priori de princípio
homogeneizante que inevitavelmente simplifica o entendimento
do fenômeno social _ a educação. Cabe aos órgãos do sistema
ter/construir sensibilidade política do ouvir e, quando pertinente,
certificar propostas geradas no interior das instituições
sociais, das quais a universidade é a mais apropriada, pela
natureza de seu papel social: reconstruir os saberes na interlocução
ampliada deles, em processo de interação, investigação e comunicação
com os homens identificados nas e pelas suas práticas sociais.
O advento da autonomia, com a maioridade da universidade
na autogestão acadêmica e administrativa, aguça-lhe a exigência
de inovar.
O Artigo 43 da nova LDB é referencial instigante à produção
de conhecimento da universidade de si mesma e das novas responsabilidades
que se impõem, deixando o Sistema de entender-se como regulador
para ser coordenador/articulador de um grande projeto nacional
de educação que tem sido buscado no calor do debate, na fertilidade
das muitas idéias e vozes que se têm expostas, na crueza da
realidade de desigualdade de acesso, desvelada pela disseminação
mais ampla das informações e pelo apelo intermitente para
a socialização da modernidade.
Na interpretação que fazemos das finalidades propostas para
a Educação Superior ocupa agora a pesquisa lugar proeminente
de articuladora das demais dimensões da universidade. Todos
os itens do Artigo 43 exigem esse novo lugar da pesquisa,
no que tange: a) ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia
e do entendimento do homem e do meio em que vive; b) à criação
cultural e ao desenvolvimento do espírito científico e do
pensamento reflexivo; c) à formação profissional para a participação
no desenvolvimento da sociedade brasileira; d) à interlocução
dos conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem
patrimônio da humanidade, através do ensino, de publicações
e de outras formas de comunicação; e) ao desejo permanente
de aperfeiçoamento cultural e profissional; f) ao conhecimento
dos problemas do mundo de hoje e à prestação de serviços especializados
à comunidade estabelecendo com ela relações de reciprocidade;
g) à promoção da extensão aberta à participação da comunidade
nos processos da criação cultural e da pesquisa científica
e tecnológica.
A universidade que confere diplomas, distribui títulos de
nobreza intelectual e transmite saberes acabados, essa universidade
se tornou obsoleta. Não se faz mais a educação universitária
"pelo acesso facilitado a uma pretensa objetividade dos
saberes constituídos, nem pelo império de inteligências privilegiadas
sobre os destinos do mundo, mas pela interlocução dos saberes
que buscam justificar-se numa comunidade de livre-conversação
entre iguais, ou na força argumentativa de diversas pretensões
de validade" (Marques, 1996: 120).
A universidade passa a se entender como comunidade da argumentação
das ciências. Em oposição à estrita objetualidade de uma realidade
em si e ao sujeito monológico da filosofia da consciência,
dependem hoje as ciências de que haja uma comunidade de pesquisadores
que intercambiem os resultados a que alcancem na perspectiva
da busca cooperativa da verdade. Como afirma Durão(1996:130),
"somente uma comunidade de pesquisadores, que possa prosseguir
indefinidamente as pesquisas, está apta a eliminar as idiossincrasias
individuais e históricas."
E à universidade incumbe não só abrigar comunidades distintas
de especialistas dedicados ao desenvolvimento de seus saberes
próprios, mas levá-los a trabalhar nos horizontes da crescente
complementaridade das ciências. Constitui-se, assim, a universidade
no lugar social da unidade da razão em suas múltiplas vozes,
âmbito alargado em que as vozes da razão discursiva das ciências,
da razão pragmática do agir em comum e da razão expressiva
das singularidades distintivas sejam postas num unitário processo
de interlocução e certificação social de seus saberes assim
reconstruídos.
A acareação crítica dos saberes que circulam na universidade
de forma a se validarem nessa comunidade comunicativa ampliada
se acrescenta a necessária certificação social deles, ou a
aceitabilidade por parte da sociedade. Na forma da publicidade
crítica, os saberes gestados na universidade necessitam buscar
sua unidade, coerência e validação na exposição a ela mesma
como um todo, às outras universidades e à sociedade humana
hoje posta em escala global.
Comunicação e argumentação realizam as condições da justificação
das ciências na intersubjetividade do diálogo com as demais
práticas de conhecimento e de vida de que se tece a sociedade
abrangente. Condições que a nenhuma outra instituição social
cabe cumprir com a mesma efetividade e relevância social.
Justificam-se as pesquisas pelos resultados que se tornem
públicos e acessíveis a todos para além de suas conseqüências
imediatas e pela recepção e retorno que lhes dê a sociedade,
de forma que a certificação social da universidade se cumpra
no livre-intercâmbio de informações, publicações e atividades
conjuntas que a renovem de contínuo e revitalizam sua atuação.
Não pode a pesquisa se restringir à pós-graduação, muito
menos reduzir-se a mecanismo de galgar posições na carreira
universitária, de elitizá-la. Nos próprios programas de pós-graduação
se vê freqüentemente a pesquisa posta ao final de um plano
de estudos que pouco tem a ver com ela. Importa enfrentar
corajosamente, para superá-los, ao dualismo de ensino e pesquisa,
cursos de graduação e pós-graduação, atividade de ensino ou
pesquisa e atividades de extensão.
Numa sociedade posta hoje sob o primado de saberes que continuadamente
se superam e reconstroem não é mais possível pensar o ensino
como mero repasse de conhecimentos depositados numa tradição
cultural. Não se trata de abandonar o ensino em favor da pesquisa,
nem de priorizá-la em si mesma, ou de banalizá-la. É preciso
pensar, de forma sistemática e produtiva, nos modos de articulação
entre pesquisa, ensino e extensão.
Sob o primado da pesquisa, cumpre assumir o desafio de repensá-la/reconstruí-la
em si mesma e no interior dos processos da aprendizagem. Não
pode a pesquisa visar a um desenvolvimento das ciências e
tecnologias à parte dos interesses humanos em jogo e à parte
da formação dos novos sujeitos num mundo em constantes transformações.
Mais do que visar ao imediatismo de suas conquistas importa
busque a pesquisa educar o cidadão para o enfrentamento das
situações novas, sequer previstas. Não mais se sustenta a
ciência como um acumulado de conhecimentos, mas se constrói
de contínuo numa comunidade viva de pesquisadores dedicados
ao debate sobre os processos criativos de sua região de saberes.
Competência científica e competência comunicativa se supõem
em reciprocidade e se auto-exigem. (Id.)
Dessa forma, o processo formativo da pesquisa precisa ser
fio condutor do sistema educacional, da educação infantil
à universidade, da tesoura e cola com que se inicia a criança
às artes do ler, escrever e pesquisar aos desafios dos experimentos
de laboratório, capazes de abertamente e de público justificarem
suas constatações e descobertas.
Não é suficiente permanecer no nível das críticas que se
fazem ao ensino informativo e enciclopédico, preso a grades
curriculares sobrecarregadas e inchadas e com a exigência
da fragmentação formalizada em, por exemplo, cargas horárias
estruturadas sob a fórmula de percentagens obrigatórias. Submetido,
este ensino, aos rituais de aulas e mais aulas insípidas e
repetitivas. Importa, isto sim, buscar um ensino mais formativo,
com maiores participação e empenho de alunos e professores
que compartilhem responsabilidades solidárias de investigação
de temas que escolham como eixos da reconstrução de seus saberes.
Nenhum saber se origina do nada; mas também nenhum saber se
faz na mera "transmissão do já sabido".
Implantaram-se já nas universidades brasileiras vigorosos
programas de pós-graduação constituídos em centros e grupos
de pesquisa que, no entanto, sustentados de fora, inclusive
independentemente dos orçamentos regulares da universidade,
permanecem como "ilhas de excelência" num mar de
frangalhos. Aos problemas da desarticulação dos programas
na estrutura da universidade e entre si acrescenta-se o desafio
muito maior de a pós-graduação socorrer de sua estrita vinculação
com a pesquisa o desenvolvimento qualitativo dos cursos de
graduação, das atividades de extensão e do empenho em que
a universidade traduza sua responsabilidade social com o desenvolvimento
dos sistemas de ensino em todos seus níveis e graus.
Defronta-se, conseqüentemente, a universidade contemporânea,
e muito particularmente a brasileira, com imensas responsabilidades
sociais, as quais só poderão ser enfrentadas/atendidas se
a instituição for capaz de construir-se na unidade de sua
atuação. Unidade esta das dimensões da extensão, da pesquisa
e do ensino.
Extensão no sentido da inserção da universidade e na permanente
atenção ao contexto, buscando, pela reflexão crítica e prática
teórica o alargamento de visão apropriada às situações particulares
e concretas.
A pesquisa, entendida como alma geratriz da universidade
e instrumento mais específico de sua atuação, precisa caracterizar-se
pelo multidimensionamento das abordagens intercomplementares.
Pesquisas cujos projetos devem ser institucionais de forma
a se potenciarem os resultados, a se articularem de forma
qualitativamente nova e se reformularem na fundamentação dos
pressupostos do ensino e da extensão.
Ensino universitário que não se reduza à formação de uma
elite bem pensante, mas que se destine à qualificação de agentes
lúcidos profissionalmente e que, pela prática da vida intelectual
e pelo exercício crítico compartilhado das capacidades inovadoras,
situem-se com desempenho engajado em suas funções e busquem
oxigenar-se em atmosfera de pensamento original e autônomo.
(Marques, 1984:298)
Não basta, evidentemente, para dar conta de tamanha responsabilidade,
decodificar e compreender o explícito do texto legal. Constitui-se
compromisso político das universidades interpretar o quadro
conceitual nele contido, à luz de paradigmas de conhecimento
capazes de produzir entendimentos, alternativas de organização
e opções de condução das atividades da universidade em patamares
cada vez mais democráticos, produtivos e de eficiência social
(eqüitativos).
A LDB recoloca o chamamento à universidade para a sua responsabilidade
social que pode estar embasada na:
a) Formação do cidadão que o é, portanto, porque cônscio
de suas capacidades e da necessidade de desenvolver competência
para ser entre os outros e fazer com os outros, construindo
sua independência e sociabilidade.
b) Qualificação do cidadão, enquanto necessitado de habilidades
profissionais e exigente de aprendizagem que o façam aprendizes
no dia-a-dia de sua vida prática, orientando-o na produção
de sua existência com competência esclarecida.
c) Desenvolvimento do conhecimento, da ciência e tecnologia
através da pesquisa, qualificadora do ensino como lugar também
da produção do conhecimento, eixo alimentador da educação,
e da extensão como dimensão da socialização do conhecimento
e geradora de novos problemas de pesquisa. E, ainda, como
a possibilidade do apresentar-se, a universidade, ao olhar
da sociedade produzindo a avaliação de sua atuação, em processo
que valida e certifica sua atuação/produção.
Referências Bibliográficas
DURÃO, Ayilton Barbieri. A crítica de Habermas à dedução
transcendental de Kant. Londrina: Edit. da UEL; Passo
Fundo: EDIUPE, 1996.
FIDENE/UNIJUÍ. Plano Estratégico: 1996-2005. Ijuí,
1996.
MARQUES, Mario Osorio. Educação/Interlocução, Aprendizagem/Reconstrução
de saberes. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 1996.
Universidade Emergente: o Ensino Superior
Brasileiro em Ijuí (RS), de 1957 a 1983, Ijuí: Fidene,
1984.
RIBEIRO, Darcy. A Nova Lei da Educação. In: Cartas: falas,
reflexões, memórias. Brasília: Gabinete do Senador Darcy
Ribeiro, 1996. n 16. p. 9
SANTOS, Milton. Palestra proferida na UNIJUÍ em outubro 1996.