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Prêmio Top Educacional
Professor Mário Palmério 1999

O Jornal-laboratório Revelação e a
Humanização da Narrativa Jornalística

 

O desafio da inovação educacional no ensino de jornalismo é exemplificado por este caso concreto da Universidade de Uberaba: Jornal-laboratório Revelação e a Humanização da Narrativa Jornalística. Diferentemente de uma atitude passiva diante das práticas convencionais existentes no mercado profissional, o curso de Comunicação Social da instituição adota uma postura proativa sintonizada tanto com ilhas de excelência que vislumbram a transformação da atividade jornalística quanto com a emergência de promissores novos paradigmas, em diferentes campos do conhecimento. Uma visão de contexto e um foco dinâmico do processo em curso permitem registrar o sentido desta  iniciativa.


1 - Breve vôo epistemológico pelo  Jornalismo e sua crise de paradigmas  

Um dos maiores desafios do Jornalismo no século XXI consistirá em reformular os princípios e valores básicos que orientam seu olhar sobre o mundo, desde quando essa atividade moderna começou a ganhar status de comunicação de massa, já no final do século XIX. Filho de seu tempo, o Jornalismo construiu seu propósito, sua identidade e seus instrumentos de atuação, amparando-se fortemente em paradigmas que alicerçavam o foco intelectual de sua época original.

No final do século XIX e no início do seguinte, um conjunto de paradigmas direcionava a visão da ciência e de outras áreas do conhecimento, moldando-as à luz da preferência da cultura ocidental, fortemente centrada na perspectiva européia.                A projeção internacional crescente dos Estados Unidos, nesse período, dá-se também pelo sucesso com que a sociedade norte-americana, engenhosamente, leva à prática o ideário dessa perspectiva.

Escolas do pensamento filosófico como o Iluminismo, o Positivismo e o Cartesianismo, de um lado, valores fundamentais da ciência como o Mecanicismo, o Materialismo e o Reducionismo, de outro, acabam por conquistar poder extraordinário no condicionamento original com que várias atividades do espírito humano maturam seus instrumentos de leitura da realidade.

O Jornalismo, tal como entendido modernamente, surge fortemente influenciado por essas perspectivas. Esta influência traduz-se, epistemologicamente, nos valores intrínsecos com os quais  organiza seu olhar sobre a sociedade. Ao mesmo tempo, corporifica-se nos procedimentos práticos e nas técnicas tradicionais que dão identidade ao que conhecemos como “linguagem jornalística.” Mais apropriadamente, referem-se a um modelo de prática jornalística, denominado jornalismo convencional.

Basta apontar dois valores fundamentais que substanciam a prática jornalística convencional para exemplificar a presença implícita dessa influência. A chamada “atualidade” é um deles. A atividade jornalística, marcada por um forte ritmo de periodicidade, repetida a intervalos relativamente curtos, obriga os veículos de imprensa a recortarem o tempo em frações limitadas, a debruçarem-se sobre o hoje, tentando explicar acontecimentos cuja origem, em muitos casos, desenhou-se num tempo  distante e cuja conseqüência prosseguirá além do horizonte temporal imediato.

A “factualidade” é outro valor tido como sagrado nas redações dos veículos impressos e nas emissoras do jornalismo eletrônico de nossos dias. A notícia — unidade primordial de informação, a partir da qual a mensagem jornalística é construída — bem como outras modalidades de expressão do relato jornalístico, como a reportagem, o comentário, o ensaio, tomam o fato social como matéria prima vital para sua razão de ser.

Esses valores não são apenas conceitos filosóficos que povoam as cabeças das mulheres e dos homens de imprensa. Traduzem-se em ferramentas de trabalho, através de técnicas tradicionais que todo repórter iniciante precisa dominar.

Uma das primeiras lições é tentar encontrar o “gancho” de um acontecimento que o justifique como notícia potencial. O ‘’gancho” é um ângulo da ocorrência que a coloca num patamar de interesse potencial para o leitor, telespectador ou ouvinte, tendo sempre como premissa a atualidade. Outra lição primária consiste em formatar os acontecimentos em estruturas rígidas de relatos, obedecendo a uma fórmula fria onde tudo é acondicionado nos elementos “o que”, “quem”, “quando”,  “onde”, “como” e, às vezes, “porque” e “para que”.

Esses valores e essas técnicas cumprem bem sua função naquele segmento do Jornalismo dedicado  a registrar, de modo puramente informativo, um fato social. Mas há relatos jornalísticos que ambicionam mais do que simplesmente apontar os acontecimentos sociais. Buscam aprofundar a compreensão do mundo contemporâneo, querem interpretar a realidade, explicá-la com propriedade e orientar as pessoas para o entendimento do significado das ocorrências. Nesses casos, o jornalismo convencional tende a insistir com a mesma fórmula, sem atenar para sua limitação gritante, ignorando também o obsoletismo perigoso dessa insistência. Nem sempre percebe, claramente, que a base dessa abordagem, proveniente dos procedimentos científicos de mais de um século atrás e de perspectivas filosóficas empoeiradas no tempo, está sendo questionada em vários núcleos de pensamento científico e filosófico que propõem um novo conjunto de valores e premissas para a atuação do homem em busca da compreensão de si mesmo, bem como do mundo que o rodeia.

Durante o século XX, particularmente nas três últimas décadas, ocorreu uma revolução radical, paralamente ao poder dominante do saber científico, gerando  um novo patamar de paradigmas que não pode ser ignorado. Contrapondo-se ao Cartesianismo fragmentador, surge a abordagem sistêmica. Relativizando o Reducionismo materialista da Física Clássica, que influencia todas as demais ciências, desponta a ousadia da Física Quântica, propondo a interação intrigante entre o mundo da matéria e o universo sutil das energias. Criticando o mecanicismo com que a ciência focalizou todos os sujeitos de seu olhar analítico, ascende a perspectiva da tendência holística, que, no território das ciências de vanguarda, sugere a existência de fenômenos tais como a inteligência auto-reguladora de Gaia (o próprio planeta Terra), a presença dos campos morfogenéticos — linhas de força que atuam na Natureza, registrando aprendizados novos, garantindo a continuidade de aprendizados antigos — que contribuem para a evolução das espécies animais e do próprio  homem e o poder de interferência da mente sobre a matéria, co-criando realidades.  Em complemento  à abordagem puramente linear do raciocínio lógico, a Teoria dos Hemisférios Cerebrais, cuja comprovação garantiu o Prêmio Nobel de Medicina de 1981, gera como subproduto  o conceito  do que se denomina pensamento imagético, intimamente atrelado a uma concepção configurativa, integrada da realidade. Em adendo à inteligência  racional, admite-se agora a existência da inteligência emocional.

A lente do ramo científico que mais diretamente tenta  enxergar o ser humano, buscando compreendê-lo, passa também por uma transformação significativa. Quando a Psicologia ganha status de ciência no século XIX, através da escola experimental, o ser humano é visto, no fundo, como algo similar a uma máquina. Por consegüinte, a visão  de homem daí resultante é tristemente reducionista.

Durante o mesmo século XX, porém,  propostas inovadoras destronam essa visão rasteira do ser humano. Dentre elas, destacam-se as de renomados pioneiros, configurando uma nova plataforma  de compreensão sobre o ser humano: Carl Gustav Jung, com seus conceitos de arquétipo, inconsciente coletivo, sincronicidade; Roberto Assagioli, com sua psicossíntese, mostrando que o ego é apenas uma das unidades que centralizam a psique do homem, mas que outra unidade mais sofisticada, o Eu Superior, também opera; e Stanislav Grof, com sua psicologia transpessoal, propondo uma nova cartografia da consciência, através do que denomina mente holotrópica.

Enquanto esses avanços revitalizam o olhar das ciências, como anda a maior parte do jornalismo convencional, nessa passagem para o novo milênio?

No segmento da produção jornalística voltada para a tentativa de explicação da realidade, a insistência institucional em torno dos valores “atualidade” e “factualidade” mostra-se hoje como um hábito envelhecido. A atualidade reflete uma influência limitante do Cartesianismo, pois fragmenta o tempo, condiciona o profissional de imprensa a debruçar-se sobre o presente de modo estanque. As ocorrências sociais vistas assim pelo jornalista são viciosamente seccionadas da dinâmica temporal com que se manifestam. E a prisão obsessiva ao factual deixa de apreender, por exemplo, a sugestiva proposta da Física Quântica e das neurociências de que os fatos são gestados como possibilidades em dimensões pré-materiais. Quando se volta para o fato e apenas para ele, descarnando-o do contexto espaço-temporal que o envolve, o Jornalismo, figurativamente, está se debruçando sobre o passado congelado. Ao tentar explicar a ocorrência fora de contexto e fora de uma visão de dinâmica dos processos sutis e concretos que materializam uma ocorrência, o Jornalismo patina no seu instrumental ainda tosco de compreensão do real.

A visão que esse Jornalismo tem do ser humano é extremamente limitante. Movido pelo seu mecanicismo — tendência a examinar todos os fenômenos à luz da analogia com o funcionamento mecânico das máquinas — herdeiro da ciência do século XIX, o jornalismo convencional reduz a pessoa  humana  a um dos fragmentos de sua possibilidade enquanto ser. Fontes do noticiário jornalístico, as pessoas são enquadradas em estereótipos. Podem ser retratadas, por exemplo, simplesmente como vilãs de uma situação ou, ao contrário, como salvadoras da pátria. Julga-se muito apressadamente, na tentativa frenética de se forçar o enquadramento do indivíduo no esterétipo que parece plausível, em cada caso.

Sabe-se, no meio jornalístico, o quanto às vezes a entrevista — essa forma primordial de captação de informações — é organizada de tal modo a forçar o entrevistado a dizer o que previamente se deseja, não o que poderia nascer de um diálogo verdadeiramente interativo entre fonte e repórter.  Sabe-se o quanto a entrevista pode ser construída como um relato espetaculoso, calcado em pirotecnias pitorescas que beiram o folclórico, camuflando a compreensão mais ampla do significado dos fatos e de seu entorno.

O que é mais grave é que boa parte da produção jornalística tradicional tende a adotar uma perspectiva negativista do ser humano. Em termos psicológicos de Jung, é como se a imprensa tivesse predileção por focalizar exclusivamente a “sombra” da alma humana, pecando assim pela incapacidade de reconhecer o potencial de transformação que existe no lado luminoso da alma.  Por analogia à psicossíntese, é como se a imprensa mostrasse o ser humano exclusivamente sob a ótica do ego e suas confusões fragmentadas, diante da complexidade da vida, ignorando o centro mais  promissor do “Eu Superior” em sua capacidade de integração da totalidade do indivíduo, que baila na dança cósmica da existência em meio às infinitas  possibilidades de evolução do universo inteiro.

Para utilizar um termo em voga nas fronteiras de vanguarda da filosofia da ciência, a mentalidade gestora da ação jornalística convencial continua aderida ao pensamento simples para explicar, a realidade contemporânea que é profundamente complexa. Parafraseando o cientista social francês Edgar Morin, é necessária, também no Jornalismo, a adoção urgente do pensamento complexo como diretriz fundamental. Assim como Morin aponta os malefícios de uma ciência fragmentadora, alieanada de suas raízes mais profundas, advogando a urgência da ascensão de uma ciência que traga consigo a consciência, o Jornalismo necessita prementemente recuperar sua alma potencial e sua vocação nobre de instrumento leitor da realidade em bases amplificadas, sintonizadas com a busca da ampliação da consciência, no ser humano. Precisa contribuir para fomentar a capacidade potencial  do indivíduo em co-construir, com as outras forças da existência, uma realidade psico-sócio-ecológica mais condizente com o próposito de evolução da vida inteligente, nesta porção do universo.


2 - Uma ação concreta num universo de possibilidades múltiplas

O leitor poderá se perguntar o que  tudo isso tem  a ver com o caso específico do projeto do Curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba que acaba de receber da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)   Menção Honrosa, no Prêmio Top Educacional Professor Mário Palmério 1999.

A resposta a esta questão tem a ver com o ideário filosófico que sustenta o amplo projeto de modernização do Curso. Quando aceitei  assumir sua direção, em 1998, recebi da instituição autonomia para introduzir as mudanças necessárias para elevar o Curso a um novo patamar de qualidade. Adotei, então, uma atitude proativa, propondo situar a habilitação Jornalismo em sintonia com iniciativas que, no campo do ensino específico, alavancam possibilidades modernizadoras do setor.
Ao lado do que aqui está sendo chamado de jornalismo convencional, têm existido também propostas diferenciadas — embora menos conhecidas — da prática jornalística, sustentadas em valores distintos dos apontados anteriormente neste texto.   Os recursos  que adotam para a construção da mensagem jornalística também se diferenciam. Particularmente, é notável a contribuição da escola de exercício da reportagem e do ensaio conhecida como jornalismo literário.

Esta atitude proativa é fruto de minha carreira de docente e pesquisador junto à Universidade de São Paulo (USP) onde desenvolvi uma proposta que acena com essa possibilidade de sintonia, batizando-a de “Jornalismo Literário Avançado”. Resulta ainda, da minha integração ao Núcleo de Epistemologia em Jornalismo, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP, que, há anos, realiza um trabalho pioneiro na autocrítica aos pilares epistemológicos do Jornalismo e na indicação de novos rumos para esta área. Os trabalhos deste Núcleo vêm contando com a contribuição notável de sua coordenadora, professora-doutora Cremilda Medina.

Considerando que o curso de Jornalismo, enquanto campo de comunicação pública, é hoje muito mais dinâmico, múltiplo e complexo do que refletiam os cursos até há algum tempo, a proposta de ensino do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba, deveria naõ só abrir-se e estar em sintonia com as novas propostas paradigmáticas, como também viabilizar uma aproximação com centros avançados de estudos sobre a área como é o caso do Núcleo de Epistemologia do Departamento de Jornalismo e Editoração da  Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
A aproximação ocorreu e concretizou-se, em primeiro lugar, com a minha contratação como diretor  do Curso de Comunicação Social.

Ao aceitar o convite da Universidade de Uberaba, ficou evidente para mim que o programa de reformulação ampla da habilitação Jornalismo precisaria contar com uma peça estratégica que desse visibilidade catalisadora ao processo. Essa peça estratégica seria o Jornal-laboratório Revelação. Por exigência legal, os cursos da habilitação em Jornalismo devem produzir, periodicamente, um jornal destinado à prática dos alunos. No caso da Universidade de Uberaba, este jornal-laboratório vem sendo publicado, desde agosto de 1997, com duas características que o destacam: a periodicidade semanal, religiosamente mantida, e a distribuição, como encarte, em dois dos três diários de Uberaba — Jornal da Manhã e  Lavoura e Comércio.

A abordagem sistêmica facilita a compreensão das mudanças introduzidas no Revelação, pois procedem de uma situação contextual abrangente. De um lado, a habilitação em Jornalismo passou a refletir, parcialmente, a busca de  maior integração com os objetivos e as estratégias globais emergentes de outras iniciativas da Universidade de Uberaba.

Dentre essas iniciativas, destaca-se o Mestrado em Ciências e Valores Humanos, instalado em 1997, de  tendência transdisciplinar, no melhor caminho intelectual estabelecido por especialistas de renome internacional, como é o caso de Edgar Morin, ora conduzindo um trabalho de grande escopo sobre transdisciplinaridade, sob os auspícios da Unesco. A intenção é de que esse Mestrado inovador — do qual a Universidade de Uberaba foi pioneira,  em parceria com a Fundação Peirópolis e apoio inicial da  Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — possa contribuir para a formação de um aspecto diferenciador na instituição, banhando tanto quanto possível, enquanto influência renovadora, seus cursos de graduação.

Do Mestrado, surgem valores que passam a alimentar três pilares importantes da mentalidade em implantação na habilitação Jornalismo, seguida da habilitação em Publicidade e Propaganda do Curso de Comunicação Social — humanização, transdisciplinaridade e criatividade. Por outro lado, as mudanças introduzidas procuraram também responder à crise de paradigmas que cerca o Jornalismo e seu ensino, apontada, anteriormente, neste texto.

A redação do Jornal-laboratório Revelação, que funcionava em espaço precário, foi transferida para um novo edifício-laboratório, equipado com computadores e sistemas modernos de jornalismo impresso. O veículo ganhou uma reformulação gráfica importante, passando a ser impresso com capa e páginas centrais coloridas. Estrategicamente, o jornal adotou  uma linguagem verbal e plástica mais próxima às revistas, pois  estava evidente a sua limitação em reproduzir  o dinamismo informativo dos diários. Assim, seu foco editorial dirigiu-se mais para a reportagem de profundidade e para os temas  de maior elasticidade temporal de interesse, junto à opinião pública.  
  
Para criar plasticamente a linguagem visual que se desejava, o veículo passou a contar com a colaboração de André Azevedo, profissional contratado pela instituição para responder pelo projeto gráfico da publicação. A criatividade desse profissional resultou de imediato em capas sugestivas, inovadoras e atraentes.

No plano da resistência desinformada que alguns docentes mantinham quanto à proposta do veículo, foi feito um trabalho informal persistente de esclarecimento, junto ao corpo docente e ao discente, eliminando a falsa noção de que o veículo confundia-se com um objetivo institucional. Por força dessa má vontade de alguns membros do corpo docente, os alunos mantinham uma relação didática precária com o jornal. Assim, não recebiam um feed back  de alguns professores, em relação às matérias produzidas para o veículo. Não podiam saber o quanto tinham acertado ou o quanto precisavam melhorar.  

Para eliminar parte dessa dificuldade, foi instituída no Revelação a figura da supervisora pedagógica, assumida desde o início com entusiasmo pela professora Alzira Borges, que passou a realizar esse importante trabalho de ligação e acompanhamento didático com os alunos que, até então, participavam, mera e espontaneamente, do projeto do veículo. Auxiliando o processo atuaram as editoras Ana Paula Damas, num primeiro momento, e Márcia Borges, posteriormente.

Esses passos iniciais realizados, progressivamente, durante o ano de 1998, alimentaram o grande avanço acionado, no ano seguinte. No plano político da administração interna do Curso de Comunicação Social, os professores que dificultavam o andamento dos trabalhos com o jornal-laboratório ou que simplesmente deixavam de contribuir, foram afastados  das disciplinas técnicas que, teoricamente, deveriam alimentar o veículo com matérias jornalísticas produzidas pelos alunos, como parte de seu aprendizado.

Em seu lugar, a instituição aprovou a contratação de novos professores, melhor qualificados, todos relacionados ao Núcleo de Epistemologia em Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, pós-graduandos (em cursos de Mestrado ou Doutorado), sintonizados com a linha conceitual, metodológica e didática que se implantava. O trabalho acabou contando com a participação e empenho dos docentes — Alex Criado, Monica Luduvig, Ana Taís Martins Portanova Barros, Maria Angela Cappucci e Ana Luisa Brasil — esta última, profissional local que já praticava essa modalidade de jornalismo na imprensa de Uberaba. Simultaneamente, a participação dos alunos no jornal-laboratório tornava-se obrigatória, em harmonia com o planejamento didático de novos professores, que passavam a programar, como trabalhos para a nota, a produção de matérias para o Revelação.

Sob a ótica contextual, iniciativas concatenadas com essas apontadas no parágrafo anterior complementavam o leque de medidas implementadas. Ei-las:
 

  • Inclusão, nas atividades das disciplinas técnicas voltadas à prática da reportagem, da redação e da edição jornalísticas, de conceitos inovadores referentes à atividade profissional do jornalista, tais como: entrevistas de compreensão (definida pela professora-doutora Cremilda Medina); jornalismo literário (elaborado em universidades norte-americanas e explicitado academicamente no Brasil por este autor em sua Tese de Doutorado); e transdisciplinaridade e suas implicações para um jornalismo mais ousado, aberto para o pensamento complexo, no século XXI. 
  • Introdução, nessas mesmas disciplinas, de práticas desinibidoras do texto, usando o método Escrita Total: Escrevendo, a Partir do Lado Direito do Cérebro, desenvolvido na ECA/USP, por este autor.
  • Inclusão, nesse mesmo contexto, de ferramentas culturais inovadoras, como a prática das histórias de vida (narrativas originárias das ciências sociais, aproveitadas empiricamente pelo jornalismo da grande-reportagem) e de seu instrumento auxiliar; a jornada do herói; e as desenvolvidas por este autor no bojo de sua proposta metodológica e conceitual denominada “Jornalismo Literário Avançado”.
  • Oferta de duas disciplinas novas, sob o âmbito dos Tópicos Especiais previstos no curriculum: Livro-Reportagem e Jornalismo Literário, dois campos especializados dos docentes provenientes do Núcleo da ECA-USP já citado.
  • Introdução do livro-reportagem como opção de projeto experimental de final de curso, para os alunos de Jornalismo, em 1999.

3 - O horizonte dinâmico dos resultados iniciais

Os primeiros resultados desse conjunto de iniciativas do Curso de Comunicação da Universidade de Uberaba revelam modificações positivas, oriundas das alterações introduzidas:

  • Dotado de um bom estúdio de rádio, o curso proporciona aos alunos uma prática significativa que, gradualmente, experimenta a introdução de histórias de vida em seu conteúdo: produzem, sob supervisão docente, o programa semanal “Canal Universitário”, que vai ao ar pela Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro AM.
  • Dentro do espírito de integração e diálogo entre o jornalismo e outras áreas de conhecimento, o curso participa de um projeto inédito em cooperação com o Curso de Ciências Aeronáuticas. A cadeira “História da Aviação” é conduzida por docentes da habilitação Jornalismo, empregando-se histórias de vida. Profissionais da aviação dão depoimentos aos alunos de Ciências Aeronáuticas, conduzidos por parâmetros desse método, de acordo com supervisão e orientação desses professores. Os depoimentos são gravados em aúdio e vídeo, podendo ser utilizados também em narrativas impressas. Iniciativas da mesma natureza poderão surgir, envolvendo outros cursos de graduação, tendo como eixo intelectual a habilitação em Jornalismo.
  • Como parte da extensão e desdobramentos de alguns de seus aspectos rumo à pesquisa, ao desenvolvimento curricular e à prestação de serviços à comunidade, o curso centraliza a criação, a instalação e a coordenação do Laboratório Integrado de Narrativas Transdisciplinares, (Lint) ligado, hierarquicamente, ao Instituto de Humanidades da Universidade de Uberaba. O Lint.  organizará cursos de extensão, pesquisas e desenvolvimento de propostas, visando a atender tanto a comunidade interna quanto externa, abrangendo na lista de público-alvo os ex-alunos da Universidade de Uberaba, professores e profissionais da Comunicação Social. Seu primeiro objetivo é reciclar professores da casa, atualizando-os com as tendências e propostas emergentes trazidas pelos docentes, recentemente contratados, e que atuam também    na USP. O Curso de Comunicação Social, como prevê o seu projeto pedagógico, passa a representar estrategicamente, um canal alimentador de inovações, transferidor de conhecimento e know how. Quatro cursos de atualização iniciarão suas atividades, no primeiro semestre de 2000.
  • A aluna Mariângela Camargos classificou-se uma das cinco finalistas nacionais do Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo 1999-2000, promovido pelo Instituto que leva seu nome, na categoria “Estudantes de Comunicação”. Orientada pelos professores e amparada pela ação estratégica do Curso em estimular a participação nessa iniciativa elogiável do Instituto que procura conscientizar a mídia para a cobertura de temas ligados à infância, Mariângela concorreu com seu livro-reportagem “Anjos da Vida”, desenvolvido como projeto de final de curso em 1999.

No âmbito específico do Revelação, os resultados também são estimulantes. O jornal passou, gradativamente, a refletir as mudanças do curso. As matérias produzidas pelos alunos, sob supervisão dos novos professores, começaram a traduzir na prática o ideal que se busca, em termos dos valores humanização, criatividade e transdisciplinaridade.

Mais do que conceitos abstratos, o significado desses conceitos é instrumentalizado, por meio da prática concreta do jornalismo literário e de seus recursos. Em particular, têm destaque as histórias de vida e as técnicas do método Escrita Total, que libera a produção de narrativas jornalísticas mais empolgantes e envolventes.

As duas tecnologias de texto respondem a uma inquietação crescente da opinião pública, bem como de instituições jornalísticas dispostas a uma autocrítica serena. Uma boa parte do público leitor está cansada da forma rasteira e estereotipada com que uma parcela dos meios jornalísticos trata o ser humano em suas matérias.  O destaque superficial,vulgar e fútil é dado a celebridades de todos os escalões, enquanto o cidadão comum pouco aparece.  O ser humano é tratado por chavões, faltando a abordagem digna do indivíduo, no contexto de respeito que merece. O sensacionalismo desagrada, afasta leitores sensíveis, mostra um lado sombrio do jornalismo, que deve ser combatido com prudência, lucidez, por um alto sentido ético.

As histórias de vida trabalhadas sob um padrão ético elevado, em que o indivíduo humano aparece na sua integralidade, com grandezas e limitações da própria condição humana, permitem essa alternativa nobre.  

Ao mesmo tempo, jornais e revistas também perdem leitores, por apresentarem textos pré-formatados em técnicas jornalísticas reduzidas, desfocadas de seu potencial mais amplo. Existe o jornalismo informativo, próprio para a notícia rápida de menor alcance e que  cumpre um papel importante. Mas, quando se aplica a mesma abordagem para reportagens que procuram a profundidade de compreensão da complexa e multifacetada realidade contemporânea, esse instrumental informativo é insuficiente. Nesses casos, o Jornalismo precisa utilizar-se de outros instrumentos. A narrativa necessita força, calor, empolgação, coração e mente, para tocar a sensibilidade e a lucidez mental do leitor.

Entra em ação, para responder a esse desafio, a criatividade, apoiada por métodos como o Escrita Total, direcionada para o jornalismo literário em sua plenitude de excelência potencial. Em paralelo, o princípio que forma a base da transdisciplinaridade aceitação do diálogo entre as ciências, a filosofia, as artes e as tradições, assim como da superação desses níveis para o surgimento de uma perspectiva integradora ainda mais elevada —enraíza uma postura humilde, nas mentes dos alunos, em relação ao grande mistério da existência e da vida .

É este Jornalismo que recebe guarida cada vez maior no Revelação. É este Jornalismo que aponta para os futuros profissionais um novo caminho, proativo, sintonizado com o propósito de cooperação na construção de uma vida melhor, de uma sociedade mais consciente de si própria, sintonizada com o valor de destaque ao ser humano, em oposição à tendência gritante da robotização das pessoas, imposta pela sociedade de consumo no seu extremo exagerado da auto-destruição.  Naturalmente estamos falando aqui de estudantes, no seu aprendizado que pode  ainda exibir alguma limitação de qualidade final.  Contudo, o mais importante é que o Revelação aponta um novo caminho, abre um padrão de motivação digna que os alunos não encontravam antes. Os que se identificam  com a proposta sentem mais orgulho das possibilidades de sua profissão futura.
  
Exemplos das matérias publicadas falam melhor do que o raciocínio puramente expositivo:

  • Edição 59: matéria principal sobre o ex-ídolo do futebol Djalma Santos e seu trabalho comovente com as crianças carentes de Uberaba.
  • Edição 65: matérias integradas colocam, em primeiro plano, os artistas quase anônimos que trabalham em busca do reconhecimento.
  • Edição 81: projeto de coleta seletiva de lixo, educando  o público para a proteção do meio-ambiente.
  • Edição 82: abordagem humanamente elegante da prostituição.
  • Edição 83: um trabalho, ao mesmo tempo, delicado e firme, em torno da luta antimanicomial.
  • Edição 85: divertida reportagem sobre a moradia de estudantes, em suas “repúblicas” habitacionais.
  • Edição 86: um bom exemplo de criatividade. Tomando como mote o Dia dos Namorados, o jornal sai do lugar-comum  focalizando, em história de vida, não um casalzinho de jovens apaixonados, mas uma dupla digna de nota — ele com 67, ela com 65, casados há 45 anos. A repercussão na cidade é tão grande que um dos jornais de Uberaba e uma emissora de televisão saem ao encalço do casal de idosos, depois da publicação da matéria no Revelação. Um momento de glória que sensibilizou alunos e professores: o jornal-laboratório liderando as iniciativas da imprensa estabelecida!
  • Edição 93: destaque para a história de vida de um bóia-fria, com suas agruras de sobrevivência.
  • Edição 94: a chegada de calouros à universidade é motivo de histórias de vidas de sonhos jovens.  
  • Edição 96: sob o selo “ser humano”, a matéria principal lança luzes dignas sobre as pessoas   que sofrem a tragédia das doenças mentais.  
  • Edição 97: amena e colorida vida das crianças, em textos comoventes, divertidos, descobridores: três histórias de vidas surpreendentes, com direito a capa e chamada principal.
  • Edição 103: o olhar dos jovens voa da juventude para a maturidade dos idosos. Assim, uma de nossas repórteres-aprendizes aproxima-se da história de vida de um veteraníssimo radialista da cidade.
  • Edição 105: um toque de delicadeza. “Shantala, a Arte de Amar Seu Filho” mostra sem preconceito a massagem indiana que tranqüiliza bebês, aproximando mães de seus rebentos.

Resultados mais sutis do projeto, igualmente relevantes, são presenciados no clima de trabalho cotidiano do Curso: corpo docente integrado, sintonizado com o novo projeto pedagógico, alunos motivados e participantes, experimentando promissores caminhos  da prática jornalística.
   
A síntese desta experiência em curso é simples de ser formulada. Esta é a jornada que um punhado de professores, alunos e técnicos de apoio está realizando para implantar em seus próprios corações e nas mentes lúcidas uma esperança. A semente corajosa de que no jornalismo do século XXI poderá existir o sonho realizado da construção consciente de um mundo mais digno para a evolução inteligente da instável, porém maravilhosa, espécie humana em Gaia, este belo planeta Terra visto do espaço pelos astronautas como uma só unidade integrada em sua delicadeza de gigantescos espelhos azuis de água, extensas lâminas de terra e nenhuma fronteira artificial  separando os homens de seus irmãos.

     

Referências bibliográficas

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1 Diretor do Curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba.  ( edpl@uol.com.br )

 
     
ABMES - Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior
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